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Saturday, October 17, 2026

Vorcaro acessou inquérito sigiloso sobre Tanure e acionou espiões, indicam mensagens

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Brasília O ex-banqueiro Daniel Vorcaro teve acesso, por meio de mais de um interlocutor, a informações sobre um inquérito sigiloso que apurava suspeitas de "insider trading", o uso de informações privilegiadas no mercado de ações, que envolvia o Banco Master e o empresário Nelson Tanure, indicam mensagens trocadas em seu celular.

A partir dessas informações, Vorcaro acionou Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, para conseguir mais dados sobre o caso por meio da rede clandestina que tinha acesso a sistemas da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

O ex-banqueiro também passou a discutir a possibilidade de se antecipar e prestar informações a autoridades para evitar ser alvo de medidas cautelares, como busca e apreensão.

Dois homens sentados em escritório branco. Homem à frente veste camisa branca e olha para frente; homem ao fundo veste terno escuro com gravata rosa e escreve em papel sobre mesa branca.
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro - Reprodução - 28.ago.26

Em 15 de fevereiro de 2024, às 11h36, Vorcaro recebe a mensagem de um advogado sobre o tema: "Compliance do Master pediu informações sobre processos. Desse não temos notícia".

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A mensagem é acompanhada de uma imagem que afirma que havia um inquérito policial "instaurado para investigar supostos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e crimes contra o mercado de capitais envolvendo o Sr. Daniel Bueno Vorcaro e outros".

O Master, apesar de não ser denunciado no caso da Gafisa, foi apontado na denúncia como um braço financeiro e operacional de Tanure.

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Às 11h37, Vorcaro encaminha a imagem a Sicário, e diz, citando o número do inquérito: "Dá uma olhada urgente pra mim". Sicário responde: "Agora". Depois, manda uma mensagem encaminhada: "Já estou em contato com a tropa aqui. A gente vai dar uma atenção especial nessa situação aí".

Segundo investigação que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal), Sicário passou a informação para uma rede de espionagem que envolvia um policial federal aposentado e um da ativa, que discutiram como ter acesso a todo o conteúdo do inquérito. Eles foram alvos da Operação Compliance Zero, que investiga o Master.

As mensagens no celular de Vorcaro, obtidas pela Folha, apontam que no mesmo dia o advogado Fábio Medina Osório, que foi advogado-geral da União no governo Michel Temer (MDB), também trocou mensagens com o ex-banqueiro sobre o assunto e encaminhou a Vorcaro os autos do inquérito.

Osório manteve diálogos com Vorcaro ao menos entre 2023 e 2025. Ele representava um empresário da área da educação que teve uma disputa com Vorcaro, mas acabou fazendo um acordo de não litígio.

À época, Osório diz que vinha tentando montar com o ex-banqueiro um programa de compliance –conjunto de práticas para garantir que as atividades de uma empresa estejam em conformidade com a lei— com o objetivo de apresentar um acordo de leniência (espécie de colaboração premiada de empresas).

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Em mensagem a Vorcaro naquele dia 15 de fevereiro de 2024, Osório diz ter detectado "um assunto preocupante". Os dois se falam ao telefone, e Osório manda um resumo sobre a investigação e, depois, os autos integrais do inquérito.

"Posso ir lá e me apresentar como responsável por teu compliance", sugere Osório.

"Quem coopera não tem razão para sofrer medidas cautelares. Essa deve ser nossa primeira preocupação. Vou pensar num check list de documentos que poderíamos propor ao MPF para juntar como forma de cooperar nas investigações e submeter ao teu crivo", diz ele.

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro mostram Fábio Medina Osório, que foi advogado geral da União - Reprodução/Folhapress

Vorcaro responde que eles podem se reunir por videoconferência, mas pede para ele ainda não fazer contato.

"Não vejo risco nessa semana. Fica tranquilo. Não reuniram elementos ainda. Quando nos antecipamos, e cooperamos, esvaziamos a cautelar", disse Osório. "E ainda por cima em roupagem de compliance."

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"Vamos cuidar disso. O procurador sabe a quantidade de amigos que tenho no MPF", continuou o advogado.

As conversas sobre o tema continuaram nos dias seguintes, mas Vorcaro não avançou na ideia de se apresentar ao Ministério Público.

Captura de tela mostra uma conversa no WhatsApp entre Medina Osorio e outro contato. Medina Osorio envia várias mensagens sequenciais discutindo temas relacionados a compliance, investigação e medidas cautelares, com horários entre 17h22 e 17h25 do dia 15 de fevereiro de 2024.
Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro mostram Fábio Medina Osório, que foi advogado geral da União - Reprodução/Folhapress

Procurado, Fábio Medina Osório disse em nota que recebeu a cópia de um inquérito de um jornalista.

"Como se pode ver nas mensagens, repassei a Vorcaro e sugeri que cooperasse com o Ministério Público, pois era esse o objetivo da nossa proposta de compliance investigativo. Ele não aceitou e não falou mais sobre isso", diz a nota.

"Fiquei sabendo da intervenção do Sicário através desta reportagem. Penso que esse inquérito pode dar pistas de conexões desse personagem Sicário com autoridades importantes. Fiquei sabendo de sua existência pela mídia."

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A investigação sobre insider trading acabou avançando em relação a Tanure, que em janeiro deste ano foi convertido em réu no caso. Ele foi denunciado sob a acusação de usar informação privilegiada para ter vantagem financeira na negociação de ações da Gafisa, empresa da qual é acionista de referência.

O Master ingressou como parte interessada na ação sob representação de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF.

O caso começou a ser apurado depois de uma denúncia feita por Vladimir Timmerman, gestor da ESH Capital, em 2022.

Em nota, a defesa de Tanure afirma que ele não pode fazer avaliação sobre "contexto de mensagens que teriam sido trocadas por terceiros, em conjuntura que desconhece e da qual não fez parte".

O empresário nega irregularidades na ação na qual é réu e diz que a operação em questão "foi amplamente debatida na Gafisa S/A, com a publicação de fatos relevantes antes e depois do fechamento do negócio, que passou pelo crivo e foi aprovado pela maioria dos acionistas da própria construtora, que não foi sequer incluída na acusação".

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"A CVM não apontou até hoje nenhuma ilicitude na assinalada operação e o delegado de Polícia Federal, que também investigou os mesmos fatos, narrou expressamente que não havia encontrado qualquer indício de suposta prática de crime", diz a nota assinada pelo advogado Pablo Naves Testoni.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, se suicidou em março de 2026 na carceragem da Polícia Federal de Minas Gerais.

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