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Saturday, October 31, 2026

Mais rua, menos PT: campanha pragmática no 2º turno dá o tom de Lula 4

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A ex-presidente Dilma Rousseff abraça Lula no hotel Intercontinental
A ex-presidente Dilma Rousseff abraça Lula no hotel Intercontinental Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação

Quando a apuração chegou perto da metade e Lula assumiu a dianteira, o grupo resolveu descer nove pisos até uma sala de convenções no subsolo do hotel, onde outros apoiadores e integrantes da campanha já cantavam o grito de guerra que, para muitos, também se tornou o da vitória: "Ai, ai, ai, Flávio vai morar com o pai".

Lula chegou quando a contagem estava perto do fim, sendo recebido por uma pequena multidão eufórica. Ao som de "Olê, olê, olê, olá", lideranças históricas do PT, como o ex-deputado federal José Dirceu, e símbolos da nova geração, a exemplo do governador do Piauí, Rafael Fonteles, se uniram na última dança da vitória. Com os óculos vermelhos em formato de estrela, Lula cumprimentou um a um os presentes -gente emocionada não apenas com o resultado das urnas, mas por saber que cena como aquela nunca mais se repetiria.

Cena que —na avaliação de integrantes da campanha ouvidos pelo UOL— poderia não ter acontecido, caso Lula houvesse saído na frente no primeiro turno.

Com os óculos vermelhos em formato de estrela, Lula cumprimentou quem acompanhava a votação no hotel Intercontinental, nos Jardins
Com os óculos vermelhos em formato de estrela, Lula cumprimentou quem acompanhava a votação no hotel Intercontinental, nos Jardins Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação

Lula 4

Após a festa no subsolo do hotel Intercontinental, Lula e aliados subiram ao auditório para o discurso da vitória. Com a voz rouca, o presidente disse que aprendeu muito com as eleições. Agradeceu aos jovens, aos estudantes e aos idosos que compareceram para votar, assegurando que, em sua última batalha nas urnas, terminasse com uma vitória. "Sou um escolhido por Deus", afirmou.

Lula não fez nenhuma referência a dois dos grupos representados na sua posse para o terceiro mandato, em janeiro de 2023, quando subiu a rampa do Palácio do Planalto ao lado de representantes de identidades variadas. Não mencionou povos indígenas, tampouco a população negra —bem como a comunidade LGBT+.

Sinalizou que fará um governo mais pragmático do que os anteriores, com menor aceno à pauta identitária e maior capacidade de articulação com a direita, que dominará o Congresso.

O discurso foi visto por pessoas próximas como indicação de que sua próxima e última gestão será diferente. Da mesma forma, aliados que apareceram atrás do presidente no discurso da vitória estão sendo cotados para vagas nos novos ministérios

Descentralização

A avaliação dos que, após a vitória, viram com bons olhos a derrota em 4 de outubro foi de que o choque pelos 2.224.965 votos a mais de Flávio obrigou a campanha de Lula a corrigir uma série de erros que, repetidos no segundo turno, poderiam ter dado a vitória ao bolsonarista.

Segundo o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha em São Paulo, no caso de Lula, esse choque não se traduziu em pessimismo. "Ele mostrou uma serenidade enorme", afirma. Outro integrante da campanha que conversou com a reportagem reservadamente disse que o presidente exibiu uma "fé bizarra" na virada.

Possuía serenidade e fé, de acordo com seus interlocutores, mas tinha também uma profunda insatisfação com a campanha no primeiro turno - a ponto de descrevê-la como a "mais desorganizada desde 1989".

Numa reunião ocorrida na terça-feira seguinte ao primeiro turno, em Brasília, no dia 6 -aquela em que a ex-senadora Kátia Abreu (PT) clamou por "menos Janja e mais Alckmin", numa crítica à primeira-dama e elogio ao vice-presidente-, Lula estabeleceu novas tarefas para novos integrantes da equipe, descentralizando as decisões.

A premissa era que, naquela situação dramática, com Flávio à frente, era preciso abdicar da burocracia partidária. A primeira regra quebrada foi a de que iniciativas de campanha precisavam ser aprovadas pelo PT. Isso caiu. Agora, quem tivesse boas ideias que as colocasse na rua - como, aliás, André Janones tinha feito na véspera, ao lançar o Exército de Lula, canal de WhatsApp que no primeiro dia em funcionamento atraiu mais de 1 milhão de inscritos.

Lula se encontra com os deputados federais eleitos Guilherme Cortez (PSOL-SP) e Ana Elisa (PT-MG)
Lula se encontra com os deputados federais eleitos Guilherme Cortez (PSOL-SP) e Ana Elisa (PT-MG) Imagem: Adriano Machado - 7.out.26/Reuters

Popularidade digital

Ao UOL um petista disse que apenas uma pessoa fora do PT teria condições de fazer o que Janones fez. "No PT, você não pode se autoproclamar general e sair dando ordens. O desenho do partido não permite isso", disse. "Mesmo Lula, se fizesse isso, seria questionado."

