Acampadas, assembleias populares e o sonho de novos sovietes

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Altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no Contracorrente desta sexta-feira. Para participarem e nos dar a sua opinião em direto, só tem de ligar para nós 910 002 41 85, ou então enviarmos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número 910 002 41 85. Carla.
A tentativa de ocupar praças montando tendas, um comportamento a que esta semana assistimos no Porto e que pode alargar-se a Lisboa, um movimento inspirado no que se passa ainda em Espanha, já provocou confrontos com a polícia e levou o presidente da República a dizer que o pior que pode acontecer na luta por causas justas é violar a lei. Para além do motivo próximo à habitação e do debate sobre a forma de atuação das polícias, importa também perceber o que estas manifestações revelam sobre os movimentos que procuram organizá-las. Bom dia, José Manuel. Neste caso concreto, consegues perceber quem são estas pessoas e quem são estas organizações que estão no Porto?
Há alguns elementos para perceber isso. As figuras mais proeminentes são pessoas que vêm de micro formações políticas de extrema-esquerda. Quando digo micro, é mesmo micro, estamos a falar de dissidências de dissidências de partidos trotskistas, que é uma coisa que nós já nem sabemos bem o que é, mas que apareceram agora a dar a cara e são os porta-vozes daquela manifestação. Mas independentemente disso, também em Lisboa são organizações, uma galáxia de pequenos grupos cuja lógica é preciso perceber. Mas inclusivamente aquilo que se passou ontem à noite e que foi, na minha perspetiva, patético. Há uma manifestação que segundo os organizadores tinha mil, duas mil pessoas. Eu estive a ver a área da praça, que é uma forma de calcular quantos manifestantes lá estão, e talvez tivessem duas mil pessoas na altura em que aquilo estava cheio. A praça tem cerca de mil metros quadrados, aquilo não estava tipo sardinha em lata, havia espaço entre as pessoas, portanto é mais ou menos este cálculo que pode ser feito. Mas, de repente haver 11 pessoas, segundo os organizadores, ou uma que foi levada pelo INEM por ter levado um soco e que de repente com aquela multidão enorme, há ali 11 pessoas de um grupo de extrema-direita que consegue desmobilizar aquilo. Ou a extrema-direita de facto é poderosíssima, ou aquilo está tudo feito de ilusões. Mas independentemente disso, aquilo que me parece importante discutir, para além de propostas, que no fundo nem se sabe bem o que estão a propor. Estar descontente com a habitação, há muitas razões para estar, há muitas razões para não estar. A habitação é um problema em Portugal, mas não é um problema idêntico ao que se passa noutros países, sobretudo porque somos um país de proprietários. A esmagadora maioria da população vive em casa própria e a maior parte dela até já a pagou. Portanto, há claramente uma situação para os mais novos, mas não é para todos. Não tem a dimensão que tem, por exemplo, aqui ao lado em Espanha, onde a imigração acentuou muito mais os problemas ou noutras cidades europeias. Independentemente disso, há algo que é uma recorrência. Por exemplo, o que significa decidir o futuro do país em acampadas ou assembleias populares? O que é uma assembleia popular? Uma assembleia popular, devo dizer, e até porque de alguma forma, em tempos muito longínquos, também andei metido em manifestações deste gênero, que como se organizam estas coisas, há sempre uma espécie de algo que está cá atrás, de subconsciente, às vezes mais consciente, às vezes mais inconsciente, que é a ideia de reviver um bocadinho a lógica dos sovietes. A lógica dos sovietes é substituir a democracia representativa, a democracia em que cada um homem um voto, pela chamada democracia popular, em que o que conta é a rua, a ocupação da rua e a substituição do escrutínio normal por um escrutínio feito através, nomeadamente de redes sociais. Neste momento, ninguém está muito descontente, mas boa parte do que aconteceu tem a ver com imagens difundidas nas redes sociais e perceber exatamente o que se passou, sendo que as pessoas têm que ter às vezes um bocadinho de noção daquilo que está em causa. Eu hoje de manhã, por exemplo, li uma crônica num jornal que dizia que não há memória de uma desproporção como esta da polícia. Eu sou velho, mas não sou assim tão velho como isso, mas tenho memória no Porto de um dia em que houve dois mortos e 100 feridos por causa de cargas policiais, um dia em 1982, e aquilo que aconteceu foi uma disputa velato entre a CGTP e o UGT, cada uma delas queria ocupar a Avenida dos Aliados e isso gerou uma confusão tremenda.
Num 1º de Maio, foi isso.
Exatamente, num 1º de Maio, 1982. Portanto, morreram duas pessoas, dois jovens, pelo menos um deles até estava a vender castanhas ou uma coisa desse gênero, era um vendedor de rua, não era castanhas, porque em maio não há castanhas para vender, mas era um vendedor de rua e o outro era um sindicalista. Portanto, é perceber um pouco isto que se está a passar, perceber quem são alguns dos protagonistas. É muito curioso, por exemplo, que o advogado que ontem apareceu nas televisões todas e que estava sempre a falar, tentando perceber quem aquele é, é alguém que há dois anos, penso que há dois anos ou há um ano, foi em 2024 ou 2025, foi detido num tribunal porque havia um mandado de captura por irregularidades que ele tinha cometido. É alguém que ficou até suspenso da Ordem dos Advogados Portanto, é alguém que não tem propriamente um grande currículo para de repente aparecer como herói dos manifestantes. Eu às vezes só lamento que quando se começa a noticiar isto haja muito entusiasmo pelo folclore, pelas imagens mais vistosas e haja menos preocupação em saber o que é que motiva estas pessoas, o que está por trás dessas manifestações, como é que se organizam estas coisas, como é que se provoca confrontos com a polícia. Ainda há uns tempos, por exemplo, aqueles movimentos que também se misturam, que as pessoas rodam para estas coisas todas, aqueles que tinham a ver com as greves climáticas estudantis que ocupavam rotundas. Eles tinham seminários e workshops sobre como é que se resistia à polícia, como é que se faziam essas coisas todas. Não aparecia exatamente como é que se faziam cocktails Molotov, não houve cocktails Molotov, isso é mais para Paris e creio mesmo que em Espanha não acontece, mas tudo isso são coisas que se organizam, que se estudam, que se divulgam e que depois fazem com que estas coisas possam acontecer. Agora, isto não tem nada a ver com outro tema, que é o tema de serem necessárias soluções para a política de habitação, mas essas soluções, entre outras coisas, vão levar tempo, porque isto foi destruído durante muito tempo e agora há uma coisa que falta, faltam casas e para fazer casas é preciso construí-las e para construí-las é preciso deixar que elas possam sair do papel. Mas sobre isso temos falado muitas vezes noutros programas. Hoje vamos tentar focar-nos mais sobre o significado destas manifestações, sobre a dimensão que elas podem ter, sobre a sua relação com as outras manifestações noutros países da Europa e sobre como é que a política se está a colocar relativamente a estes movimentos.
É isso, Toutie. Fica apresentado o "Contracorrente". Voltamos às 10h00. 910 002 41 85 para entrar em direto, mas também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou então deixar os seus comentários nas nossas redes sociais ou no site do Observador.
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