Maria Prata, Lóli e a arte de cultivar o futuro
Quando soube que a filha Marta estava grávida, Laura Góes teve uma preocupação urgente: não havia uma goiabeira no quintal de sua casa, no Itaim, em São Paulo. "Como é que eu vou ter um neto e não tenho uma árvore para ele subir? Não é admissível", lembra. Plantou a goiabeira, o neto cresceu e subiu nela, e até o menino da casa vizinha passou a usá-la como caminho. Hoje, aos 96 anos, Laura, mais conhecida como Lóli, continua achando perfeitamente natural que uma criança precise de uma árvore. Sua neta Maria Prata, por outro lado, vive num mundo em que é preciso fazer um documentário para lembrar às pessoas por que a natureza importa.
Antes de ser conhecida como jornalista de moda, colunista de tendências e comportamento no UOL ou até mesmo como a mulher de Pedro Bial, Maria é a neta da Lóli. E Lóli é uma joia de pessoa, dessas por quem é impossível não se encantar. Dona da Pousada da Alcobaça, em Petrópolis, ela cultiva um jardim onde plantas exóticas e mato recebem o mesmo carinho. Além da natureza, há duas grandes atrações na pousada: a comida e a falta de regras. Lá não tem esse negócio de café da manhã até às 10h ou almoço ao meio-dia e meia. Se você é hóspede da Lóli, toma café quando acorda, almoça quando sente fome e é sempre muito bem servido, com receitas que já renderam dois livros.
Entre Lóli e Maria está Marta Góes, filha de uma, mãe da outra. Dramaturga e escritora, Marta herdou da mãe um jeito carinhoso e agregador. Maria, por sua vez, tem duas filhas, Laura e Dora. Foi por causa delas que começou a se perguntar por que, depois de décadas de pesquisas, alertas e tragédias, continuamos sem conseguir enfrentar a crise climática.
Convidada a mediar debates sobre questões ambientais durante um encontro do Pacto Global da ONU, em Nova York, em 2023, Maria percebeu que tinha algo a oferecer: sua experiência como comunicadora. "Eu já estava muito ligada às questões climáticas, mas minhas perguntas eram: por que essa comunicação não chega? O que está acontecendo? A gente está perdendo essa ligação entre o que é comunicado e o que é feito", conta. Foi durante o encontro que começou a pensar nas filhas e no mundo que elas encontrariam pela frente.
Mas calma, não é que Maria tenha decidido se transformar no Al Gore da nova geração. Sabe que seu alcance é mais modesto, mas entendeu que poderia contribuir. "Eu não sou a pessoa que faz compostagem, que planta, que colhe, que está em contato direto com a natureza. E acho muito importante contar que você não precisa ser essa pessoa para estar engajado nisso. A ferramenta mais forte que eu tenho é a comunicação."
E encontrou uma boa oportunidade para realizar um projeto com que todos os que convivem com Lóli um dia sonharam: colocá-la em um filme.
O resultado é "Por que Não?", documentário de cerca de 71 minutos produzido pela Original Aquarius que investiga por que, mesmo diante de tantos alertas, ainda temos dificuldade para enfrentar a crise climática. Maria reúne conversas com especialistas e personalidades, algumas realizadas durante o encontro da ONU, outras à distância, e intercala essas discussões com passeios pelo jardim da avó.
Entre os entrevistados estão Mary Robinson, primeira mulher a presidir a Irlanda; Juan Manuel Santos, ex-presidente da Colômbia e vencedor do Nobel da Paz; Luiza Trajano e Fernando Meirelles. Depois de estrear no Festival do Rio e passar pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com sessões nos dias 21 e 27 de outubro, o filme chegou na sexta-feira (30) à Aquarius, plataforma de streaming criada por Bruno Wainer e dedicada a produções sobre sustentabilidade, bem-estar e questões sociais.
A presença de Lóli dá leveza às discussões sobre o futuro do planeta. Principalmente porque ela não tem absolutamente nada a ver com as vovozinhas das histórias infantis. Sim, cozinha maravilhosamente, cuida das plantas, adora os netos e bisnetos, as conversas na varanda e um uisquinho no fim da tarde. Mas nem pense em uma senhora desconectada das notícias ou dos acontecimentos do mundo. Sem falar no humor cirúrgico, que aparece em frases dignas de uma peça de teatro.
"A gente achava que o mato era infinito", conta, lembrando a infância, quando as florestas pareciam inesgotáveis. "Quando se dizia que alguém fugiu para o mato, parecia que aquela pessoa nunca mais ia ser encontrada." A consciência de que o mato pode acabar veio depois. "Mas o que é recente para mim não é igual ao que é recente para vocês", avisa, com a autoridade de quem já viu quase um século passar.
