Do jogo do bicho ao tigrinho: a história da jogatina e suas proibições no Brasil

- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para BBC News Brasil
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Tempo de leitura: 7 min
Proibidos atualmente, tanto na versão online quanto na "presencial", cassinos já foram legalizados no Brasil no passado. Não só legalizados, mas eram entretenimento noturno para muitos.
No famoso Cassino da Urca, que operou como tal de 1933 até a proibição dos jogos no Brasil, em 1946, Carmen Miranda era constante na programação — Ary Barroso, Dalva de Oliveira e Emilinha Borba também frequentavam o palco da casa.
A história da jogatina no Brasil tem capítulos muito anteriores às polêmicas bets que se tornaram problema econômico e de saúde pública recentemente.
O marco jurídico que tornou jogos de azar proibidos no Brasil data do Estado Novo de Getúlio Vargas (1882-1954). Oitenta e cinco anos atrás, em 3 de outubro de 1941, sua gestão publicou a chamada Lei de Contravenções Penais.
Na prática, estava criminalizada a prática de jogos de azar — por definição da lei, jogo "em que o ganho e a perda dependem exclusiva ou principalmente da sorte", "apostas sobre corrida de cavalos" fora dos hipódromos - que seguem operando até hoje - e "apostas sobre qualquer outra competição esportiva".
"Apostar em futebol, a partir de uma análise literal da legislação de 1941, sempre foi jogo de azar", comenta o advogado Pedro Ramunno, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Historicamente, o Brasil proíbe a exploração dos chamados jogos de azar", resume a advogada Priscila Arraes Reino, autora do livro Burnout Tem Lei e que, ultimamente, vem analisando casos de ludopatia.
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Professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o advogado Marcelo Crespo complementa que a postura brasileira "sempre foi bastante restritiva" em relação à jogatina.
Do zoológico para a contravenção
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Muito antes da febre do "jogo do tigrinho", um dos alvos da legislação era o famoso jogo do bicho, modalidade inventada pelo empresário João Batista Viana Drummond para incrementar a renda de seu zoológico, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro.
Em 1892 ele criou um sistema em que, junto com o ingresso para o zoo, cada frequentador ganhava um bilhete referente a um dos 25 animais de uma tabela. No fim do dia, um sorteio rendia prêmio aos felizardos que tivessem o bicho contemplado.
A ideia virou sucesso e, em pouco tempo, já tinha ultrapassado — e muito — os muros que cercavam o zoológico. O poder público viu problema na jogatina e começou a criar mecanismos para combater a prática — em 1899, por exemplo, foi instituída uma lei que pretendia punir quem participasse.
Na clandestinidade, o jogo prosperou com uma estrutura complexa de bancas, cambistas e banqueiros, enraizada na sociedade e, ao mesmo tempo, ligada à criminalidade.
Mas se a lei de 1941 enquadrou os jogos de azar, uma exceção, por vezes com contornos de luxo, foi mantida: os cassinos.
O ponto-chave é que o governo Vargas passou a tratar esses espaços de entretenimento e jogatina como exceção, argumentando que os espaços eram importantes para a economia, o lazer e o turismo.
Somente em 1946, já sob a presidência de Eurico Gaspar Dutra (1883-1974) é que os cassinos foram enquadrados: o novo decreto anulou as licenças dessas casas de jogos e revogou normas anteriores que permitiam o funcionamento delas.
"Desde então, o modelo brasileiro é basicamente o que se tem até agora: jogo é proibido, com exceções abertas pelo próprio Estado", diz Ramunno.

Crédito, Getty Images
Loterias
Nessa mesma época, foram criadas as bases para as loterias exploradas pelo próprio Estado — jogos de apostas no Brasil se tornaram monopólio de serviços públicos autorizados e regulados pela própria máquina estatal.
Essa estrutura foi regulamentada por decreto do governo Vargas, de 1944 e, mais tarde, já na ditadura militar, em 1967, nova lei consolidou que a loteria federal era serviço exclusivo da União — desde 2020, o privilégio se estendeu aos Estados também.
"Dentro desse contexto, a grande exceção são as loterias", ressalta Ramunno.
"Existe historicamente a distinção entre jogos de azar e a modalidade de apostas expressamente autorizadas por lei, como as lotéricas", esclarece Crespo.
Por isso o mesmo arcabouço legal que lançou o jogo do bicho para a clandestinidade permite a mega-sena, a quina e a loteria federal, entre outras modalidades de aposta — com controle estatal e parte da arrecadação destinada a finalidades determinadas por lei.

