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Friday, October 9, 2026

Trumpistas usam derrotas da esquerda na América Latina para defender desmonte da ajuda externa

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seu filho mais velho e influenciadores conservadores passaram a atribuir as vitórias eleitorais da direita na América Latina ao desmonte da agência americana de ajuda externa, sob o argumento de que recursos favoreciam partidos e governos de esquerda.

A tese, porém, não tem comprovação e reforça acusações de interferência nas eleições brasileiras de 2022 já investigadas pela Folha, que não encontrou evidências para sustentá-las.

A narrativa voltou a ganhar força após o primeiro turno das eleições brasileiras, no último domingo (4), e integrantes do movimento Maga (sigla em inglês para "faça a América grandiosa novamente") a tem difundido. Eles associam os resultados das urnas aos cortes promovidos pelo governo Trump na Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) em 2025.

"Desde que desmantelamos a Usaid, a esquerda não ganhou uma única eleição presidencial na América Latina", escreveu Donald Trump Jr. em publicação mais tarde compartilhada pelo pai.

"Bilhões em dinheiro dos contribuintes financiavam ONGs, programas de democracia e redes de ativistas que convenientemente sempre apoiavam o mesmo lado. Eles chamavam isso de ajuda, mas era interferência eleitoral", acrescentou o filho do republicano, que agradeceu a Elon Musk por ter exposto o suposto esquema.

Ex-assessor especial de Trump e responsável pela atuação do extinto Departamento de Eficiência Governamental (Doge), Musk liderou a ofensiva contra a Usaid, marcada por cancelamentos de contratos, cortes de recursos e demissões em massa.

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O argumento contraria o histórico político da agência, segundo especialistas ouvidos pela Folha. "É justamente o contrário", afirma Alex Main, pesquisador do CEPR (Centro de Pesquisa Econômica e Política), sediado em Washington, sobre a acusação de que a Usaid sustentava governos e movimentos de esquerda na América Latina.

Criada em 1961, durante a Guerra Fria, a agência integrava a estratégia americana de conter a expansão do comunismo e fortalecer governos aliados na região e, portanto, foi agente de política externa de diferentes governos.

Main diz que a maior parte dos recursos ia para programas humanitários e de desenvolvimento, mas os financiamentos políticos historicamente apoiavam organizações de direita e o enfraquecimento da esquerda.

Como exemplos, cita o apoio não militar aos Contras, grupos paramilitares que combatiam o governo sandinista na Nicarágua nos anos 1980, e a assistência à oposição venezuelana liderada pelo presidente autodeclarado (e reconhecido pelos EUA) Juan Guaidó.

Segundo Main, os programas humanitários também buscavam fortalecer aliados de Washington e reduzir o apelo da esquerda. "Há muitas explicações para os movimentos de esquerda terem perdido eleições nos últimos anos, mas a Usaid não é uma delas", afirma.

"Quando olhamos para a parcela dos recursos destinada a programas de natureza mais política, há um padrão muito claro: esse financiamento vai, em grande medida, para organizações de direita ou para programas que buscam enfraquecer governos de esquerda", acrescenta.

Andres Martinez-Fernandez, analista sênior da conservadora Heritage Foundation, atribui o avanço da direita à sua alegada dianteira em frentes como combate ao crime organizado e resposta à sensação de insegurança e à insatisfação econômica.

Para ele, o resultado do primeiro turno no Brasil, inclusive, acompanha a tendência regional de fortalecimento de políticos conservadores e alinhados a Washington. "Estamos diante de um alinhamento importante e histórico", afirma, ao avaliar a possibilidade de maior aproximação entre Brasil, Argentina, Chile e EUA.

A tese sobre a Usaid também ganhou espaço entre influenciadores conservadores americanos que acompanham a política brasileira. Benny Johnson, podcaster de direita, dedicou parte de seu programa de segunda-feira (5) a relacionar o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) ao desmonte da agência.

Em sua transmissão, Johnson classificou as eleições brasileiras como um "terremoto político". Ele se referiu ao pleito como uma disputa em que o presidente Lula (PT) "não tem mais dezenas de milhões de dólares de dinheiro operacional da Usaid sustentando ele e seus aliados".

O programa teve como convidado Mike Benz, ex-integrante do Departamento de Estado e fundador da conservadora Foundation for Freedom Online. Ele afirmou que a Usaid financiava uma rede de instituições brasileiras, incluindo organizações da sociedade civil, universidades, veículos de comunicação e até pessoas ligadas ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Segundo ele, os recursos americanos teriam prejudicado Jair Bolsonaro (PL) e favorecido a vitória de Lula em 2022.

É uma tese repetida e sem embasamento. Em fevereiro de 2025, a Folha mostrou que bolsonaristas e trumpistas difundiam, sem provas, a tese de que a Usaid financiara a vitória de Lula. Benz acusava a agência de pagar advogados para restringir publicações de Bolsonaro no TSE.

O ex-funcionário não apresentou evidências, e a reportagem não encontrou indícios do suposto financiamento. Organizações brasileiras mencionadas nas acusações também negaram ter recebido recursos da agência para interferir nas eleições.

A tentativa de relacionar o desmonte da agência às vitórias eleitorais da direita também esbarra nas particularidades de cada país. Na Bolívia, por exemplo, a Usaid havia sido expulsa em 2013 pelo então presidente Evo Morales, sob acusação de ingerência política, mais de uma década antes da derrota eleitoral da esquerda em 2025.

No início do segundo mandato de Trump, a Casa Branca cancelou contratos, reduziu funcionários e transferiu funções da Usaid ao Departamento de Estado. A justificativa apresentada era o combate a desperdícios e incompatibilidade dos programas com as prioridades do governo.

A repercussão das eleições brasileiras ocorre em meio à aproximação da Casa Branca com governos conservadores latino-americanos, em uma estratégia que combina cooperação em segurança, combate ao narcotráfico e interesses econômicos.

Enquanto Lula mantém divergências com Trump, sobretudo em questões comerciais e de soberania, Flávio Bolsonaro defende maior aproximação com Washington e já manifestou interesse em integrar o Escudo das Américas, iniciativa regional de segurança lançada pelo republicano.

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