Lóli tampouco se considera uma militante ambiental. Sua paixão pela natureza vem de muito antes de o aquecimento global se tornar assunto de conferências internacionais. "A natureza me ajuda mais do que eu ajudo a natureza", diz. Conhece a história das plantas espalhadas pelo jardim, sabe quem deu cada muda e onde cada uma foi encontrada. E não faz distinção entre espécies consideradas nobres e aquelas que os outros chamam de mato.
Quando comprou a casa para transformá-la em pousada, estava "com água na boca para mexer em tudo". O jardim original tinha canteiros geométricos e roseiras que ela detestava. "Uma roseira não é uma planta bonita. A flor é bonita. Não tem graça uma roseira", sentencia. E os canteiros triangulares? "Bicudos! Era uma coisa muito feia para um lugar tão bonito, com essa montanha do lado."
Passou a recolher plantas nas redondezas, acompanhada do jardineiro, seu João Fita. Numa dessas expedições, ele bateu a cabeça numa pedra e desmaiou. Lóli conseguiu reanimá-lo jogando água em sua cabeça. Nunca mais saiu com ele para catar mato, mas continuou trazendo mudas para casa.
Maria cresceu ouvindo essas histórias. Lembra-se de uma ocasião em que a avó arrancou alguns galhos pelo caminho e, ao chegar à pousada, simplesmente os espalhou sobre outras plantas. "Eu perguntei: Lóli, o que é isso? E ela respondeu: em setembro vai estar tudo azul. E, de fato, em setembro estava tudo azul." Para quem imaginava que plantar exigia vasinho, terra preparada e sementes, aquilo parecia quase bruxaria.
É essa intimidade com a natureza que Maria gostaria de transmitir às filhas. "Quando eu estava na ONU, fiquei pensando muito nelas. As primeiras humanas que entraram na história foram as minhas filhas", explica. Depois pensou nas diferenças entre a experiência de Lóli e aquela que Laura e Dora terão. "Tudo que mudou nesse caminho. E tudo que cresceu nesse jardim."
Até agora, que se saiba, "Por que Não?" não converteu nenhum cético climático em afiliado do Greenpeace, mas trouxe novos assuntos para as conversas da família. Lóli gostou da novidade. "Achei interessantíssimo. Porque não parecia o estilo dela. Mas eu gostei do estilo novo", conta. Maria passou a compartilhar o que lia e quem entrevistava, enquanto a avó recorria às lembranças de sua longa vida.
A própria escolha profissional de Maria tem algo de rebeldia familiar. "Todo mundo na minha família lidava com palavras. E eu fui lidar com imagem", lembra. Acabou jornalista, primeiro especializada em moda, depois interessada em comportamento e inovação. "Quando fui para a GloboNews, entendi que minha antena de tendência estava muito mais conectada ao comportamento e para onde o mundo estava andando do que à próxima tendência de moda."
Hoje, em "Futuro Presente", no UOL, procura traduzir sinais do que vem pela frente. No documentário, preferiu buscar soluções possíveis para a crise climática, em vez de repetir previsões assustadoras. "Meu olhar é muito pela notícia boa, pelo que é possível ser feito, pelo que ainda vai acontecer que a gente nem sabe." E brinca com a velha recomendação de plantar uma árvore e escrever um livro: "Eu fiz um filme e acho que tem que valer também."
Mas a maior transformação talvez tenha acontecido longe das câmeras. Maria alugou com o marido um sítio perto de São Paulo para que Laura e Dora pudessem brincar sem depender de adultos inventando atividades. "Eu estava ficando muito cansada daquela pergunta ‘o que a gente vai fazer hoje?’, que ouvia todos os finais de semana. Não tem que ficar inventando muita moda para se entreter quando se está em contato com a natureza", conta.
As meninas fazem chazinho de barro, bolinhos de terra com flores, sobem em árvores e ficam imundas. Maria acha tudo ótimo. Também tem levado as filhas para conhecer paisagens brasileiras, do Delta do Parnaíba ao Pantanal. Mas um dos lugares favoritos das duas continua sendo a pousada da bisavó. A comida ajuda, claro. Só que, antes da comida, vem Lóli.
Maria não espera que as filhas se tornem botânicas ou ambientalistas. Gostaria apenas que herdassem a capacidade de encantamento da bisavó. "Eu acho extraordinário ver minha avó nesse lugar. E acho que minhas filhas têm que olhar isso como algo extraordinário também. Que elas possam continuar esse legado", diz, emocionada.
Pergunto se as filhas da mulher elegantérrima que está à minha frente, de calça de alfaiataria e malha de cashmere cinzas, botas pretas de bico fino e salto baixo, estarão vestindo roupas de tie-dye, andando descalças na rua e abraçando árvores no próximo verão. Ela quase engasga de susto. "De maneira nenhuma", responde, rindo da provocação. Mas depois pensa melhor. "Quer dizer, espero que elas sejam exatamente o que elas quiserem." Desde que respeitem a natureza.
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