Palavras de mulheres urgentes

Este regresso às livrarias deve-se, de acordo com a organizadora, Ana Paula Ferreira, Professora Catedrática Emérita do Departamento de Estudos em Espanhol e Português da Universidade de Minnesota, aos leitores e à crítica que voltaram o seu interesse para este tipo de memória literária. Com efeito, a académica refere ainda alguns avanços científicos nesta área, nomeadamente o projecto de investigação e a base de dados Mulheres Escritoras, desenvolvidos por investigadores ligados à FCSH, da Universidade Nova de Lisboa.
Revista e aumentada, esta edição conta ainda com uma longa introdução da própria investigadora, que, entre outras, refere não apenas a pertinência da antologia para o público contemporâneo, mas também a singularidade da década de 1940, particularmente profícua em prosa curta, tendo sido publicado um número de livros e novelas sem precedentes na nossa história. Ao mesmo tempo, deu-se aí um grande aumento das publicações ficcionais de autoria feminina. Além disso, a autora sublinha o próprio teor das publicações, destacando “um diálogo crítico (…) com os valores morais sobre a mulher e a família propagados pelos órgãos do regime com a ajuda de noções arraigadas na cultura tradicional” (p. 21). As autorias são diversas, destacando-se as repetições de Irene Lisboa (dois textos) e de Maria Archer (três textos).
Tem havido um interesse crescente no tema da produção literária de mulheres durante o Estado Novo. Isto observa-se no público, na crítica, e sobretudo na academia, sendo que um alimenta os outros. Novas Cartas Portuguesas (1972), de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, terá aqui especial destaque, havendo uma miríade de outros livros que suscitaram a atenção de quem procurava cogitar o acesso à produção simbólica durante uma ditadura que menorizava o papel das mulheres no espaço público, fazendo os possíveis pela sua domesticação, ou seja, pelo seu confinamento ao espaço doméstico e ao papel dos cuidados.
Provas disso serão os próprios relatórios da censura, que muitas vezes se debruçavam sobre as questões de autoria. Por exemplo, aquando da publicação de Vinte Anos de Manicómico, de Carmen Figueiredo, lia-se no relatório que “O livro tem ‘um realismo tão cru e descrições de tal basévia e lubricidade que custa a crer terem sido escritas por uma mulher’”. O livro, deve dizer-se, não foi censurado assim que publicado, já que, “como era feito por uma escritora”, os censores da PIDE nunca supuseram “que esta tivesse escrito com tanta realidade”.
Título: “A Urgência de Contar” | Organizado por: Ana Paula Ferreira | Editora: Caminho | Páginas: 328
Parte destes trabalhos académicos tem ainda servido para resgatar a memória de escritoras que foram apagadas pelo tempo ou pela acção censória. Ana Paula Ferreira destaca, neste volume, o trabalho de Paula Mourão a reavivar Irene Lisboa, assim como um interesse crítico amplo em torno de Maria Archer. O que terá particular interesse na colectânea será a sua organização temática, além da sua diversidade, sendo que há uma preferência por textos que reflictam cenas da vida privada naquele início do Estado Novo. E não surpreende que o Estado Novo, que parece contexto em muitos destes contos, seja também texto.
Logo à cabeça do compêndio, há três textos cuja temática comum é um pretenso respeito a figuras de autoridade do passado: ali, as heranças pesam e enformam a vida e as decisões, seja em termos materiais, genéticas ou memoriais. Num segundo grupo, temos situações em que se vê o código moral a que as mulheres estavam sujeitas, por exemplo através da associação entre a vida urbana e a perdição moral, ideia que já parecia muito comum dos trabalhos de Nita Clímaco (nascida na década de 20, e que não faz parte deste trabalho), sendo que esta usava o cenário de Paris – mais urbano, mais sofisticado – para criar essa ideia e essa ligação. Um terceiro conjunto de contos mostra a crua realidade que existe atrás da ideia de que o lar rural é simples e feliz. O último conjunto traz outro elemento que também tem tido muito interesse entre os leitores e os académicos contemporâneos: aqui, há uma dimensão colonial das cenas domésticas, abrindo-se ainda perspectivas sobre relações raciais.
Ora, tudo pesado, o livro interessa precisamente pelo que tem de diverso, sendo que esta diversidade deita por terra a ideia de que a “autoria feminina” é um nicho em si: em vez disso, vemos um conjunto de textos que não se encerra numa condição comum, ou num interesse, ou numa perspectiva, muito menos num sujeito estanque. Os textos revelam não apenas que a vida privada é atravessada por relações de poder, onde a família, a herança e até o casamento reproduzem hierarquias sociais e morais, mas também que o Estado era uma mão que entrava em cada lar. Num pequeno compêndio, vê-se a literatura como instrumento de observação: no caso, vê-se também de que forma – e agora a alguma distância – é que a ideologia dominante se tentava fazer passar por ordem natural, fosse através da subordinação das mulheres, fosse através da romantização da casa e do espaço rural.
Assim, A Urgência de Contar ultrapassa em muito o interesse documental – académico, vá – de recuperar textos de uma época que não abunda nas prateleiras, e também de autoras que foram desaparecendo, seja pela acção censória (Maria Archer, por exemplo, teve dois livros proibidos e censurados pelo Estado Novo: Casa sem pão, de 1947, e Ida e volta de uma caixa de cigarros, de 1938), seja pela acção do tempo.
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