Missão nipo-europeia se prepara para chegada a Mercúrio
Após uma jornada de oito anos, a missão BepiColombo está prestes a entrar em órbita de Mercúrio, tornando-se a segunda a realizar tal feito, após a sonda americana Messenger, que chegou lá em 2011 e operou por ali até 2015.
O projeto é na verdade uma missão "três em um": um único pilar empilhando um trio de espaçonaves, o MTM (Módulo de Transferência a Mercúrio), o MPO (Orbitador Planetário de Mercúrio) e o Mio (Orbitador Magnetosférico de Mercúrio). O primeiro deles tinha como missão apenas guiar o pacote completo até o primeiro planeta a contar do Sol, e os outros dois são essencialmente missões complementares, o MPO da ESA (Agência Espacial Europeia) e o Mio da Jaxa (sua contraparte japonesa).
Lançado ao espaço em 2018 por um foguete europeu Ariane 5, a missão passou apertos ao longo de sua longa viagem interplanetária. Em maio de 2024, a ESA, responsável pelo MTM, reportou que uma falha parcial de seus propulsores impediu um disparo de plena potência durante uma manobra em 26 de abril daquele ano. Por alguns momentos, pareceu que a missão poderia ser perdida, mas os técnicos da agência conseguiram reformular o plano original levando em conta o disparo parcial e levar a missão a Mercúrio, ainda que com 11 meses de atraso.
Em 3 de setembro deste ano, a missão do MTM foi concluída, e este módulo se separou do conjunto, descartado. Na última quinta-feira (24), foi o sistema de propulsão do MPO que fez um ajuste final de trajetória antes da inserção orbital em Mercúrio, esperada para 21 de novembro de 2026.
Se tudo correr bem, a dupla, ainda acoplada, estará numa órbita alongada ao redor do planeta, com período de 60 horas, a partir do qual usará propulsão elétrica para reduzir a translação até 9,3 horas, o que deve acontecer em dezembro —momento em que o satélite japonês Mio estará em posição para iniciar suas fase científica, separando-se do MPO, que seguirá "descendo" até atingir uma órbita com período de pouco mais de duas horas, em março de 2027.
Os mais atentos à configuração do Sistema Solar podem estranhar uma missão tão longa para chegar a Mercúrio, um planeta que está tão longe do Sol quanto Marte. Ocorre que viajar para dentro do sistema planetário é mais complicado do que para fora, exigindo manobras cuidadosas feitas com o auxílio da gravidade dos próprios planetas para chegar a Mercúrio com a velocidade certa para ser capturada pela gravidade do menor deles todos.
Por isso, até hoje, apenas duas espaçonaves estiveram por lá, as americanas Mariner 10 (esta só de passagem) e Messenger (a primeira a orbitar). A missão BepiColombo é assim batizada em homenagem a Giuseppe "Bepi" Colombo (1920-1984), matemático italiano que primeiro sugeriu essas manobras de estilingue gravitacional para levar, em 1974, a Mariner 10 a Mercúrio, estratégia que tem sido usada por muitas missões desde então.
A um custo de cerca de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,4 bi), a missão duplo nipo-europeia fará, por pelo menos um ano (possivelmente dois, se o projeto ganhar uma extensão), uma caracterização completa do planeta mais próximo do Sol, que na aparência é similar à Lua, mas tem composição muito mais densa. Entre os objetivos, as sondas pretendem investigar a estrutura interna de Mercúrio, a origem de seu campo magnético e a composição e dinâmica de sua exosfera (um ultra tênue envelope gasoso que recobre sua superfície). Estando tão perto do campo gravitacional do Sol, a missão também fará testes de alta precisão da teoria da relatividade geral de Einstein (o que é nunca é demais).
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