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Saturday, September 12, 2026

Facebook e TikTok são a nova fronteira do tráfico de espécies silvestres

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O tráfico de espécies silvestres encontrou um novo território de "caça": as redes sociais. Um artigo científico publicado recentemente na revista Nature Reviews Biodiversity, liderado pelo professor Enrico Di Minin, da Universidade de Helsinque, na Finlândia, com uma equipe internacional, mostra até que ponto esse comércio se espalhou pela internet.

Animais, plantas e fungos fazem parte de um mercado que alcança espécies já ameaçadas e outras cujo risco diante desse tipo de tráfico mal havia sido considerado. Segundo o artigo, a atividade aparece em plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, YouTube, eBay, Google, Alibaba e Shopee.

Os números dão uma dimensão do problema. Em 2025, durante um monitoramento de seis semanas, os pesquisadores detectaram mais de 1.600 primatas anunciados para venda em quatro redes sociais.

Mas o fenômeno vai muito além dos primatas. O artigo destaca um monitoramento de seis semanas realizado em 280 plataformas, no qual foram identificados 33 mil exemplares de espécies protegidas pela Cites (Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção). Desse total, 54% eram animais vivos e os 46% restantes eram partes ou produtos derivados.

Entre as espécies afetadas aparecem aves, serpentes, rãs, orquídeas e cactos. As evidências reunidas pelos pesquisadores apontam para um mercado amplo, diversificado e difícil de rastrear.

Por que a internet é tão favorável a esse negócio?

Os autores apontam vários fatores que facilitam a expansão do tráfico online. Entre eles, a baixa percepção de risco, a fraca regulação das plataformas e o anonimato que elas oferecem. Soma-se a isso a própria natureza da internet, onde as operações podem ser realizadas com rapidez e em escala muito superiores às dos circuitos tradicionais, explica o coautor Neil D'Cruze, da Universidade Metropolitana de Manchester.

"O comércio ilegal de fauna e flora silvestres online se estende por inúmeras plataformas, incluindo as redes sociais mais populares, e representa uma ameaça crescente e em constante evolução para a conservação da biodiversidade", afirma o professor Di Minin, da Universidade de Helsinque.

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Ao mesmo tempo, as consequências não se limitam às espécies comercializadas. Os pesquisadores dizem que o tráfico também pode aumentar os riscos associados a espécies invasoras e a doenças que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos.

Apesar da dimensão do fenômeno, os pesquisadores afirmam que ainda existem lacunas importantes para medir o volume real deste mercado e compreender melhor o comportamento dos consumidores, uma deficiência que dificulta o desenvolvimento de respostas eficazes.

O papel da África nas rotas do comércio ilegal

O continente africano ilustra algumas das dinâmicas do tráfico de espécies com especial clareza. A Universidade da Cidade do Cabo destaca que, entre 2010 e 2021, cerca de 800 mil papagaios-cinzentos-africanos foram comercializados internacionalmente. Além disso, o monitoramento de contas de exportadores no Facebook no Togo permitiu identificar mais de 200 espécies diferentes colocadas à venda.

Na África do Sul, o bioma do Karoo Suculento —uma região árida, mas que abriga grande biodiversidade— oferece um exemplo claro de como esse mercado pode mudar rapidamente. Por lá, o gênero de plantas suculentas Conophytum, muito procurado por colecionadores internacionais desde 2019, registrou um aumento no número de coletores. Isso acabou saturando o mercado ilegal, e o preço da planta caiu aproximadamente para um centésimo do valor original em apenas três anos.

A queda de preços, contudo, não pôs fim à pressão sobre a fauna e a flora. Segundo a instituição, a coleta está migrando para outros tipos de plantas e para répteis.

Soluções: comunidades locais e cooperação internacional

Annette Hübschle, pesquisadora da universidade e única coautora do estudo baseada na África, argumenta que a tecnologia e a aplicação da lei, apenas, não são suficientes. Ela ressalta o papel das comunidades locais e da experiência do Sul Global, em contraste com um campo de pesquisa que tem se concentrado principalmente em ferramentas de detecção, fiscalização e regras das próprias plataformas digitais.

Por isso, os pesquisadores propõem uma resposta mais ampla. Eles defendem o reforço da vigilância com inteligência artificial e o endurecimento da moderação das plataformas, além da melhoria da coordenação entre empresas de tecnologia, reguladores, ONGs e comunidades. Também destacam a importância do apoio de marcos internacionais como a Cites e a Lei dos Serviços Digitais da União Europeia.

A conclusão de Di Minin resume a abordagem do estudo. O problema é "complexo, mas não insuperável" e exige cooperação entre diferentes setores e políticas capazes de responder à sua dimensão digital.

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