Durante todos os dias do segundo turno, Janones distribuiu missões para seus seguidores, fazendo uso de uma linguagem militarizada -o que levou um dos fundadores do PT, Paulo Delgado, a classificar em entrevista à Folha de S.Paulo a iniciativa de "patética" e "desrespeitosa com as vítimas da ditadura", pela referência às Forças Armadas.

Apesar das críticas, Janones chegou à véspera da eleição com mais de 10 milhões de inscritos no canal, sendo o responsável por alavancar a popularidade digital do presidente.

Um levantamento da empresa de consultoria e pesquisa Quaest demonstrou a evolução de Lula no ambiente digital -espaço que usualmente é dominado pela direita.

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Imagem: Arte/UOL

Por meio de um algoritmo que analisa 175 variáveis extraídas do Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), TikTok, YouTube, Google e Wikipedia, o índice apresenta pontuações que oscilam entre 0 e 100.

No início da campanha de primeiro turno, Flávio marcava perto de 80, e Lula, menos de 70. Em 14 de outubro, Lula pontuava 82,6 e Flávio, 76,4.

O fenômeno criado pelo "Exército" levou Lula a reconsiderar uma de suas idiossincrasias - recusar-se a ter um aparelho celular. O presidente sempre recorreu ao aparelho de terceiros (como Janja e, até recentemente, o então chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro Santana, o Marcola) para falar ao telefone. Quando o canal de Janones ultrapassou os 5 milhões de integrantes, Lula aceitou um smartphone de presente do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT).

Antes disso, no dia seguinte à reunião em Brasília, em 7 de outubro, Lula já havia dado sinais de que estava disposto a reconsiderar sua implicância com o celular. Postou seu primeiro vídeo selfie, convocando os brasileiros a ir às ruas para "não permitir que o retrocesso volte a este país". O sucesso dessa empreitada foi creditado a Janja.

Estudantes na rua

A iniciativa de divulgar um vídeo selfie naquele dia 7 incentivando a ida às ruas foi estimulada por um evento ocorrido menos de 24 horas após o encerramento das urnas de primeiro turno.

Na manhã de 5 de outubro, estudantes da Universidade Federal Fluminense ocuparam o campus e, de lá, caminharam por Niterói com cartazes a favor da educação, contra Flávio e em apoio a Lula.

O movimento espontâneo, divulgado às pressas nas redes sociais dos principais centros acadêmicos da universidade, virou inspiração para outros universitários e estudantes secundaristas que fizeram ações parecidas em diversos pontos do país.

Dois dias depois, uma multidão fez uma caminhada em apoio à democracia no centro do Rio, dando escala e poder à mobilização estudantil.

Àquela altura, a UNE (União Nacional dos Estudantes) já contabilizava mais de 70 assembleias e plenárias estudantis convocadas para organizar atos pró-Lula.

Inteligência artificial

Janones e os estudantes não foram os únicos a agir sem pedir permissão do PT. Em outra frente, um grupo de apoiadores de Lula fez um levantamento das cidades em que o presidente venceu no primeiro turno, mas a abstenção foi maior do que 20%. A convicção era a de que, nesses lugares, quem deixou de votar teria votado no candidato do PT. Chegou-se a um total de 1.333 municípios.

A partir de uma matriz, o vídeo selfie de Lula gravado no dia 7, recorreu-se a um programa de inteligência artificial para adaptar trechos da fala dele -como a inserção do nome dos municípios no início da peça, na boca de Lula. "Minha gente de Americana", "minha gente de Bananal", e assim 1.333 cidades receberam vídeos com mensagens personalizadas. Ao fim do vídeo, foram inseridas imagens dos municípios, e uma nova fala de Lula, pedindo aos jovens daquelas cidades que levassem os idosos para votar.

A iniciativa foi um sucesso. Um link fornecia o caminho para baixar os vídeos e compartilhá-los pelo WhatsApp. Ao UOL um integrante do partido disse que, se fosse esperar pela aprovação da campanha para ser implementada, aquela ação -que fez diminuir os índices de abstenção nos municípios, ajudando na virada- não teria saído do papel.

"O PT tem muitos feudos", disse esse petista. "Cada um defende seu espaço e ninguém de fora consegue penetrar. No primeiro turno, várias ideias boas foram oferecidas para a campanha, e ignoradas".

Lula em live com André Janones (Rede-MG), criador do canal Exército do Lula
Lula em live com André Janones (Rede-MG), criador do canal Exército do Lula Imagem: Ricardo Stuckert

Pragmatismo contra " esquerda cirandeira"

No esforço para descentralizar a campanha, dois nomes ganharam força no segundo turno -Camilo Santana (PT), senador que comandou uma vitória no Ceará, derrotando Ciro Gomes (PSDB) e reelegendo o petista Elmano de Freitas- e Rafael Fonteles, governador reeleito no Piauí com mais de 70% dos votos. Outros perderam protagonismo, como o presidente do PT, Edinho Silva, coordenador nacional da campanha, e o ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência.

Acusado de comandar uma campanha que olhava para trás, e não para o futuro, Edinho Silva disse ao UOL que a defesa do legado foi um combinado com Lula - "abrir mão disso seria um erro crasso", afirmou -, e que propostas foram feitas.

