Rappi foge da 'guerra de cupons' com aposta em entrega de banana a videogame em dez minutos
São Paulo Um superaplicativo que entrega praticamente qualquer coisa, de banana a videogame, em dez minutos. Esse é o futuro da Rappi, diz Guillermo Formigoni, CEO da empresa no Brasil.
"Muitas pessoas acham que a Rappi é só um aplicativo para comprar ‘food delivery’ [serviço de entrega de comida]." Não é, diz o executivo em entrevista ao programa C-Level.
Criada há mais de dez anos na Colômbia, a Rappi está no Brasil desde 2017 e vê o país como mercado de enorme potencial.
Atualmente, o delivery brasileiro migra de um modelo em que o iFood, o grande líder do setor, e a Rappi eram os principais competidores rumo a uma guerra multipolar de capital e logística, sobretudo pelo chamado "varejo alimentar". A chegada das empresas chinesas 99Food e Keeta impôs desafios significativos relacionados à escala e à intensidade da competição.
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Formigoni busca se afastar da disputa ao dizer que os esforços da Rappi não estão concentrados no serviço de entrega de comida —a ponte entre o consumidor e o restaurante—, e que, mesmo no chamado "supermercado pelo celular", a empresa teria vantagens.
Segundo o executivo, os restaurantes representariam cerca de 10% do negócio do aplicativo, enquanto os outros 90% estariam nas entregas de produtos de supermercado, de farmácia e de pets, além da principal estratégia de crescimento da companhia hoje, o chamado "quick commerce"—modelo de vendas com entregas ultrarrápidas que, na Rappi, tem o nome de Rappi Turbo.
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O investimento de R$ 1,4 bilhão previsto para cinco anos deve, segundo Formigoni, se concentrar em tecnologia e inovação e bem menos em conseguir novos restaurantes oferecendo taxa zero na intermediação.
"Nossa proposta de valor é um serviço de varejo em que você possa comprar quase qualquer coisa no supermercado para ser entregue em 10 minutos. Então, nossos investimentos estão muito mais nessa parte de experiência do que numa guerra de cupons", diz.
Alguns números do setor refletem o tamanho de uma briga bem mais ampla.
O mercado de entrega de comida por aplicativo, diz Formigoni, movimenta US$ 210 bilhões na América Latina (cerca de R$ 1 trilhão). Já o varejo alimentar, segundo ele, chega aos US$ 500 bilhões (R$ 2,6 trilhões), com o Brasil respondendo por cerca de 60% desse valor.
Por enquanto, afirma o executivo, 15% dos brasileiros fazem supermercado via comércio eletrônico e apenas de 4% a 5% do faturamento do varejo alimentar é vendido digitalmente. "É certeza que os competidores vão se movimentar para esse lugar [o varejo alimentar]", diz.
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Formigoni explica que as entregas mais rápidas dependem do que o setor chama de "dark stores", lojas que funcionam como pequenos galpões logísticos e que vendem de bananas ao Kindle (leitor de livros digitais), graças a uma parceria da Rappi com a Amazon.
São 21 lojas na cidade de São Paulo e outras 19 em cidades como Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre.
As lojas, que têm 5.000 produtos próprios diferentes ante a média de 20 mil em supermercados, são localizadas estrategicamente e contam com funcionários que têm cerca de dois minutos e meio para separar a compra.
"Existe um modelo que a gente está vendo para o futuro de também fazer um marketplace. Por quê? Porque no final o que o consumidor quer é o produto."
As lojas também funcionam como pontos de apoio aos entregadores, peças-chave na engrenagem dos aplicativos. Os profissionais são vistos pela Rappi como "clientes que precisam ser conquistados".
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Ao abordar o vínculo dos entregadores com as empresas, tema sensível ao setor, Formigoni diz que falta clareza à regulamentação desse tipo de trabalho, mas afirma que apoia o que chama de "evolução", tendo como ponto de partida "limitações de um lado e de outro e o livre-comércio".
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Sobre as discussões acerca de conciliar a flexibilidade defendida pelo setor com garantias mínimas previdenciárias e de proteção contra acidentes aos entregadores, Formigoni, mais uma vez, recorre ao verbo e diz que é preciso "evoluir no modelo". "Ainda não sabemos qual tem que ser o modelo perfeito", diz.
Ele nega que a empresa exerça uma espécie de controle do entregador por meio de algoritmos que poderiam, por exemplo, reduzir ou interromper a oferta de trabalho —"é um sistema de inteligência artificial", diz— e nega que a empresa tenha operadores logísticos.
No entanto, diz que o modelo europeu, que incorpora a figura do operador logístico, é uma evolução. "A gente analisa sempre isso, mas não tem ainda uma posição firme porque como a gente não opera desse jeito."
Diante das discussões no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) que envolvem o setor, Formigoni reconhece que a concorrência é acirrada, mas não sabe dizer se seria injusta.
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No centro do debate no conselho estão as cláusulas da 99Food que oferecem um investimento inicial a restaurantes parceiros em troca da garantia de que não firmarão contratos com plataformas concorrentes, como Keeta e Rappi.
A Keeta chama essas cláusulas de "cláusulas de banimento", porque preservam a empresa dominante do mercado, o iFood, mas miram aplicativos menores. Já a 99 fala em "semiexclusividade".
"A gente vai aceitar o que sair de lá e, como falei, a gente segue focando nossa estratégia de trazer melhor experiência para o usuário para que nos escolha. Esse é o nosso ponto."
Formigoni reconhece um ciclo difícil para contratações, com alta rotatividade sobretudo da mão de obra que faz a escolha dos produtos nas "dark stores".
Como pauta relevante de sua agenda, cita a eventual mudança na escala de trabalho 6x1, que qualifica como uma "involução do modelo". A empresa tem cerca de mil funcionários no Brasil.
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"A gente acredita muito no mercado. Nós somos um superaplicativo que atua sete dias por semana, 24 horas. Vai afetar bastante a operação e, principalmente, o usuário. Acreditamos que vai ter um impacto nos preços."
Formigoni diz que a empresa cresce "a dois dígitos altos" e que o cenário de juros no Brasil não assusta porque é um setor em crescimento.
O executivo descarta atuar no segmento de serviços financeiros, como outros aplicativos. Embora tenha o RappiBank em outros países da América Latina, fornecer crédito no Brasil não está nos planos da empresa, ao menos nos próximos 18 meses.
Para Formigoni, o que importa é que, em breve, vai ser possível comprar um computador ou um videogame pelo aplicativo, em poucos minutos.
A competição deixa de ser apenas entre aplicativos de entrega e passa a incluir o varejo todo.
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"O usuário está buscando isso", diz.
RAIO-X | Rappi
- Fundação: 2015
- Sede: Bogotá, Colômbia
- Presença: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru e Uruguai
- Atuação: Super app de comércio eletrônico da América Latina voltado a serviço de entregas rápidas de delivery
- Funcionários: 14 mil
- Concorrentes: A concorrência varia entre países e segmentos de negócio
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