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Sunday, October 11, 2026

Criação de búfalos dentro de reserva e entorno acelera mudança de curso de rio no Amapá

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Existe uma parte da amazônia atlântica brasileira que passa por uma transformação profunda da paisagem. O ritmo é superacelerado, se levados em conta os tempos geológicos. E o modo é tido como irreversível.

A área de planície alagável no leste do Amapá já não é a mesma. A intensa criação de milhares de búfalos, dentro e fora da Rebio (Reserva Biológica) do Lago Piratuba, é apontada como fator que levou ao esgarçamento do rio Araguari, a ponto de secar o trecho mais próximo à foz do rio.

O Araguari já não tem foz, porque acabou desviado para o rio Amazonas. Deixou de desaguar no oceano Atlântico num intervalo de 15 anos.

Os búfalos são o acelerador das mudanças no Araguari, segundo cientistas, o MPF (Ministério Público Federal), o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e o plano de recursos hídricos do Governo do Amapá. A esse fator se somam hidrelétricas e mudanças naturais na planície amazônica.

A cidade mais próxima da reserva é Cutias, a 140 km de Macapá. A Folha esteve na região, reuniu documentos sobre a criação de búfalos e identificou quem são os principais criadores dessa espécie exótica. Apesar de considerados inapropriados para o terreno delicado da planície, os búfalos são criados ali pela abundância de água, condição básica para eles.

A movimentação dos búfalos, em fila e muitas vezes rente a cercas, leva à formação de ravinas, rasgos na terra que acabam sendo preenchidos pela força da água. Filetes se expandem, até a constituição de valas que, com o tempo, ganham nomes dados por comunidades locais e larguras superiores a 1 km.

A reportagem flagrou na extinta foz o leito seco cercado e uma casa, numa imagem feita por drone a partir do último trecho navegável do rio Araguari. Trata-se de uma apropriação de área da União. Próximos à cerca de madeira, havia mais búfalos.

Fazendeiros criam milhares de animais dentro da Rebio, mesmo que esse tipo de atividade não seja permitido na área protegida. A estimativa é de 25 mil cabeças na área da reserva, que é margeada pelo leito seco do rio.

Entre os produtores identificados está Aguinaldo Lopes da Silva, o Naldo Góes. Ele tem sete fazendas em seu nome e cria mais de 6.000 búfalos dentro da reserva, segundo dados de animais vacinados do Governo do Amapá. Ele se recusa a fazer acordos para deixar a área.

Em ação apresentada na Justiça Federal para que Aguinaldo retire os animais da Rebio, o MPF afirma que o produtor cercou o leito seco do Araguari para criação de mais búfalos.

Aguinaldo não respondeu aos questionamentos da reportagem, enviados por email e WhatsApp nos dias 22 e 23 de setembro.

Outros proprietários são a família do prefeito de Cutias, Juscelino Rabelo Mourão Júnior (PL), que foi autuado pelo ICMBio e teve áreas embargadas dentro da Rebio por construir três imóveis de madeira sem autorização. Documentos reunidos pelo MPF mostram que parentes do prefeito criam búfalos na reserva, em diversas fazendas.

A Prefeitura de Cutias não respondeu aos questionamentos da reportagem, enviados por email e WhatsApp em 22 de setembro e reiterados no dia seguinte.

Bem próxima da linha demarcatória da Rebio, na margem do rio Araguari, está a Fazenda Alegria, de Salomão Alcolumbre Júnior. Ele é primo de primeiro grau do senador Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado. Na Alegria são criados entre 40 mil e 50 mil búfalos, segundo pessoas da região, número que o fazendeiro não contesta.

O primo do presidente do Congresso é o maior criador de búfalos dali. A quantidade chega a 16% do total de búfalos no Amapá, estimado em 312 mil cabeças.

Salomão afirmou que a seca na foz do Araguari não pode ser atribuída "de forma preponderante" aos búfalos da região. "O rio possui três hidrelétricas que alteram substancialmente a vazão e a retenção de sedimentos em toda a bacia. Duas entraram em operação justamente no período em que a pororoca deixou de existir", afirmou, em resposta aos questionamentos da reportagem.

