O "xadrez" que vai reconfigurar o BCE com a saída de Lagarde

O “fumo” surgiu há um ano e meio e, agora, também o “fogo” se tornou mais visível. A Reuters noticiou, na quinta-feira, que a francesa Christine Lagarde se prepara para sair do BCE um ano antes do fim do mandato e que poderá ser nomeada já a 2 de novembro para a liderança do Fórum Económico Mundial, uma influente organização internacional que é conhecida por organizar a cimeira de Davos. O momento da provável saída não é o mais tranquilo que Lagarde poderia desejar, mas o risco de não sair é ainda pior: significa, potencialmente, envolver o próprio BCE na turbulência política que se vive na zona euro – sobretudo no seu país natal.
A revelação de que Lagarde poderia suceder ao controverso Klaus Schwab na liderança do Fórum Económico Mundial (WEF, na sigla original) foi feita ao Financial Times, em maio de 2025, pelo próprio. A presidente do BCE teria, segundo Schwab, estado pessoalmente envolvida nos preparativos da mudança e terá sido, mesmo, reservado um luxuoso apartamento, na Suíça, para que Christine Lagarde pudesse lá viver nos períodos em que estivesse no país.
Aliás, parte da polémica que nessa altura se tinha abatido sobre Klaus Schwab estava relacionada com a alegada utilização desse apartamento – no condomínio Villa Mundi, propriedade do WEF – por membros da família do fundador. Schwab defendeu-se dizendo que aquele apartamento não era para si mas, sim, para Lagarde.
Todos estes planos de sucessão terão sido, porém, perturbados pelas alegações de conduta imprópria – incluindo assédio sexual e bullying laboral – que levaram à saída de Klaus Schwab da instituição que fundou e que, entre outras iniciativas, reúne anualmente os principais governantes, empresários e banqueiros do mundo em Davos.
Os rumores de que Lagarde poderia sair antecipadamente subiram de tom em fevereiro, antes do início da guerra no Irão, quando o BCE estava a navegar em velocidade de cruzeiro, com a taxa de juro “estacionada” em 2% e a inflação controlada, bem próxima do objetivo.
A imprensa financeira internacional noticiou, nessa altura, que a francesa estaria a aproveitar as “águas calmas” de então para acelerar os preparativos para abandonar o cargo. Isto porque, dessa forma, garantia-se que ainda seria Emmanuel Macron o Presidente de França na altura em que se tiver de escolher um sucessor. O receio era que, se se esperar pelo fim natural do mandato de Lagarde, nessa altura França poderia, eventualmente, ter um Presidente de extrema-direita, que teria um peso decisivo na escolha.
Mas, desde então, tudo mudou. A guerra no Médio Oriente gerou (mais) um choque energético que fez derrapar a inflação e obrigou o BCE a subir novamente as taxas de juro, algo que já aconteceu duas vezes (de 2% para 2,25% e, depois, para os atuais 2,5%). Por outro lado, a instabilidade social e as dificuldades orçamentais de França colocou o país no centro das preocupações dos responsáveis europeus (e dos investidores).
“Não diria que estamos em crise, mas vêm aí eleições em França, em Espanha, possivelmente na Alemanha, e temos as taxas de juro em máximos de vários anos, ao mesmo tempo que a inflação está demasiado elevada e somos afetados por duas guerras”, salienta Filipe Garcia, economista do IMF – Informação de Mercados Financeiros. “Talvez dizer que é uma má altura [para a saída de Lagarde] não seja justo, mas sem dúvida que não vivemos um tempo fácil”, considera o economista.
A Reuters, nesta quinta-feira, frisou que, segundo as suas fontes, a decisão de sair ainda não está tomada. Mas, no mesmo dia, outra agência, a Bloomberg, avançou que esta constante indefinição sobre os planos de Lagarde está a deixar alguns responsáveis do BCE agastados e impacientes, porque esta situação, consideram, está a desgastar a instituição e a gerar especulações sobre sucessores que acabam por ter um efeito desestabilizador.
Publicamente, Lagarde só, em finais de setembro, admitiu poder sair antecipadamente. “Não descarto a possibilidade de sair alguns meses antes do fim do meu mandato, mas não anunciei nada em específico e uma coisa é certa: ainda cá estarei em 2027”, disse ao jornal La Croix. “Se eu sair mais cedo, será apenas uma questão de alguns meses. Não será algo que mude o mundo”, afirmou a francesa, que está prestes a lançar um livro de memórias.
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