Além de bons de votos, os dois nordestinos levaram à campanha um pragmatismo que, na análise de gente do entorno do presidente, faltou no primeiro turno. Camilo e Rafael não pertencem ao grupo pejorativamente chamado de "esquerda cirandeira", com gosto pela festividade, vídeos com artistas cantando e lacração. Ao contrário, ambos são tidos como "pé no chão". Foi Camilo, aliás, quem levou para a campanha a proposta da redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos. Ele é autor no Senado de proposta de alteração na PEC da Segurança.

Lula comemora entre Camilo Santana e Rafael Fonteles após a vitória nas eleições
Lula comemora entre Camilo Santana e Rafael Fonteles após a vitória nas eleições Imagem: Amanda Perobelli - 26.out.26/Reuters

Edinho não concorda com a crítica de que faltou pragmatismo no primeiro turno. "A questão é que o debate da corrupção envolvendo o Supremo eclipsou a campanha. Criou uma névoa sobre o debate, impedindo que a sociedade fizesse uma avaliação do governo Lula e o credenciasse à reeleição". O sentimento de mudança, ele avalia, "foi capturado pela direita".

"No segundo turno, quando o debate do Supremo sai de cena, nós conseguimos efetivar o confronto de projetos", disse Edinho Silva.

Risco à democracia

Na quinta-feira anterior à eleição, durante um almoço em São Paulo, integrantes da campanha comentaram que, à luz da ciência política, uma virada não seria possível. Mas, à luz da mesma ciência, também não seria possível compreender o que acontecia nas ruas, com tanta gente espontaneamente pedindo votos para o presidente, refletiram. Naquela noite, uma pesquisa Datafolha indicou o empate entre os candidatos.

Na véspera da eleição, em 24 de outubro, a mobilização atingiu seu ápice em evento de apoio a Lula na avenida Paulista, que chegou a ser comparado ao comício pelas Diretas Já, no Vale do Anhangabaú, em abril de 1984, com cerca de 1,5 milhão de pessoas. Segundo o PT, naquele sábado, 2 milhões de pessoas ocuparam a via mais famosa de São Paulo em apoio a Lula.

Na foto que se tornou a mais representativa do ato, de autoria de Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial do petista, Lula está em cima de um veículo, com a Constituição de 1988 em uma mão e a bandeira do Brasil em outra, em meio a um mar de apoiadores vestidos de vermelho.

Ali, Lula pôs em cena um outro integrante da campanha que, na avaliação de petistas ouvidos pelo UOL, foi decisivo para a virada: o medo. O temor de que, com Flávio, a democracia corresse risco.

Lula segura um exemplar da Constituição e a bandeira do Brasil durante manifestação com apoiados na Paulista véspera do segundo turno
Lula segura um exemplar da Constituição e a bandeira do Brasil durante manifestação com apoiados na Paulista véspera do segundo turno Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação

O movimento nas ruas, o "Exército do Lula" e outras iniciativas como a dos vídeos incrementados por inteligência artificial tinham em comum o antibolsonarismo. No primeiro turno, o antipetismo deu votos a mais para Flávio; no segundo, o temor de que ele mudasse a Constituição, revertesse a aprovação da escala 6x1 e acabasse com o Bolsa Família favoreceu Lula.

Segundo uma piada que corre na campanha, Lula contou ainda com a ajuda de três "infiltrados" -o deputado federal Nikolas Ferreira (PL/MG), a integrante da equipe econômica de Flávio Daniella Marques, "a nossa Carla Zambelli" (em referência à então deputada pelo PL que, na véspera do segundo turno em 2022, perseguiu um jornalista com arma em punho), e o coach Pablo Marçal.

O primeiro gravou um vídeo para eleitores nordestinos afirmando que Lula esqueceu a região - e, na avaliação de petistas, ajudou o presidente, em vez de atrapalhar. A segunda fez menção a uma regra de transição de dois anos no Bolsa Família que foi compreendida como um aviso de que iria acabar com o benefício. O terceiro treinou Flávio para o debate na Band, e o tom agressivo do candidato fez com que soasse desrespeitoso e debochado.

Pelo trabalho na campanha, Camilo Santana e Rafael Fonteles são cotados para o primeiro escalão do governo - o nome do primeiro é mencionado para a Casa Civil; o segundo, para a Fazenda. A indicação dos dois confirma a inclinação de Lula pelo pragmatismo.

O desafio será combinar esse perfil com a resposta aos anseios de uma juventude sedenta por mudanças, e a quem Lula é grato pela virada - além de conciliar a promessa de renovação com a acomodação de derrotados na eleição.

Outro desafio está na contas públicas: pagar pelo "pacote de bondades" da campanha - que antecipou depósitos do Bolsa Família, segurou o preço dos combustíveis, lançou o Pé de Meia para universitários e uma nova versão do Desenrola, programa para endividados - assegurando responsabilidade fiscal.

Camilo e Rafael são também nomes que despontam como possíveis sucessores de um presidente que, em seu mandato final, ainda não tem herdeiros definidos.

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