Os sonhos e motivações que levam atletas olímpicos a conquistar medalhas

Por ser “uma jovem muito sonhadora”, a antiga capitã da seleção nacional feminina de futebol Edite Fernandes, acreditou, “desde criança, que um dia podia ser jogadora profissional”.
Disposta a “ir contra tudo e contra todos”, cumpriu o sonho que a tornou, ainda hoje, detentora do recorde de golos marcados ao serviço da seleção e a motivou para uma carreira quando “as condições eram ainda muito difíceis “ e o futebol feminino “era o parente pobre dos desportos”, contou a atleta, em Rio Maior, onde participou no Fórum Europeu das Associações de Centros de Alto Rendimento.
Emanuel Silva, canoísta que representou Portugal em cinco edições dos Jogos Olímpicos e que encerrou a carreira em 2024, chegou à modalidade “arrastado por amigos” e ficou “por paixão”. Já a motivação que o levou a ser atleta olímpico e a conquistar uma medalha de prata foi “a vontade de receber uma carta do Comité Olímpico”, semelhante às que via chegar ao clube onde treinava, endereçadas a oitos atletas.
Em 2004, cumpriu o sonho que participar nos Jogos Olímpicos, mas a esperada carta não chegou: “Nunca recebi”.
A participar num painel sobre a realidade por trás das medalhas e as expectativas dos desportistas de alto rendimento, os dois atletas, que iniciaram as carreiras no final dos anos 90, lembraram que as condições eram “bastante diferentes” para “uma geração mais antiga, em que qualquer coisa servia para treinar, comer bem, descansar melhor e tratar os adversários como eles têm que ser enfrentados”, disse o canoísta.
Emanuel Silva lembra o Centro de Alto Rendimento (CAR) de Montemor-o-Velho, onde treinou após a sua abertura em 2002, confessando que “no início, de alto rendimento tinha pouco”, com “uma sauna e jacuzzi nunca vistos a funcionar”, recorda o atleta, que, só quando participou em Atenas2004 teve “a primeira massagem desportiva”.
Já Edite Fernandes, conheceu em Rio Maior um CAR com “excelentes condições” e uma realidade que só viria a ser superada com as condições encontradas em países como a China, para onde foi jogar por considerar que em Portugal era difícil singrar na modalidade.
Embora com percursos e experiências diferentes, ambos os atletas apontam como crucial “o sentimento de família” encontrados nos CAR por onde passaram, considerando-os “uma segunda casa” onde encontravam, além das condições para treinar, conforto para os muitos dias que passavam afastados das famílias.
Duas décadas passadas sobre o início das carreiras destes desportistas de alto rendimento, ambos reconheceram que “muita coisa evoluiu”, sobretudo ao nível dos organismos dirigentes, quer nos clubes quer nas federações, que “cada vez mais demonstram estar ali para apoiar os atletas, para lhes dar confiança”.
Isso mesmo levou ao painel de hoje Ricardo Bendito, do Comité Olímpico Internacional, numa intervenção em que apresentou alguns dos programas e mecanismos ao dispor dos atletas para prepararem um pós-carreira desportiva.
“A formação que os atletas têm hoje em dia não é a mesma que tinham no passado e para que eles possam estar no seu melhor, quer nos treinos quer na competição, têm que sentir essa confiança nas instituições”, afirmou Bendito, instando todos os atletas a prepararem com antecedência o final das suas carreiras desportivas e aproveitando “os seus conhecimentos e competências para trabalhar noutras áreas”.
Para a ex-futebolista Edite Fernandes, “nunca ninguém está preparado" para o fim e tenta-se "adiar ao máximo” o fim de uma carreira na modalidade, que para ela aconteceu apenas há cinco anos.
“Quando deixei de jogar, estava num momento de grande forma, mas surgiram oportunidades que não podia perder, ligadas à modalidade, noutras funções”, disse, defendendo que “mais vale acabar em pé do que andar a tropeçar na bola”.
Já para Emanuel Silva, o momento de dizer adeus à canoagem estava “muito bem decidido”, com duas hipóteses em aberto: ou na sua sexta participação olímpica, em Paris2024, ou em 24 de abril de 2024, em Montemor, numa competição internacional.
A escolha acabou por recair nesta segunda hipótese, num momento mais reservado à família e aos amigos, e com Emanuel a rumar a outras funções, com a abertura de “um alojamento local no Gerês”, um investimento que já tinha preparado para o dia em que deixasse de ser atleta de alto rendimento.
Da carreira, além da carta da Comité Olímpico que nunca recebeu, fica-lhe o lamento de “nem o Comité Olímpico, nem responsáveis pela federação terem ligado a perguntar 'como estás, precisas de alguma coisa, um psicólogo, um acompanhamento?'".
“É de lamentar que depois de carreiras a representar o país, alguns atletas sejam descartados”, afirmou, numa crítica a que se juntou Edite, vincando que “tal acontece em muitas modalidades”.
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