Comentarista das redes acha que o mundo é seu umbigo
O comentarista de rede social tem a profundidade de um pires e uma incapacidade crônica de digerir qualquer ideia que desafie as suas certezas. Não passa do título, não pondera e reage com o fígado. Se a chamada e um único parágrafo do texto incomodam, o caminho mais curto nunca é refletir sobre o argumento, mas desqualificar totalmente a ideia ou quem a assina.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Não olho para a política com paixão, mas com uma curiosidade quase sociológica de quem tenta decifrar seus movimentos. Até hoje não me desce o fato de um sujeito tosco como Jair Bolsonaro ter sido eleito presidente, nem de seu filho aparecer agora, depois de tudo, tecnicamente empatado com Lula nas pesquisas.
Mas meu interesse vai muito além da repulsa: é a busca genuína por entender o que leva o eleitor a fazer essa escolha sem recorrer aos clichês arrogantes de quem ridiculariza o "pobre de direita" ou trata evangélicos e negros que estão nesse espectro como massa desprovida de discernimento. Analisar a realidade exige distanciamento e observação, não esse tipo de preconceito bastante preguiçoso.
Mas vá pedir ponderação a quem só enxerga o mundo pelas frestas do próprio feed. Ao esbarrar em um texto que destoa das suas convicções, o internauta saca a estatística da sua sala de estar, do boteco que frequenta ou do seu grupo de WhatsApp. "Mas eu não penso assim. Nunca acreditei nisso. Ao meu redor, não vi ninguém concordar com tal coisa." E pronto: tese refutada. O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, mas a amostragem da criatura resume-se a si mesma e aos parceiros de cerveja.
Vale explicar o elementar. Qualquer análise de conjuntura generaliza. Fenômenos coletivos só podem ser descritos por tendências amplas e não por exceções de pequenos grupos. Dizer que determinado campo político adotou uma postura não equivale a acusar cada seguidor de carregar o cartaz na rua. A reação à minha última coluna escancarou essa cegueira na tentativa quase infantil de reescrever a história recente. Não faltou gente jurando que não há apoio a Alexandre de Moraes. Desde quando?
A esquerda o apoiou, sim, com unhas e dentes e xingamentos nas redes sociais. E com toda razão em determinado momento. Quando caminhões paravam estradas, acampamentos golpistas cercavam quartéis e havia plano para matar autoridades, foi o Supremo, na figura de Moraes, que segurou o tranco. Apoiei as decisões duras do ministro e não retiro uma vírgula. Era sobrevivência democrática.
O problema é que não ficou por aí. Esse apoio se estendeu contra tudo o que vinha sendo apurado pela imprensa até não ser mais possível sustentar que Moraes está mais sujo que pau de galinheiro –com todo o respeito às galinhas. E continua, de certa forma firme, como se viu no foguetório vergonhoso feito por parlamentares e militantes comemorando o pedido de vista de Flávio Dino, achando que ele saiu vitorioso na sessão da última terça. Vitorioso de quê? De sentar em cima do processo que apuraria a conduta de Moraes e empurrá-lo para depois da eleição? Foi sobre essa percepção que tratei e foi isso que tirou tanta gente do sério.
A recusa em aceitar os fatos beira a insanidade. Quando Malu Gaspar revelou em O Globo as conversas reservadas entre Moraes e a cúpula do Banco Central sobre o Banco Master, a resposta de parte da esquerda não foi cobrar transparência, mas trucidar a jornalista. Exigiram quebra de sigilo de fonte, espalharam montagens e despejaram o machismo, copiando a mesmíssima cartilha que sempre condenaram no adversário.
O cidadão que se interessa de verdade pela política analisa o tabuleiro pelo que de fato acontece, e não pelo filtro enviesado do que gostaria de acreditar, compreendendo como cada movimento reverbera nas pesquisas e deságua na urna. Mas vá pedir essa maturidade ao militante das redes, que sempre preferirá o conforto da sua bolha ao trabalho de entender por que as urnas teimam em contrariar os seus desejos.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.