Apesar do silêncio de Milei, governo argentino diz que 'tomou conhecimento' do resultado das eleições no Brasil

Apesar de silêncio de Milei, governo argentino diz que 'tomou conhecimento' do resultado das eleições no Brasil
- Author, Rute Pina
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
Published
Tempo de leitura: 5 min
O presidente da Argentina segue em silêncio e ainda não se manifestou publicamente sobre a vitória de Lula.
Mas Adrián Ravier, porta-voz da Casa Rosada, abordou o assunto durante uma coletiva de imprensa nesta terça e disse que o resultado eleitoral já havia sido registrado.
"Tomou-se conhecimento do resultado eleitoral do Brasil", limitou-se a dizer.
Diante da insistência dos jornalistas na Casa Rosada, o porta-voz do governo argentino justificou o silêncio de Milei, alegando que Lula não teria parabenizado o presidente argentino após sua vitória eleitoral em 2023.
"Quando Javier Milei foi eleito, em 2023, não houve nenhum gesto do presidente Lula para cumprimentá-lo pessoalmente nem nada. Por enquanto, não há nenhum comunicado que pretendamos divulgar", argumentou.
No entanto, Lula publicou uma mensagem no X na noite de 19 de novembro de 2023.
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"A democracia é a voz do povo, e ela deve ser sempre respeitada. Meus parabéns às instituições argentinas pela condução do processo eleitoral e ao povo argentino que participou da jornada eleitoral de forma ordeira e pacífica", publicou Lula na época.
"Desejo boa sorte e êxito ao novo governo. A Argentina é um grande país e merece todo o nosso respeito. O Brasil sempre estará à disposição para trabalhar junto com nossos irmãos argentinos", seguiu o presidente brasileiro.

Crédito, EPA
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Diante da insistência dos repórteres sobre a ausência de uma manifestação oficial de Milei, Adrian Ravier afirmou que o presidente argentino considera mais importantes as relações entre os dois países do que suas divergências políticas.
O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina. Já o país vizinho é a terceira maior parceira comercial do Brasil.
"Argentina e Brasil são dois povos irmãos, que comercializam e trabalham dentro do Mercosul. Nada disso deveria ter sido afetado. Para o presidente Milei, os dois povos, o comércio e as relações que podem ser construídas são muito mais importantes do que as diferenças ideológicas que possam existir entre os dois mandatários", declarou.
"Do lado argentino, a diplomacia continua, as relações comerciais continuam. Não esperamos que nada disso seja afetado daqui para a frente dentro do Mercosul", acrescentou.
O porta-voz garantiu que as relações comerciais seguiriam normalmente.
"Acabo de responder a dois colegas seus que fizeram a mesma pergunta: já tomamos conhecimento do resultado eleitoral e seguimos trabalhando como sempre dentro do Mercosul. Todas as pessoas e empresas da Argentina e do Brasil que queiram comercializar e estabelecer relações poderão continuar fazendo isso com total normalidade", afirmou.
Ravier também reconheceu a existência de divergências políticas entre os presidentes. "A única coisa que posso dizer aqui é que o presidente não é um hipócrita. "Existe uma diferença ideológica real entre os dois mandatários", disse.
Perguntado se o silêncio de Milei seria uma represália ao fato de Lula não ter se pronunciado sobre a eleição do argentino em 2023, o porta-voz respondeu: "É um antecedente, nada mais".
Líderes de direita na América do Sul reconheceram vitória de Lula
Ao longo deste ano, Milei distanciou a diplomacia da Casa Rosada do Brasil, principalmente depois de insultar Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no evento que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro, em julho.
Dias depois, chamou Lula de "corrupto" e "ladrão" em uma entrevista ao canal argentino LN+.
Lula, por sua vez, causou alvoroço em Buenos Aires, em setembro de 2025, ao visitar Kirchner em seu apartamento durante uma cúpula do Mercosul. À época, ela começava a cumprir uma pena de seis anos de prisão, em regime domiciliar, por ter favorecido empresários próximos quando era presidente. A visita gerou fortes críticas na Argentina.
Até o momento, o presidente da Argentina é o único líder da América do Sul que ainda não se pronunciou publicamente sobre a vitória de Lula nas eleições brasileiras.
A maioria dos líderes da região, muitos deles representantes da direita, reconheceu o resultado e parabenizou o presidente brasileiro reeleito.
O presidente do Chile, José Antonio Kast, considerado de direita, afirmou ter conversado por telefone com Lula após a vitória. Apesar das diferenças ideológicas, Kast defendeu uma agenda comum para ampliar a integração econômica e combater o crime organizado na região.
Na Colômbia, o político Abelardo de la Espriella, que apoiou Flávio Bolsonaro na eleição brasileira, reconheceu o resultado das urnas e defendeu o respeito à decisão dos eleitores.
Ele afirmou ter profundas divergências políticas e ideológicas com Lula, mas ressaltou que Brasil e Colômbia precisam cooperar em temas como o combate ao narcoterrorismo e à mineração ilegal, a proteção da Amazônia e o bem-estar da população.
"Próximos ao bicentenário de nossas relações diplomáticas, reafirmo nossa vontade de fortalecer nossa aliança estratégica, a integração, a cooperação e o desenvolvimento sustentável da Amazônia que compartilhamos, em benefício de ambos os povos", escreveu a presidente peruana.
Outros presidentes latino-americanos também se manifestaram. O boliviano Rodrigo Paz destacou a história e os desafios comuns entre os países. O paraguaio Santiago Peña defendeu a continuidade da agenda de integração e desenvolvimento. Os presidentes do Equador, Daniel Noboa, e do Panamá, José Raúl Mulino, também felicitaram Lula.
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