Crédito, Coletivo Pandilla
Dos bingos às bets
Mas não era o fim da linha para o negócio da jogatina. "O esporte já teve uma experiência parecida antes das bets, os bingos", afirma Ramunno.
A partir dos anos 1990, foram liberadas as casas de bingo. Tais espaços foram tratados como exceção temporária e o argumento era que o dinheiro arrecadado com eles seriam revertidos para o financiamento do esporte — o dispositivo estava previsto na Lei Zico, instituída naquele ano. Em 1998, a Lei Pelé manteve a autorização aos bingos — que foram regulamentados.
O modelo acabou, mas não foi de uma hora para a outra. Na sua primeira passagem ao Planalto, o presidente Lula tentou proibir expressamente todas as modalidades de bingo e caça-níqueis, em 2004.
Assim como ocorreu com as bets, ele publicou medida provisória proibindo a atividade.
"É um precedente curioso para o momento atual", afirma Ramunno.
De lá para cá, bingos ficaram restritos a eventos beneficentes e ocasiões como festas juninas. Em uma zona cinza: são tolerados, mas não regulamentados.
Há ainda casos dos títulos de capitalização — o exemplo mais famoso é da Tele Sena, criada em 1991 por uma empresa do grupo do apresentador de TV e empresário Silvio Santos (1930-2024).
Embora tenha premiações e envolva sorteio de números, o seu funcionamento é garantido porque tecnicamente ela não é um jogo, mas sim um investimento — parte do dinheiro se transforma em capital que pode ser resgatado de acordo com as regras do produto, a outra parcela financia as despesas e os sorteios.
No âmbito das apostas on-line, as famosas bets, a autorização foi um pouco diferente.
Em dezembro de 2018, no apagar das luzes do governo de Michel Temer, foi aprovada as chamadas apostas de quota fixa, abrindo espaço para as bets e aplicativos online como o famoso jogo do tigrinho.
"O Brasil não tinha legalizado os jogos de azar em 2018, mas sim o Congresso acabou criando uma exceção legislativa", compara Crespo.
Segundo Ramunno, as apostas de quota fixa foram "encaixadas juridicamente como modalidade lotérica, portanto como serviço público da União, mas explorado por empresas privadas em regime de concorrência".

Crédito, Nelson Almeida/AFP via Getty Images
A lei deu dois anos, prorrogáveis por mais dois, para o Ministério da Fazenda regulamentar. O prazo venceu no fim de 2022 sem regulamentação.
Foi então que se abriu o limbo. "A atividade estava autorizada por lei, mas não havia regra nenhuma", afirma Ramunno.
"As empresas, quase todas sediadas em Curaçao, Malta e outros paraísos regulatórios, entraram no mercado brasileiro pela internet. Não pagavam imposto no Brasil, não tinham que identificar o apostador e não seguiam nenhuma regra de publicidade. Só em dezembro de 2023, com a Lei 14.790, o setor ganhou, de fato, um marco regulatório."
"[No caso das bets] o problema foi que a atividade foi regularizada antes de existir regulamentação", argumenta a advogada Reino. "Esta é uma lição importante: muito mais difícil controlar o mercado depois que ele já adquiriu enorme dimensão econômica e social."
Só em 2023 veio a regulamentação e, de lá para cá, uma série de ajustes e dispositivos foram implementados buscando coibir os problemas financeiros e de saúde desencadeados pela compulsão.
A mesma lei de 2023, além das apostas esportivas, incluiu os chamados "jogos online". "Em outras palavras, caça-níquel, roleta, os crash games, o tigrinho. Então, na prática, o Brasil legalizou o cassino online e manteve proibido o cassino físico, feito de tijolo e cimento", diz Ramunno.
"E qual a diferença para as loterias? Na loteria clássica, o prêmio sai do rateio do que foi arrecadado, o organizador é o Estado e o apostador joga uma ou duas vezes por semana. Na quota fixa, o valor do prêmio fica definido no momento da aposta", compara Ramunno.
"A casa aposta contra o apostador, o operador é privado, o produto está no celular 24 horas por dia, com jogos acontecendo no mundo inteiro a todo minuto. Juridicamente, as duas coisas estão sob o mesmo guarda-chuva de modalidade lotérica. Na prática, são produtos completamente diferentes, inclusive no potencial de causar dependência."
Autor do livro Futebol S/A: A Economia em Campo, o jornalista Anderson Gurgel, professor no Mackenzie, acredita que o problema das apostas do Brasil é que "a sociedade brasileira, de maneira sistêmica, ficou viciada no mundo das bets."
Não só as pessoas que jogam, argumenta ele. "A mídia, o mundo do futebol e a sociedade como um todo ficaram dependentes", diz ele.
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