Maggie O'Farrell: um salto maior do que a perna

Tinham passado apenas três anos desde a publicação de O Retrato de Casamento quando, em setembro do ano passado, foi revelado o título do novo romance de Maggie O’Farrell. Terra foi descrito pela Tinder Press, a editora responsável pela sua publicação no Reino Unido e nos países da Commonwealth (com exceção do Canadá), como um épico de “sobrevivência” e “uma história poderosa de perda, reunião e esperança, inspirada pela história familiar da própria Maggie [que nasceu na Irlanda do Norte e passou parte da juventude na República da Irlanda] e pela paisagem irlandesa com a qual tem uma ligação pessoal profunda”. Citada no mesmo comunicado, a escritora confirmou que o romance é inspirado na história da sua família logo após o período da Grande Fome (1845-1852), responsável pela morte de vários milhares de irlandeses e pela emigração forçada de outros tantos para a América do Norte, em particular no seu trisavô, que participou no grande projeto de levantamento topográfico da Irlanda na década de 1850.
O anúncio foi feito extraordinariamente cedo, quase um ano antes da publicação da edição em inglês do livro. Terra foi imediatamente disponibilizado em pré-venda e foram divulgadas datas de uma book tour pela Irlanda, Estados Unidos da América e Reino Unido, a acontecer no verão e no outono de 2026. Com a adaptação para o cinema de Hamnet (com argumento da própria autora e da realizadora Chloé Zhao), o romance responsável pela fama internacional de O’Farrell, prestes a chegar às salas de cinema norte-americanas e com a expectativa que tinha sido gerada em torno do filme, as editoras nos Estados Unidos e no Reino Unido queriam aproveitar a oportunidade para vender o maior número de exemplares possível de Terra.
A estratégia parece ter resultado — pelo menos inicialmente. Quando a edição em inglês de Terra chegou às livrarias, a 2 de junho deste ano, entrou imediatamente para os tops de vendas do Reino Unido e da Irlanda. Só na Irlanda, foram vendidos 3,3 milhões de exemplares na primeira semana. Segundo os dados recolhidos pela The Bookseller, uma revista britânica especializada no setor do livro e da edição, a 6 de junho, quatro dias após o lançamento, o romance ocupava o 2.º lugar do top 50 do Reino Unido e o 1.º lugar do top 20 das editoras independentes britânicas. Terra conseguiu manter-se entre os cinco primeiros lugares do top das editoras independentes até ao final de junho, mas desapareceu do top geral britânico logo após a primeira semana nas livrarias. É como se, após o entusiasmo inicial, que coincidiu com a divulgação das primeiras críticas pelos jornais generalistas e por algumas publicações especializadas internacionais, como a Harvard Review, que descreveu o romance como “uma espécie de ficção medíocre sobre saudade”, o encanto em torno de Terra, que foi publicado em Portugal em finais de julho pela Relógio d’Água (com tradução de Tânia Ganho), tivesse começado a desaparecer.
