O cálculo de Lula para não ir ao debate da Globo

- Author, Iara Diniz
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
Published
Tempo de leitura: 5 min
A informação foi confirmada por fontes ouvidas pela BBC News Brasil e pela assessoria da emissora. A campanha do petista, contudo, ainda não se manifestou oficialmente.
A decisão repete uma estratégia adotada por Lula em 2006, quando ele também não participou de nenhum debate no primeiro turno.
O cenário, contudo, era diferente. Naquele ano, Lula tinha ampla vantagem nas pesquisas em relação aos demais candidatos e acabou vencendo Geraldo Alckmin — hoje vice-presidente — no segundo turno.
Desta vez, Lula chega ao debate em uma disputa mais apertada. Pesquisas recentes mostram uma corrida apertada entre ele e Flávio Bolsonaro (PL). Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC, a distância entre os dois caiu no primeiro turno, enquanto eles aparecem empatados no segundo turno.
Mesmo assim, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que a decisão pode fazer parte de uma estratégia para preservar Lula de uma exposição que oferece mais riscos do que benefícios.
Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a principal razão seria evitar que Lula se torne alvo de ataques e poupá-lo para o segundo turno.
"Ir ao debate seria se expor desnecessariamente a ataque coordenado de vários políticos ao mesmo tempo, de formas diferentes, então Lula preserva, pelo menos no primeiro turno, a sua imagem", pondera.
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"É uma eleição que está disputadíssima. Se por ventura tiram do sério, ele dá uma escorregada, ele pode perder voto. E, perdendo voto, ele pode perder a eleição", acrescenta.
A cientista política Graziella Testa, doutora em Ciência Política pela USP e professora da Universidade Federal do Paraná, também considera que a decisão pode ser compreendida do ponto de vista estratégico, embora ressalte que ela foge ao padrão mais comum das campanhas.
Segundo ela, historicamente, candidatos que lideram as pesquisas com uma vantagem significativa tendem a evitar debates por considerar que têm mais a perder do que a ganhar — o que não é a situação de Lula atualmente.
Para Testa, parte desse cálculo está relacionada não apenas ao que acontece durante o debate, mas ao que se fala sobre ele depois, especialmente nas redes sociais.
"De duas eleições para cá, importa mais os cortes, os pequenos enxertos do que foi dito, em vez do que foi debatido de forma mais profunda", diz.
Segundo ela, um trecho isolado de uma fala de Lula poderia ser usado para construir uma narrativa mais ampla, inclusive relacionada à idade do presidente, que poderia ser explorada pela campanha de Flávio Bolsonaro e por outros candidatos.
"Eu acho que tem uma avaliação de que uma coisa pequena pode virar decisiva nesse momento", afirma.

Crédito, Getty Images
A estratégia, porém, tem um custo, afirma Marco Antonio Teixeira, professor de Ciência Política da FGV São Paulo.
Para ele, apesar da campanha de Lula avaliar que ele tem mais a perder do que ganhar com a exposição, "não pega bem para o candidato faltar ao escrutínio público".
"E fica claro que ir ou não ao debate depende de estratégia de campanha, e não de dar ao eleitor mais elementos para fazer sua escolha", destaca.
Teixeira pontua ainda que por mais que Lula esteja mantendo um padrão na campanha — não participou de nenhum debate até agora —, ele erra ao adotar essa estratégia numa disputa tão apertada.
"Acho arriscado. Ao faltar ao debate, Lula perde uma ótima oportunidade de mostrar suas diferenças em relação aos outros candidatos, principalmente a Flávio Bolsonaro. E obviamente sua ausência vai ser explorada", destaca Teixeira.
O debate pode influenciar na disputa?
Outro elemento considerado pelos especialistas é o impacto que o debate pode ter sobre uma eleição em que parte significativa do eleitorado já parece ter definido sua escolha.
Prando, por exemplo, não espera que a ausência de Lula produza mudanças no voto do eleitor, em razão do alto grau de cristalização apontado pelas pesquisas.
"Praticamente 87% dos eleitores já cristalizaram o seu voto e não devem mudar de jeito nenhum. Dos eleitores do Lula, 92% dizem que não vão mudar a sua escolha. E do Flávio Bolsonaro são 91%, segundo as pesquisas", pondera.
"Não acredito que haja impacto considerável à campanha do Lula por conta daquilo que pode ser dito ou falado sobre ele na ausência dele", acrescenta.
Cila Schulman, especialista em marketing político e CEO da Idea, também considera limitado o potencial de mudança do debate.
"Eu não vejo, a não ser que aconteça uma hecatombe no debate, alguma coisa muito fora do script, eu não vejo o debate mudando o quadro que a gente tem, que é esse quadro polarizado entre os dois candidatos mais fortes."
O fator Renan
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, foram convidados para o debate Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). O critério utilizado pela Globo considera a representação dos partidos no Congresso após as eleições de 2022, conforme as regras eleitorais para participação em debates.
Flávio havia dito que participaria mesmo sem Lula. A participação de Caiado e Augusto Cury também está prevista.
A Globo informou às campanhas que poderia convidar outro candidato caso um dos nomes originalmente convocados não participasse. Isso, porém, não significa que a substituição seja automática, segundo a emissora.
Renan Santos (Missão) é um dos nomes que passaram a ser mencionados diante da ausência de Lula. Entre os candidatos que não foram convidados originalmente, ele aparece com a maior intenção de voto nas pesquisas divulgadas até o momento.
A Globo ainda não se manifestou sobre a possibilidade de convidá-lo.
Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, uma eventual participação de Renan poderia mudar o tom do debate, especialmente por aumentar o número de candidatos dispostos a confrontar Flávio Bolsonaro. A presença dele também poderia afetar a decisão de Flávio de participar do debate.
"O Flávio anunciou essa ida, pode ter sido uma forma de mudar a pauta no final de semana, que estava mais positiva para o presidente Lula do que para ele, por conta desse ruído todo em torno da religião, e também porque o presidente Lula tinha anunciado ali o fim das bets e outras pautas positivas. Então eu não tenho certeza se ele irá... principalmente se o Renan for", analisa Cila Schulman.
Para Marco Antonio Teixeira, o debate provavelmente terá um tom mais voltado à troca de acusações. Embora a ausência de Lula seja explorada pelos adversários, ele avalia que Flávio Bolsonaro poderá se tornar a principal "vidraça" do debate.
"Não temos visto nessa campanha um debate de propostas, de projetos de país. O que está acontecendo é uma troca de acusações e não tenho dúvida de que vai ser esse o tom do debate, principalmente em relação ao Flávio Bolsonaro diante das últimas repercussões na mídia", afirma.
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