NewJeans: contratos revelam regras sobre imagem, relacionamentos e multas milionárias
O NewJeans chegou ao topo das paradas americanas e acumulou recordes no streaming antes de entrar em uma disputa que colocou seu futuro em suspenso. Em novembro de 2024, as cinco integrantes anunciaram que deixariam a Ador, selo da Hybe, alegando que permanecer na empresa prolongaria o sofrimento psicológico vivido pelo grupo.
Uma investigação do The New York Times publicada nesta quinta-feira, 5, revela os contratos por trás desse conflito. Assinados quando as cantoras tinham entre 14 e 17 anos, os documentos estabeleciam regras sobre comportamento, despesas estéticas e exploração da identidade das artistas, além de multas por rompimento.
A Hybe, responsável por grupos como BTS e Katseye, afirma que os termos são legais, foram negociados de boa-fé e protegem as artistas e o investimento da companhia.
Proteção de menores e rotina de treinamento
Os contratos omitiam garantias de saúde, educação, sono e descanso previstas no modelo do governo sul-coreano. A Hybe ressaltou, ao jornal, que o modelo funciona como orientação, sem caráter obrigatório.
Segundo a apuração do NYT, pessoas próximas às integrantes relataram ensaios até as 2h da manhã, monitoramento por câmeras e resistência a pausas. Quatro das cinco cantoras abandonaram a escola durante o treinamento.
E-mails obtidos pelo jornal também mostram resistência a negociações. Quando uma mãe pediu mudanças, um vice-presidente da Ador sugeriu que a família reconsiderasse a contratação caso discordasse dos termos. Todos os responsáveis assinaram.
Despesas estéticas e divisão de receitas
Os documentos previam o reembolso de parte dos gastos com cirurgias plásticas e tratamentos de beleza durante o treinamento. Fontes disseram ao jornal que procedimentos foram sugeridos a algumas integrantes. A Hybe negou impor intervenções ou recomendá-las contra a vontade individual.
Apesar da previsão contratual, o NewJeans começou a carreira sem dívida de treinamento. Segundo o NYT, a empresa absorveu os custos iniciais do grupo.
Após a dedução de despesas, as cantoras recebiam cerca de metade dos lucros de shows, publicidade e aparições promocionais, além de uma parcela menor das vendas de gravações e do streaming.
Restrições a relacionamentos e críticas públicas
Os acordos também proibiam comportamentos descritos por expressões vagas, como atitudes insinceras, descuido pessoal e relacionamentos amorosos considerados inadequados. Também havia restrições a declarações que prejudicassem a reputação da companhia, mesmo quando verdadeiras.
A cláusula ganhou relevância após a integrante Hanni depor no Parlamento sul-coreano, em outubro de 2024, sobre episódios de tratamento hostil. No mês seguinte, o grupo anunciou o rompimento. A Ador recorreu à Justiça e, em março de 2025, obteve uma decisão que restringiu as atividades independentes das artistas.
Danielle enfrenta cobrança de US$ 22 milhões
Em dezembro de 2025, a Ador encerrou o contrato da integrante Danielle e a processou, alegando recusa de trabalho e atividades individuais sem autorização. Segundo o NYT, a cobrança chegou a aproximadamente US$ 22 milhões, principalmente em penalidades de saída. A defesa considerou a ação uma retaliação.
O cálculo contratual multiplicava a média mensal de vendas pelo período restante do vínculo, considerando apenas os meses com faturamento. A Hybe afirma que suas artistas geram receita todos os meses, tornando o resultado equivalente.
A defesa de Danielle, representada pelo advogado Jung Jong-chae, afirmou que as atividades individuais foram usadas como pretexto para retaliar a cantora pela tentativa de romper com a agência. Para ele, a cobrança também serviria de alerta a outros artistas que buscassem deixar a empresa. O advogado apresentou uma reclamação à autoridade sul-coreana de defesa da concorrência, acusando Hybe e Ador de tentar encerrar a carreira de Danielle.
Direitos sobre imagem e voz podem continuar após 2029
Os contratos permitem à gravadora continuar usando e licenciando nome, imagem e voz das integrantes após o encerramento do vínculo, previsto para 2029. A autorização inclui clones de voz e chatbots gerados por inteligência artificial.
As cantoras receberiam pagamentos, mas perderiam o controle sobre essas utilizações. A empresa também poderia relançar músicas com remuneração reduzida para o grupo. Especialistas ouvidos pelo New York Times consideraram essa disposição incomum e ressaltaram que o alcance das cláusulas dependeria de análise judicial.
Futuro do NewJeans segue incerto
A disputa com a Ador mantém o futuro do NewJeans em aberto. Segundo o The New York Times, a gravadora sinalizou a possibilidade de um novo álbum, mas o grupo permanece há mais de um ano sem se apresentar.
O encerramento do contrato de Danielle também compromete a perspectiva de um retorno com a formação original. Enquanto a cantora enfrenta a cobrança judicial, seguem indefinidos os próximos passos do grupo e as condições para a retomada das atividades.
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