Apostas de alta de juros nos EUA ganham força e mexem em ativos
As apostas de alta de juros nos EUA foram antecipadas e já mexem com os preços dos ativos mundo afora, fortalecendo o dólar e impulsionando os rendimentos dos Treasuries, títulos do governo americano.
A previsão de alta, que antes estava concentrada em outubro, passou a incluir a reunião desta semana em meio à inflação persistente e à guerra no Irã.
O gatilho veio de um discurso de Kevin Warsh, presidente do Fed, no tradicional simpósio de Jackson Hole. Ele afirmou que a instituição teria trabalho a fazer caso a inflação americana continuasse acima da meta. Para Warsh, "o progresso nos últimos dois anos tem sido modesto" no combate à alta dos preços.
O PCE, indicador de inflação preferido do Fed, subiu 3,7% nos 12 meses até julho.
Os dados do CPI (índice de preços ao consumidor), último indicador de inflação antes da próxima reunião do Fed, também avançaram em agosto. No mês, o indicador subiu 0,4%. Nos 12 meses até agosto, a inflação avançou 3,4%, mesma taxa registrada em julho.
O cenário inflacionário fez com que as apostas em uma alta dos juros para a faixa entre 3,75% e 4% passassem de 63% no dia após a última reunião do Fed em julho para 86%, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group. Hoje, os juros dos EUA estão na faixa entre 3,5% e 3,75%.
"A ausência de uma perspectiva de normalização dos fluxos de itens energéticos no Golfo Pérsico aumenta os riscos de uma pressão inflacionária nos próximos meses como consequência de uma escassez de petróleo e derivados. Por isso, o balanço de riscos para a decisão do Fed realmente parece inclinado para maior risco inflacionário", afirma Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.
Além da inflação, a decisão do Fed passou a ser influenciada por um mercado de trabalho resiliente. A economia dos EUA abriu 162 mil vagas de trabalho fora do setor agrícola em agosto, informou o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA em seu relatório de emprego, o payroll. A expectativa entre analistas era de abertura de 55 mil vagas.
A política monetária do Fed tem um mandato duplo. Isso significa que o banco central americano busca simultaneamente a estabilidade de preços e o máximo nível de emprego. Com o mercado de trabalho mais resiliente, a inflação ganha peso na decisão, especialmente diante dos dados mais recentes, que mostram os preços acima da meta de 2%.
A expectativa de uma postura mais restritiva do Fed aparece nos rendimentos dos Treasuries de vencimentos curtos e longos.
Nos Treasuries de dois anos, a rentabilidade foi de até 4,64% na última sexta-feira (11), o valor mais alto desde julho de 2024. No título de dez anos, chegou a atingir 5,05%, o maior nível desde outubro de 2023. No de 30 anos, o pico foi de 5,38%, o maior patamar desde junho de 2007.
O cenário de fundo é a guerra no Irã. Nas últimas semanas, o conflito no Oriente Médio voltou a escalar entre Washington e Teerã, com ofensivas contra refinarias e embarcações relacionadas aos dois lados. Na prática, os novos confrontos aumentam o receio de interrupções no fluxo global de petróleo, o que pressionou as cotações da commodity.
Na quinta (10), o barril de Brent fechou a US$ 109,29, alta de 7,98% e maior valor desde maio.
O avanço alimentou temores de alta da inflação e aumentou o prêmio exigido pelos investidores para manter títulos públicos. Com a venda dos papéis, seus preços recuam e, como preços e rendimentos se movem em direções opostas, as taxas de rentabilidade subiram.
A perspectiva é de continuidade do quadro. Também na última semana, o presidente Donald Trump afirmou que o petróleo deve permanecer elevado pelo menos até as eleições de meio de mandato, diante da falta de sinais de um acordo entre EUA e Irã.
Caso se confirme, a alta dos juros dos EUA deve exercer pressão sobre os rendimentos dos Treasuries e fortalecer o dólar. É o que afirma Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
"Aumenta a atratividade dos títulos públicos americanos e, com isso, o fluxo financeiro para ativos denominados em dólar, diante da remuneração maior das taxas. E os ativos de risco devem ter quedas com a expectativa de juros mais altos por mais tempo", diz.
Segundo Zogbi, a alta dos juros aumenta o custo de financiamento para as empresas e gera volatilidade para as Bolsas. "No Brasil, a expectativa é de que a Selic seja cortada. Então, no mesmo período em que pode haver um corte nos juros daqui, a dos EUA pode aumentar, o que reduz o nosso diferencial de juros."
Nas últimas semanas, os ativos brasileiros têm sido impulsionados pela força das commodities, em especial do petróleo, e pelas perspectivas eleitorais.
No cenário político, pesquisas eleitorais mostram um fortalecimento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. A leitura é de que o senador tem um perfil mais alinhado à disciplina nas contas públicas do que o atual presidente, Lula (PT), e já afirmou que, se eleito, fará um ajuste fiscal.
Ao mesmo tempo, a alta do petróleo melhora as perspectivas de receita, geração de caixa e rentabilidade das empresas produtoras, além de favorecer o fluxo estrangeiro para as ações brasileiras.
"O avanço dos preços do petróleo traz mais volatilidade para as Bolsas globais, justamente devido às expectativas de inflação mais elevada. O mercado brasileiro, contudo, está bem posicionado, não tem tanta dependência do estreito de Hormuz, não está implicado na guerra e tem o próprio petróleo", afirma Zogbi.
No ano, a Bolsa brasileira registra alta de cerca de 16%, enquanto o dólar tem queda acumulada de 5,44%.
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