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Saturday, September 26, 2026

Fernando Lemos exorciza as ditaduras em Portugal e no Brasil com o surrealismo

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Esse é um mundo habitado por vultos e sombras, onde tudo anuncia um mau presságio. Portas e janelas parecem esconder um perigo iminente. Manequins adquirem uma aparência estranhamente tétrica. Seres humanos são apenas formas difusas e inexatas em meio à penumbra. Nas fotografias de Fernando Lemos, Portugal é uma terra confinada na escuridão e na vertigem.

Produzidas entre 1949 e 1952, as imagens crepusculares capturam a atmosfera de terror que pairava sobre o país durante a ditadura de António de Oliveira Salazar. As obras, no entanto, evocam mais do que a melancolia daquele período —expressam também a subversão da realidade por meio do caráter onírico do surrealismo. Em suas imagens, Lemos oferece uma alternativa na arte para a opressão da política.

Essas fotografias divididas entre o horror da ditadura e o desejo por liberdade estão reunidas agora em uma exposição no Instituto Moreira Salles, na capital paulista. Intitulada "Quanto Mais Desejo, Mais Invento O Que Vejo", a mostra reúne mais de 400 obras daquele que é considerado o ícone do surrealismo na fotografia.

Entre imagens, pinturas, poemas e desenhos, a mostra celebra o centenário de nascimento do artista luso-brasileiro, morto em 2019, aos 93 anos. "Ele se dedicou a pensar um vocabulário da liberdade e a libertar a gente das repressões através da arte", diz Thyago Nogueira, curador da exposição.

Esse processo de libertação era feito sobretudo por meio do surrealismo, movimento que explorou o sonho e o inconsciente para desafiar o império da lógica e da racionalidade. Por isso, Lemos buscava revelar os mistérios do inconsciente em seu trabalho, prática que costumava chamar de "desocultação".

Uma das fotografias da mostra parece sintetizar essa ideia ao retratar um cômodo escuro em que a única fonte de luz vem da fresta de uma porta entreaberta. Por meio dessa composição, é como se o fotógrafo convidasse o observador a atravessar um portal para desbravar um universo desconhecido.

Lemos, no entanto, foi além dos aspectos psicanalíticos do surrealismo ao conferir dimensões políticas ao movimento. "Ele sai da questão de ser só um lugar de criação artística e de imaginação para entender o surrealismo como uma estrutura de crítica aos contextos ditatoriais, tanto do Brasil quanto de Portugal", afirma Nogueira.

Essa dimensão política pode ser vista em "Eu, Poeta". Na imagem, vemos o artista deitado no chão enquanto um emaranhado feito de fibra de vidro envolve seu rosto, elemento que se confunde com uma nuvem de pensamentos. Dois objetos posicionados sobre esse novelo adicionam camadas simbólicas à cena.

À direita, há uma carta que representa o personagem O Enforcado, arcano do tarô que simboliza sacrifício e momentos de crise. À esquerda, um punhal evoca a ideia de perigo e violência, sensação que aumenta quando vemos a gravata do fotógrafo. "A foto remete ao enforcamento. É uma brincadeira com a tortura: não precisam me enforcar, já me enforquei", disse o artista, em entrevista à revista Zum.

Com elementos tão simples quanto uma gravata e uma carta de tarô, o fotógrafo criticava a asfixia social do salazarismo sem atiçar o escrutínio da censura. Isso acontecia justamente porque Lemos se valia da linguagem simbólica para ludibriar o aparato repressor.

"O surrealismo é uma forma de libertar as imagens do inconsciente, mas também de fazer uma leitura crítica da realidade que tivesse ambiguidade para navegar num contexto de ditadura", diz Nogueira.

Além da ambiguidade, o trabalho de Lemos é conhecido pela subversão estética. Um exemplo disso são os retratos que ele produziu de artistas como Mário Cesariny, António Pedro e Hilda Hilst. Nos registros, ele deixava de lado a busca pela nitidez típica do retratismo para explorar a dúvida, o mistério e a incerteza.

"Naquele momento, o retrato estável, fixo, que revelasse a identidade, era visto como parte da repressão policial. Era a imagem do fichamento", diz Nogueira. "Então, ele falava que queria ir contra isso por serem artistas livres, em fluxo, tentando manobrar e driblar essa repressão."

Por esse motivo, seus retratados não costumavam encarar a câmera, como se tentassem fugir de olhares curiosos. Em outros casos, eles apareciam em meio a múltiplas versões de si mesmos.

Lemos alcançava esse efeito por meio da sobreposição de imagens. "Quando fotografamos uma pessoa, não estamos fotografando uma coisa fixa, uma máscara", disse ele, na entrevista à Zum. "Então o retrato deve ser múltiplo, para dar mais vida à imagem."

Essa multiplicidade pode ser encontrada também nas gravuras que ele produziu ao longo da carreira. Embora seja muito conhecido pelas fotografias, Lemos fez do desenho a espinha dorsal de seu trabalho.

Ele descobriu essa prática ainda na infância, em Lisboa, período em que enfrentou pobreza, repressão da ditadura e complicações de saúde decorrentes da poliomielite. De certa forma, esse contexto adverso influenciou aquilo que ele criava sobre o papel.

Por isso, algumas de suas gravuras dão vida a corpos disformes por meio de traços sombrios e coléricos. A partir de 1953, porém, o trabalho de Lemos sofreu uma inflexão. À época, ele deixou Portugal para se exilar no Brasil, país em que viveu até a sua morte.

Por aqui, os desenhos adquiriram fluidez, erotismo e sinuosidade, como se ele festejasse por meio da arte a liberdade recém-adquirida.

A festa, porém, não duraria muito tempo. Em 1964, os militares tomaram o poder e lançaram o país em uma ditadura marcada por censura e violência. A exemplo do que fez em Portugal, ele usou a poética para confrontar a opressão.

Em "Moto Continuum", criou uma série de desenhos que retratam objetos destituídos de sua utilidade, como relógios sem ponteiros. "Ele está questionando por que a gente produzia toda aquela industrialização se o empresariado apoiava a ditadura", diz o curador. "A quem ela servia se não beneficiaria ninguém?"

Obras como essa evidenciam a natureza questionadora de Lemos, um artista que fez da arte uma forma de defender a cultura e a liberdade de expressão. "Ele vinha de uma sociedade que tinha sido oprimida e reduzida. Quando chega ao Brasil e vê a coisa ficando esquisita, Lemos tem clareza de que precisamos lutar por esses pilares fundamentais."

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