Urna eletrônica faz 30 anos com mais acessibilidade e segurança reafirmada
A urna eletrônica completa 30 anos de uso em eleições brasileiras em 2026. Criada para substituir gradualmente a votação em cédulas de papel, o sistema estreou nas eleições municipais de 1996 e, quatro anos depois, já era utilizado em todo o país.
A ideia de mecanizar a votação, porém, é bem mais antiga. O primeiro Código Eleitoral brasileiro, de 1932, já previa a possibilidade de uso de "máquinas de votar", desde que o sistema preservasse o sigilo do voto e fosse regulamentado pela Justiça Eleitoral.
Neste ano, as principais mudanças estão voltadas à acessibilidade. A urna terá nova interface, fonte criada para facilitar a leitura, telas reorganizadas, barra de progresso durante a votação e ampliação das informações exibidas em Libras.
O TSE prevê o uso de 563.910 urnas de quatro gerações diferentes (UE2013, UE2015, UE2020 e UE2022). As siglas identificam versões distintas do equipamento, com diferenças principalmente de hardware e capacidade de processamento.
Os dois modelos mais recentes, UE2020 e UE2022, representarão 77% das urnas usadas no pleito, mas todos terão os mesmos recursos para o eleitor e utilizarão os sistemas desenvolvidos pela Justiça Eleitoral.
A trajetória até chegar a esse conjunto de equipamentos começou décadas antes da estreia oficial da urna eletrônica, em 1996.
Em 1958, uma das primeiras experiências conhecidas foi desenvolvida por Sócrates Ricardo Puntel. A chamada máquina de Puntel tinha teclas e réguas para a escolha dos candidatos, mas nunca chegou a ser adotada oficialmente em eleições.
O processo que resultaria na urna atual ganhou força a partir da década de 1980. Entre 1985 e 1986, a Justiça Eleitoral criou um cadastro nacional informatizado de eleitores, reunindo cerca de 70 milhões de registros em uma base única. A informatização permitiu centralizar informações que antes estavam dispersas pelos estados.
Em 1989, Brusque (99 km de Florianópolis) recebeu uma experiência de votação por computador no segundo turno da eleição presidencial. Naquele mesmo pleito, os tribunais regionais eleitorais passaram a transmitir informações para um computador central do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Cinco anos depois, em 1994, a Justiça Eleitoral realizou pela primeira vez o processamento eletrônico dos resultados de uma eleição geral utilizando a própria estrutura. A votação ainda era feita em papel, mas a totalização dos votos já havia entrado na era digital.
O projeto da urna eletrônica começou a ser desenvolvido em 1995, durante a presidência do ministro Carlos Velloso no TSE. O equipamento, inicialmente chamado de Coletor Eletrônico de Votos, foi projetado para permitir que o eleitor escolhesse os candidatos por números, usando um teclado semelhante ao de telefone.
A estreia oficial ocorreu nas eleições municipais de 1996. Naquele ano, a votação eletrônica foi utilizada em 57 municípios e alcançou cerca de 32,5 milhões de eleitores, aproximadamente um terço do eleitorado do país.
A expansão foi rápida. Em 1998, o sistema chegou a 537 municípios e passou a ser utilizado por cerca de 61,1 milhões de pessoas. Em 2000, a votação eletrônica alcançou todos os municípios brasileiros e passou a atender 100% do eleitorado.
Nas décadas seguintes, o equipamento passou por sucessivas mudanças. Foram incorporados recursos como fotografia dos candidatos, áudio para eleitores com deficiência visual, biometria, Registro Digital do Voto e novos mecanismos de auditoria e segurança. Desde 1996, 14 modelos diferentes de urna já foram utilizados pela Justiça Eleitoral.
A partir do fim da década de 2010, a urna eletrônica também passou a ocupar o centro de campanhas de desinformação e questionamentos sobre a integridade do sistema eleitoral. Mais recentemente, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) passou a dizer que o mecanismo era fraudado sem apresentar provas.
As afirmações de Bolsonaro intensificaram a desinformação nas eleições de 2022, quando, segundo o TSE, circularam acusações sem provas de fraude, interpretações equivocadas de boletins de urna e informações falsas sobre a totalização dos votos. Em outubro de 2022, o tribunal aprovou uma resolução específica para enfrentar conteúdos falsos que atingissem a integridade do processo eleitoral.
Há uma série de eventos e recursos que comprovam a segurança da urna eletrônica brasileira. Em todos os anos anteriores a um pleito, nacional ou municipal, o TSE realiza o Teste Público de Segurança, quando uma série de profissionais de tecnologia da informação vai à sede do tribunal para tentar atacar o equipamento, tentando adulterar a votação, inserir, remover votos ou quebrar o sigilo da escolha. Nenhuma das edições da auditoria encontrou fragilidades que alterassem o resultado de uma eleição.
A corte eleitoral ainda disponibiliza o código-fonte da urna, ou seja, a programação que forma o sistema usado pelo dispositivo para fiscalização de entidades como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Polícia Federal, Ministério Público e partidos políticos.
Após a verificação, os programas recebem hashes, um código único que corresponde a uma impressão de cada sistema instalado, e as cópias são inseridas em uma mídia não-regravável (que não suporta a inserção de nada diferentes do que já foi gravado) e guardadas em sala-cofre do TSE.
Cada TRE (Tribunal Regional Eleitoral) faz uma cerimônia de lacração de urnas, quando os programas são instalados nas máquinas publicamente, a lista de eleitores e candidaros é inserida e os equipamentos são lacrados. A partir deste ponto, o dispositivo não é mais alterado até chegarem às seções de votação.
Três décadas depois da estreia em um grupo restrito de cidades, a urna chega às eleições de 2026 como resultado de um processo de informatização iniciado ainda nos anos 1980 e ampliado gradualmente até alcançar todo o eleitorado brasileiro.
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