Ele disse ainda defender um diagnóstico científico independente para precisar o impacto de cada fator na seca do rio: búfalos, hidrelétricas e dinâmica natural do lugar, impactado pelos sedimentos do rio Amazonas.

Segundo o primo, Davi Alcolumbre não tem búfalos na fazenda, nem é proprietário ou tem participação. O presidente do Senado também declarou, em nota, que não é proprietário, sócio ou coproprietário da Fazenda Alegria e que não cria búfalos no local e "não possui participação, relação econômica ou ingerência sobre a propriedade".

Dentro da Rebio e nas imediações existem cerca de 40 fazendas com criação de búfalos. A informação consta em documentos usados pelo MPF para elaboração de termos de ajustamento de conduta e acordos de não persecução penal com produtores que seguem dentro da área protegida e concordam com a retirada de animais. Há grandes empresários do Amapá entre os criadores.

Em três casos, houve processos judiciais por resistência de fazendeiros a acordo. Aguinaldo foi um deles. Ele precisa retirar seus búfalos da Rebio em um ano, como determinou a Justiça em maio, ao acatar a ação da Procuradoria do Amapá.

Transformação do ecossistema

A paisagem do Araguari se modificou para uma coleção de ramificações a partir do leito principal, com drenagem da água pelas valas abertas pelos animais. Com o desvio do rio, que passou a desaguar no Amazonas, e não mais no mar, o principal percurso da água passou a ser a vala de Uricurituba.

Nada diz que é fruto de atividades humanas; é como um grande rio, com fazendas —e búfalos— nas margens.

O fim da foz significou o fim da pororoca. Era um acontecimento na região, incluindo campeonato de surfe; a última ocorreu no fim de 2013. Comunidades relatam que a água do rio tem maior salinização —toda a região é influenciada pelo ciclo de marés.

O desbarrancamento de margens, a partir do alargamento das valas, engole casas, igreja, campo de futebol, escola e posto de saúde, como ocorreu na comunidade do Pracuúba, vizinha da Fazenda Alegria.

Até a casa que funcionou como sede da fazenda, na margem do rio, ameaça desabar. A pista para avião, de 800 m, também está sendo levada, segundo moradores próximos.

"O Araguari era muito diferente", diz Omercindo dos Reis, 74, que viveu por muito tempo na Pracuúba. "Tinha muitas praias. Agora os lagos secaram muito e tem vala para tudo que é lado. Nunca, na minha vida, pensei que a boca do Araguari ia fechar e que iam abrir essas valas."

Os lagos conectados ao rio, uma característica da Rebio, estão encolhendo diante das mudanças. Os deslocamentos por água foram radicalmente alterados. Alcançar a parte norte da reserva já não é possível sem navegar pela costa oceânica; por dentro não é mais viável, diante da seca de parte do Araguari.

Imagens da evolução histórica da foz, usadas pelo MPF, mostram que o leito do rio tem 173 km2 totalmente assoreados. E essa área é usada intensamente para a criação dos búfalos, uma atividade econômica que emprega pouco e que requer poucos gastos com infraestrutura, segundo a Procuradoria.

Moradores da região dizem que os precursores da família Alcolumbre começaram com 600 búfalos, trazidos de balsa do arquipélago do Marajó, no Pará. Em 2011, segundo esses relatos, eram 20 mil animais. Agora, estimam que seriam entre 40 mil e 50 mil cabeças.

Dentro da reserva, ao lado de uma das fazendas atribuídas a Aguinaldo, só restou um filete de água do rio, contrastando com rasgos e valas próximas. Em direção à foz, já não há mais água.

Na comunidade Bom Jesus do Araguari, ou Tabaco, muitos moradores foram embora. Restaram na parte central a escola, que atende comunidades e fazendas vizinhas, o alojamento de professores —que trabalham em regime temporário– e a casa de Eliane Gomes da Silva, 41, funcionária da escola.

"Aqui era animado. Agora está acabado", diz Eliane. "A pororoca chegava até aqui, saía arrastando galinha e porco. A pororoca ‘metia’ em tudo, e agora não dá mais."

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