Mostra reavalia Alberto Cavalcanti e seu cinema ainda desconhecido
Em agosto de 1978, na Cinemateca Francesa, alguma coisa mudou na retrospectiva do cinema brasileiro que ali acontecia. Em vez da sala quase vazia, típica do mês de férias na Europa, a lotação estava quase completa. Em vez da recepção indiferente dos outros dias, quando terminou a sessão de "Simão, o Caolho" toda a sala voltou-se para uma das últimas fileiras, onde estava um velhinho, e começou a aplaudir de pé.
O velhinho, no caso, era Alberto Cavalcanti, o primeiro brasileiro a ser reconhecido como grande cineasta fora do Brasil. Essa foi uma das últimas homenagens que recebeu antes de morrer, quatro anos depois, em Paris. Sua obra continua quase ignorada no Brasil, e essa foi uma das razões que levou a Cinemateca Brasileira a realizar esta retrospectiva de sua filmografia, cuja primeira parte acontece entre 24 de setembro e 3 de outubro.
Não por acaso, Cavalcanti quis ser enterrado em Paris. Viveu a maior parte de sua vida fora do Brasil. Estudou em Genebra, de onde saiu formado arquiteto. Foi para Paris, onde começou no cinema como assistente de Marcel L’Herbier.
Desde então, começou sua ligação com o grupo da vanguarda francesa do pós-Guerra. E logo em seu segundo filme, "Rien que les Heures", de 1927, ganhou prestígio ao pôr a cidade em destaque num trabalho poético que prefigurava as grandes sinfonias urbanas do final da era muda, como "Berlim, Sinfonia de uma Metrópole", de Walter Ruttman.
O começo do sonoro não é exatamente grandioso: trabalha para a Paramount, fazendo versões francesas de filmes hollywoodianos, num momento em que ainda não existiam nem legendas nem dublagem.
Por sorte, recebe o convite do britânico John Grierson para fazer parte do movimento do documentarismo inglês, que revolucionaria o gênero no início da era sonora. Sua carreira prossegue entre Paris e Londres até que o início da Segunda Guerra o leva a se fixar de vez na Inglaterra, agora trabalhando para Michael Balcon, produtor famoso por ter lançado Alfred Hitchcock como diretor.
Nesse momento, embora sem grandes chances, realiza seu "Filme e Realidade", reflexão sobre o filme- documentário, e assina um dos episódios de "Dead of Night", de 1943, um dos mais bem-sucedidos longas britânicos daquela época.
Depois da guerra, com a Europa encarando o desastre, recebe o convite de Franco Zampari para ser chefe de estúdio da recém-criada Cia. Vera Cruz. O desafio não é pequeno —Cavalcanti volta ao país após mais de 30 anos com a função de montar o primeiro estúdio realmente profissional do Brasil.
Importa equipamentos, monta grandes estúdios em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, e, sobretudo, contrata profissionais de diversas funções —como fotógrafos, operadores de câmera, técnicos de som, montador— vindos de vários países diferentes.
Partia do pressuposto, um tanto discutível, de que no Brasil não havia profissionais capazes. Os estrangeiros deveriam formar os brasileiros, que no início trabalhavam como assistentes. O plano tinha consistência, pois os estrangeiros vinham de vários países, de maneira que não conseguiriam impor um estilo único, permitindo que um modo de ser brasileiro de filmar finalmente surgisse.
A ideia podia ser muito boa, mas Zampari se fez cercar pelos técnicos e diretores italianos da companhia, o que já era um problema. O plano de Cavalcanti de dar a direção de "Angela", de 1951, ao brasileiro Agostinho Martins Pereira dá para trás e o anglo-argentino Tom Payne assume a função. E ainda na fase de pré-produção já se anunciam os problemas econômicos da companhia.
Cavalcanti sai fora e faz, na Cinematográfica Maristela, seu primeiro filme brasileiro, a comédia "Simão, o Caolho", de 1952. A seguir, cria sua própria companhia, a Kino Filmes, onde produz "O Canto do Mar", de 1953, e "Mulher de Verdade", de 1954.
Nesse momento, Cavalcanti ainda elabora o primeiro plano de criação do INC, o Instituto Nacional de Cinema. Mas ele ainda era, nessa altura, um corpo estranho na cinematografia nacional. De quebra, entrava em conflito, para começar, com Humberto Mauro, o diretor do Ince, o Instituto de Cinema Educativo, que seria substituído.
Além de os planos para o INC darem em nada, seus dois últimos filmes fracassam e os prejuízos levam ao fechamento da Kino Filmes. O desencanto do cineasta coincide com sua decisão de voltar à Europa.
Não será, no entanto, um momento feliz, com a exceção, talvez, da oportunidade que teve de dirigir "O Senhor Puntila e Seu Criado Matti", de 1955, baseado no texto de Bertolt Brecht.
O fato de seu trabalho ainda ser quase desconhecido no Brasil foi o motivo principal que levou a Cinemateca Brasileira a projetar a retrospectiva a partir do restauro de seus três filmes brasileiros, mas também daqueles que produziu para a Vera Cruz e da parte dos que dirigiu e produziu na França e na Inglaterra.
A Cinemateca vai projetar uma segunda parte da retrospectiva, mas ainda não há data.
A oportunidade de rever e reavaliar a obra de Cavalcanti é enfatizada pela realização, nesta sexta (26), após a projeção de "Mulher de Verdade", de um debate com Luciana Araujo, Marco Vale e Mariarosaria Fabris, com mediação de Carlos Augusto Calil, no quadro do programa Revisão Crítica do Cinema Brasileiro.
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