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Sunday, September 20, 2026

Ópera em Belo Horizonte humaniza Chica da Silva e revisita o mito histórico

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Longe da lascívia que caracterizou a Xica da Silva de Zezé Motta no longa recém-restaurado de Cacá Diegues, de 1976, ou mesmo das polêmicas que rondaram a adaptação da personagem de Taís Araújo na novela da década de 1990, da extinta TV Manchete, a nova ópera "Chica da Silva" se afasta do mito eternizado no imaginário popular para investigar a humanidade de uma mulher negra.

Na montagem produzida pelo Palácio das Artes, em Belo Horizonte, predomina no palco uma história de amor permeada pelos conflitos raciais e econômicos do século 18 e pelas próprias contradições do legado daquela que Cecília Meireles descreveu como "a Chica da Silva, a Chica-que-manda".

A ópera estreia neste sábado, na capital mineira, e tem apresentações agendadas para segunda e quarta-feira. Uma versão reduzida da ópera chamada "Chica em Diamantina" foi encenada numa das praças da cidade histórica mineira.

Como conta o cineasta Marcos Bernstein, libretista da montagem ao lado de Flávia Bessone, a obra tensiona os olhares externos à figura de Chica com o que poderiam ter sido os desejos e aflições da personagem. Bernstein é diretor de "Meu Pé de Laranja Lima", de 2013, e um dos roteiristas de "Central do Brasil", de 1998.

"Nossa ideia é construir a história de uma mulher que viveu nessas condições e conseguiu o melhor que ela podia alcançar dentro deste contexto", afirma o libretista. "É uma história com emoção, tanto dentro das conquistas quanto dentro das armadilhas, que tenta humanizar essa figura."

Filha de um pai branco e uma mãe escravizada africana, Chica da Silva nasceu entre 1731 e 1735 e viveu a opulência do ciclo da extração de diamantes em Diamantina, antigo Arraial do Tejuco.

Ela foi alforriada pelo contratador João Fernandes de Oliveira, com quem manteve uma união descrita como um regime de concubinato estável, já que a legislação vigente impedia o casamento oficial. Eles permaneceram juntos por 17 anos, até a partida de João Fernandes para Portugal, e tiveram 13 filhos, todos reconhecidos pelo nome do pai.

"Qualquer tentativa de apagar o relacionamento amoroso deles é também uma tentativa de apagar quem, na verdade foi a Chica", diz o tenor Ewandro Stenzowski, que na montagem interpreta o contratador.

Estratégias de construção dessa subjetividade podem ser vistas já no primeiro ato da ópera, dedicado a evidenciar os desafios impostos a um relacionamento inter-racial entre uma mulher escravizada e um contratador de diamantes.

Numa das músicas, Stenzowski canta que o olhar altivo, o amor-próprio e o desafio nos olhos de Chica o atraem, mas se questiona se, quando liberta, a amada continuará lhe desejando. "Como não desejar ascender? Como não desejar se libertar?", ele se questiona.

As dúvidas são sanadas num dueto que opera como uma declaração de amor. No palco, um sol se acende no momento em que Chica recebe do contratador sua carta de alforria, e ambos caminham juntos, de mãos dadas, para fora da cena.

A soprano paulista Marly Montoni, que dá corpo e voz à personagem-título, conta que levou muito da sua intimidade pessoal para representar a figura histórica.

Também filha de mãe negra e pai branco, e também vivendo um relacionamento inter-racial com o marido, ela diz que muitas das suas experiências diárias e pessoais estão em cena. "A Chica, em certos aspectos, sou eu. Não vou dizer que foi fácil, mas eu tinha muito material para poder compor essa mulher", diz Montoni.

Ainda que a construção do libreto tenha se amparado em relatos e pesquisas históricas, como a biografia lançada em 2003 pela historiadora Júnia Ferreira Furtado, o elenco reforça que a ópera se vale da ficção para alcançar intensidade dramática e tratar de discussões que possam reverberar na atualidade.

"Ela virou uma lenda por conta do que ela conquistou no período em que ela conquistou", afirma a soprano. "Se até hoje pessoas ainda resistem em ver pessoas não brancas em outros lugares de poder, imagina naquela época."

Nesse sentido, a direção da montagem também levou em conta elementos da cultura afro-brasileira para criar uma homenagem à Chica da Silva. Exemplos são a intervenção do congado e da capoeira nas músicas e coreografias de tradição clássica, e um cenário composto com "adinkras", símbolos de povos da África Ocidental até hoje presentes em grades, portões e fachadas de casas antigas.

"A gente traz as marcas dessa cultura que, na época, foi silenciosa, para o primeiro plano do projeto, com referências de quem, de fato, construiu esse país", diz Julianna Santos, que assina a concepção e direção cênica.

A ópera tem direção-geral de Cláudia Malta, música de Guilherme Bernstein e direção musical e regência de André Brant. A montagem integra as celebrações dos 55 anos do Palácio das Artes, e dá sequência ao investimento do complexo cultural na produção de obras com foco na cultura mineira, como foi o caso de "Aleijadinho", em 2022.

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