Título: “Terra” | Autora: Maggie O’Farrell | Tradutora: Tânia Ganho | Editora: Relógio d’Água | Páginas: 448
Se foi mesmo isso que aconteceu, não é de admirar. Afinal, o épico de “sobrevivência” de Maggie O’Farrell não é assim tão épico, e a história que se vai desenrolando ao longo das suas mais de 400 páginas não tem a força ou a profundidade emocional que as sinopses prometiam. O que é certamente monumental é o projeto em si — contar a história da Irlanda com enfoque num dos seus episódios mais trágicos, a Grande Fome, e abordar o impacto devastador do colonialismo inglês, desde os seus primórdios até ao final do século XIX, quando começaram a soprar os ventos de mudança que levariam à independência do país, depois de uma guerra violenta, no início do século XX, a partir da história de uma única família e dos seus laços com a terra. Esta “terra” não é o território político da Irlanda, mas a Ériu dos mitos e lendas irlandeses, aos quais O’Farrell faz várias vezes referência, através de menções diretas a algumas personagens do folclore irlandês, como o púca (uma figura metamórfica cujo aparecimento era sinal de desgraça) ou o Salmão do Conhecimento (que nos mitos irlandeses habita geralmente uma fonte ou lago rodeado por aveleiras), e da descrição da paisagem e da sua aura mística. Para os antigos povos celtas, que se dedicavam à agricultura e à pastorícia, a terra, de que dependiam para sobreviver, era a encarnação de uma divindade suprema com atributos femininos, um conceito que sobrevive nos contos irlandeses, nos quais o território assume, muitas vezes, a forma de uma mulher como muitos rostos e nomes, como Ériu ou Éire, os dois nomes da mesma deusa pelos quais o país é, ainda hoje, conhecido. Embora a autora tenha sido capaz de incorporar com mais ou menos sucesso alguns destes elementos na narrativa, foi incapaz de levar o projeto literário a bom porto, e o resultado só pode desiludir o leitor.
Uma história que começa muito bem e que acaba muito mal
A história de Terra começa em 1865, menos de dez anos após o fim da Grande Fome, um período de quase dez anos de subalimentação, doença e emigração provocado pela destruição sucessiva da plantação de batata, o principal alimento dos habitantes das áreas rurais irlandesas, que correspondiam a mais de metade da população do país na primeira metade do século XIX, devido a um fungo, historicamente conhecido como “fungo da batata”, que provoca o rápido apodrecimento das colheitas. Tomás, um agrimensor irlandês que trabalha para os britânicos de “casaco vermelho” (ou seja, para os militares) no projeto de levantamento topográfico e cartográfico da Irlanda, o primeiro país do mundo a ser inteiramente mapeado, é um sobrevivente da Grande Fome, que matou toda a sua família. O trauma do que aconteceu assombra-o, e Tomás faz de tudo para reprimir as memórias do que aconteceu. À semelhança de muitas outras crianças que ficaram órfãs por causa da fome, o agrimensor cresceu num orfanato gerido por padres cruéis que maltratavam as crianças e as obrigavam a trabalhar como escravos. Foi “libertado” do orfanato quando a instituição foi visitada por um grupo de militares envolvidos no projeto de levantamento topográfico em busca de um jovem ajudante. Foi com eles que Tomás, um rapaz inteligente e com jeito para os números e o desenho, aprendeu o seu ofício.
No início do romance, Tomás, que vive com a mulher, Seraphina (que ele trata ternamente por Phina), que conheceu no orfanato, e os (por enquanto) três filhos num bairro de Dublin, é contratado pelos britânicos para medir e demarcar uma península isolada e ventosa, na zona oeste da Irlanda, que se estende em direção às águas geladas do Atlântico. Nesse estreito promontório vivem, além do visconde a quem pertence a terra, meia dúzia de pessoas, as únicas que sobreviveram à grande catástrofe das décadas anteriores. Tomás decide levar o filho de dez anos consigo, para que aprenda o seu ofício e possa, um dia, ter uma profissão que lhe garanta sustento. Certo dia, enquanto pai e filho fazem medições, Liam desaparece no meio de um arvoredo que esconde uma fonte à qual são atribuídos poderes mágicos. Tomás vai à sua procura. Os dois desencontram-se e Liam acaba por regressar sozinho, assustado e encharcado, à casa onde estão hospedados. A dona da casa, uma viúva, outra vítima da Fome, envia dois homens à procura de Tomás, mas não é possível localizar o agrimensor, que só reaparece um dia depois, coberto por vegetação, com folhas enfiadas nos bolsos do casaco e presas ao cabelo, um sorriso enigmático que ninguém consegue descodificar e uma conversa que ninguém consegue compreender. O homem parece ter ficado louco. A situação ganha contornos de catástrofe quando o padre é chamado a intervir e decide que Tomás fez um pacto com o diabo junto à velha fonte e que precisa ser exorcizado. Com a ajuda de dois homens, Joseph prende o agrimensor a uma mesa, tranca-se no interior da casa durante dias, enquanto executa o ritual de exorcismo e exorta o alegado possesso a arrepender-se do que tinha feito. Apesar da recusa inicial, Tomás, vencido pela fome e pela memória de outros tempos, acaba por quebrar e submeter-se à vontade do padre Joseph, que finalmente o liberta.
