Lula vai abrir Assembleia da ONU com defesa do multilateralismo e da soberania brasileira
O debate geral reúne quase 130 chefes de Estado e de governo e se estende até 28 de setembro. O tema escolhido para esta edição é "Restaurar a confiança, administrar a transformação: uma ONU que funcione para todos".
Como manda a tradição, o Brasil será o primeiro país a discursar. Lula será seguido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o que abre a possibilidade de que os dois se encontrem informalmente nos bastidores, embora, até agora, não exista uma reunião bilateral confirmada.
Multilateralismo e soberania
O principal eixo do discurso de Lula deve ser a defesa do multilateralismo. Segundo a diplomacia brasileira, o presidente vai apresentar a negociação como caminho para a solução de disputas internacionais e defender o respeito ao direito internacional humanitário e ao princípio da não interferência nos assuntos internos de outros países.
A reforma das Nações Unidas também deve ocupar espaço importante. O Brasil defende há anos mudanças na composição do Conselho de Segurança, atualmente formado por 15 integrantes, dos quais cinco ? Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido ? têm assentos permanentes e poder de veto.
A posição brasileira é de que a atual estrutura não representa adequadamente a distribuição de poder e a diversidade do mundo contemporâneo. O tema ganha ainda mais peso diante da dificuldade do Conselho de Segurança de chegar a consensos sobre alguns dos principais conflitos internacionais.
Lula também deve abordar a defesa da soberania brasileira. A diplomacia nega que o discurso tenha caráter eleitoral, e a expectativa é de que o presidente não mencione Trump nominalmente. O brasileiro, no entanto, deve defender as instituições nacionais e rejeitar interferências estrangeiras nos assuntos internos do país.
A passagem do presidente por Nova York será curta. Depois do discurso, Lula deve retornar ao Brasil ainda nesta terça-feira.
Possível encontro entre Lula e Trump
A proximidade entre os discursos de Lula e Trump aumenta a expectativa sobre um possível encontro dos dois presidentes nos corredores da ONU.
No ano passado, os dois se encontraram brevemente nos bastidores da Assembleia Geral. Desta vez, porém, o eventual contato acontece depois de uma série de divergências públicas entre os dois governos, envolvendo comércio, tarifas, soberania e a atuação dos Estados Unidos no cenário internacional.
Na véspera do discurso, Lula voltou a criticar Trump durante uma entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional. O brasileiro disse discordar da maneira como o presidente americano governa e voltou a compará-lo a um "imperador". Lula afirmou ainda que Trump foi eleito para governar os Estados Unidos, mas não tem o direito de governar outros países.
A questão eleitoral também apareceu na entrevista. Lula afirmou ter pedido diretamente a Trump que os Estados Unidos não interfiram no processo eleitoral brasileiro e disse que o presidente americano tem sinalizado que não pretende se envolver na disputa.
Apesar das divergências, os dois governos mantêm canais de diálogo, inclusive nas negociações comerciais. Até a noite desta segunda-feira, porém, não havia confirmação de uma reunião bilateral em Nova York.
Guerras e energia dominam encontros
Trump já iniciou sua agenda diplomática às margens da Assembleia. Nesta segunda-feira, o presidente americano se reuniu com o presidente francês, Emmanuel Macron, para discutir, entre outros assuntos, a guerra na Ucrânia e a situação no Mar Vermelho.
Macron classificou a conversa como "muito construtiva". Segundo o francês, os dois discutiram a possibilidade de uma moratória entre Rússia e Ucrânia para interromper ataques contra infraestruturas de energia. Macron também defendeu acelerar o fornecimento de interceptadores para reforçar as defesas ucranianas.
As crises energéticas devem atravessar boa parte das discussões desta semana em Nova York. Os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia vêm provocando perturbações nas cadeias de abastecimento e fortes pressões sobre os preços dos combustíveis. Nesta semana, os preços globais do diesel atingiram níveis recordes em meio às interrupções de oferta relacionadas aos conflitos no Irã e na Ucrânia.
ONU sob pressão
A 81ª Assembleia Geral acontece em um momento particularmente delicado para o sistema multilateral.
Além das guerras e tensões geopolíticas, as Nações Unidas enfrentam dificuldades financeiras e uma discussão cada vez mais intensa sobre a capacidade de suas instituições de responder às crises internacionais.
O Conselho de Segurança é um dos principais alvos desse debate. O uso do poder de veto pelos membros permanentes tem impedido decisões em diferentes conflitos e reforçado as cobranças por mudanças na estrutura criada no pós-Segunda Guerra Mundial.
É nesse contexto que países como o Brasil defendem uma maior representação das nações em desenvolvimento nos principais órgãos de decisão da ONU.
A própria organização escolheu como tema da 81ª sessão "Restaurar a confiança, administrar a transformação: uma ONU que funcione para todos". Além do debate geral, a semana de alto nível terá encontros dedicados a temas como clima, elevação do nível do mar, preparação para futuras pandemias e direito ao desenvolvimento.
Sucessão de Guterres
Outro elemento torna esta Assembleia particularmente importante: António Guterres está no último ano de seu segundo mandato como secretário-geral, e o processo para a escolha da próxima liderança das Nações Unidas já está em andamento.
A sucessão ocorre em meio a uma discussão sobre o futuro da própria instituição e à pressão para que, pela primeira vez em oito décadas de história, uma mulher assuma o principal cargo da ONU.
A escolha do secretário-geral passa pelo Conselho de Segurança, que recomenda um nome à Assembleia Geral ? o que dá aos cinco membros permanentes, na prática, grande influência sobre o processo.
A transição acrescenta uma dimensão política a uma Assembleia já marcada por guerras, tensões entre grandes potências e questionamentos sobre a capacidade de atuação das instituições multilaterais.
Agenda brasileira continua após saída de Lula
Embora Lula deixe Nova York depois do discurso, a agenda diplomática brasileira continua durante a semana.
O chanceler Mauro Vieira permanece na cidade para uma série de reuniões multilaterais. Estão previstos encontros de grupos como Brics, G77, G4, IBAS, CPLP e Celac, além de discussões sobre a Palestina e a solução de dois Estados, direito internacional humanitário, segurança alimentar, combate à desigualdade e cooperação internacional.
Na quarta-feira (23), Vieira também participa de uma reunião ministerial da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa lançada pelo Brasil durante a presidência brasileira do G20.
A 81ª Assembleia Geral segue até a próxima segunda-feira (28), com discursos de líderes mundiais e uma extensa agenda de encontros paralelos em Nova York.
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