Os traumáticos acontecimentos na península dão início a uma mudança radical na família. No caso de Tomás, essa mudança toma a forma de uma revolta profunda contra os britânicos e a sua relação de dependência para com eles, que mantém desde que foi retirado do orfanato. Decidido a cortar todos os laços com as forças colonizadoras, resolve deixar o seu trabalho e mudar-se com a família para a península e tornar-se agricultor, tal como os seus antepassados. O contraste estabelecido entre o presente, dominado pelos constrangimentos da governação britânica do país, e o passado, um período quase idílico, anterior a qualquer interferência estrangeira e de grande ligação com o mundo natural, serve a O’Farrell para abordar a questão colonial, um dos temas centrais da obra, juntamente com o trauma do colonialismo e a influência da Igreja Católica, uma das mais poderosas instituições irlandesas, que surge personificada na figura do padre Joseph, cuja opinião reina suprema.
De todos os membros da família, Liam é aquele que vê com piores olhos a mudança para a península. E tinha boas razões para isso. A partir da segunda parte do livro, dividido em quatro partes, a família começa a ser assolada por uma sequência de tragédias que não deixam ninguém impune — nem mesmo o cão, Bran (o nome do cão do lendário herói irlandês Fionn Mac Cumhail). Se por um lado constituem parte da reconstituição ficcional da situação real vivida pelos irlandeses na segunda metade do século XIX, quando a emigração para a América do Norte se tornou para muitos a única alternativa a uma vida de grande precariedade, pois, apesar da tragédia que afetou o país, os britânicos pouco ou nada fizeram para ajudar a população, por outro, revelam a falta de direção da autora, a qual, após uma sólida primeira parte, parece ter perdido totalmente o rumo. O que se segue são páginas e páginas de situações dramáticas, sobressaltos, desgraças e desgostos que parecem surgir do nada com o único propósito de dar continuidade a uma história que devia ter ficado pelo primeiro capítulo. Se assim tivesse sido, provavelmente não sofreria de todos os defeitos que é possível apontar-lhe, nomeadamente o exagero dramático de algumas situações, que tornam a história pouco credível e impedem o leitor de criar uma ligação com as personagens.
E assim se vai adiando o final da narrativa, que, quando finalmente chega, aborrece de tão insosso. A atmosfera mágica, que pairava inicialmente sobre o romance, há muito que desapareceu, e as referências lendárias e mitológicas da reta final não são capazes de salvar uma história que, no seu todo, soa forçada e que, para piorar tudo o resto, é deixada como que em stand by, sem qualquer desfecho ou conclusão que tranquilize o coração inquieto do leitor.
Depois de dois extraordinários romances, Maggie O’Farrell decidiu embarcar num novo e ambicioso projeto que podia ter marcado o início de uma nova fase na carreira da escritora anglo-irlandesa, caso tivesse sido bem executado. Pelo contrário, O’Farrell mostrou-se incapaz de estar à altura da história que criou, acabando por expor as suas limitações narrativas e concetuais, numa altura-chave da sua carreira, em que parecia estar em ascensão. Por enquanto, não é possível saber se Terra foi apenas uma aventura que correu mal ou se a autora chegou ao seu limite. O que é, para já, evidente é que a autora deu um passo maior do que a perna. Terra é um romance confuso, com falta de direção e de substância, e sem a força e a beleza melancólica, mas nunca lamechas, de Hamnet e de O Retrato de Casamento, que conquistaram leitores no mundo inteiro.
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