ESPN DeportesEN VIVO: Sigue el Gran Premio de Azerbaiyán 2026CNN TürkChery 24 Saat Tuzlu Su ve Darbe Testine GirdiUN NewsThe Takeaway: UN General Assembly debate Day 4Punch2027: Naval chief urges military personnel to remain apolitical, professionalThe Jerusalem PostChina, US agree to $30 billion tariff cut, AI dialogue following Xi-Trump summit in WashingtonInquirerPagasa: Queenie nears typhoon categoryBollywood HungamaFDA Chief Tukaram Mundhe REACTS to Preity Zinta’s ‘Team Tukaram Mundhe’ T-shirt: “Actual work must be done”Il Fatto QuotidianoAvvocato aggredito con l’acido da una assistita, è in terapia intensiva a CataniaNOSMilitaire delegatie omgekomen bij vliegtuigongeluk in CongoObservador DesportoComo as palavras de Jorge Palma se fizeram sabedoria popularVarietyHow Oscar-Tipped Rising Star Anthony Ippolito Turned ‘I Play Rocky’ Into ‘I Play Sylvester’: ‘You Only Have One Chance to Do This’Rai NewsGP Azerbaijan: Russell in pole, Leclerc 2°. Antonelli a muro: parte 16°. Gara iniziata
The Daily Newsstand · Free, Always
Saturday, September 26, 2026

Afeganistão. "O meu país é estrangeiro para mim"

Translate

Fayaz e Farid fugiram da Guerra do Afeganistão quando eram crianças, sozinhos, e acabaram em Portugal. Cinco anos depois da tomada do poder pelos talibãs, não pensam em regressar.

    Índice

    Índice

Fayaz Khedri tinha 18 anos quando dormiu pela primeira vez num quarto de hotel, na zona de Coimbra. Ao acordar, numa manhã do verão de 2023, o colega de quarto perguntou-lhe se tinha dormido bem, se tivera algum sonho. “Eu não tenho sonhos, só tenho pesadelos“, respondeu o jovem afegão.

Os pesadelos são o resultado de uma vida inteira vivida em “modo sobrevivência”. “Nunca senti que era criança. Não tinha um sentimento de ‘vamos brincar’. Foi sempre ‘vou conseguir, vou fazer isto'”, relata.

Fayaz nasceu em Faryab, uma região no norte do Afeganistão e uma das mais pobres do país. Hoje, com 21 anos, nunca conheceu o seu país natal sem estar em guerra. Foi durante a guerra lançada pelos Estados Unidos após o 11 de Setembro que Faryab perdeu os pais e dois dos irmãos, vítimas de um bombardeamento dos talibãs. Fayaz tinha seis anos. Aos dez, fugiu do país, deixando para trás um irmão e uma irmã mais novos, a cargo de uma tia. Sete anos e quatro países depois da fuga, chegou a Portugal, onde vive desde 2022.

▲ Fayaz chegou a Portugal aos 17 anos. Hoje tem 21

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

As memórias são partilhadas com o Observador na primeira pessoa e sempre com um enorme sorriso durante a 1.ª Conferência da Portugal com ACNUR, a fundação parceira da Agência das Nações Unidas para os Refugiados em Portugal. Fayaz é apenas um dos 3,7 milhões de refugiados afegãos contabilizados pela ACNUR (UNHCR na sigla em inglês) em todo o mundo no ano de 2025. Os números caíram 36% em relação ao ano anterior, depois de 1,9 milhões de refugiados afegãos terem regressado ao país natal em 2025, naquele que foi o maior movimento de regresso de refugiados registado neste ano.

Porém, o regresso a casa não é o sonho de todos os refugiados afegãos. Muitos viram-se forçados a regressar apenas devido às tensões geopolíticas no Médio Oriente, nomeadamente a guerra no Irão, e confrontaram-se com uma situação interna crítica. Cinco anos depois de os talibãs terem tomado Cabul e assumido o controlo do Governo afegão, o Afeganistão continua a ser palco de uma das maiores crises humanitárias à escala global. Para Fayaz — e outros refugiados — Portugal foi uma “segunda oportunidade” na vida que pretendem aproveitar.

“Sempre quis sair”. A fuga da guerra foi uma constante na infância passada no Afeganistão

Fayaz aterrou no aeroporto de Lisboa no dia 7 de abril de 2022. Lembra-se bem do dia e “adora” contar a história dos primeiros momentos em Portugal, onde chegou com estatuto de refugiado com um grupo de outros menores afegãos. “Eu vinha da Grécia, onde estava num campo [de refugiados]. Não havia prédios, não havia nada”, recorda, lembrando o choque da chegada a uma Lisboa movimentada, cheia de pessoas apressadas e a falar numa língua completamente desconhecida. O primeiro pensamento foi: “Como é que me vou adaptar?”. A resposta surgiu imediatamente: “Não tenho outra opção”.

"Na semana passada, quando estava a dormir na minha cama, fiquei a tremer porque estava a relembrar a minha infância."

Fayaz Khedri

Esta máxima guiou-o a vida toda, desde que se lembra. As palavras sobre a infância, passada em Faryab antes da morte dos pais, são curtas. “Sempre quis sair. Com seis, sete, oito anos não podia sair. Mas quando cheguei a um limite não podia ficar mais”, recorda. Cresceu a ver a fuga de várias pessoas para os países vizinhos, à procura de escapar à guerra, e, aos dez anos, seguiu-lhes os passos — sozinho. A primeira paragem foi o Paquistão. Depois seguiu para o Irão e finalmente para a Turquia. Em todos os sítios por onde passou trabalhou em várias áreas, da construção civil ao fabrico de pão.

O último ponto de passagem foi a Grécia, nos campos de refugiados de Lesbos e Moria, experiência sobre a qual também não se alonga. “Foi uma loucura“, diz, de forma breve. A sucessão de experiências traumáticas não lhe roubou o sorriso do rosto. Diz ser um otimista, focado em viver um dia de cada vez e de olhos postos no futuro e não no passado, que lhe alimenta os pesadelos. “Na semana passada, quando estava a dormir na minha cama, fiquei a tremer, porque estava a relembrar a minha infância”, exemplifica.

Ainda assim, não hesita em falar sobre a sua experiência, uma história que é partilhada por tantos outros, muitos dos quais não sobreviveram à jornada. Segundo a Organização Internacional para as Migrações, apenas em 2025, 1.540 afegãos morreram a tentar sair do país, um número que representa mais de metade de todos os mortos registados nas rotas migratórias na Ásia. “Muitas pessoas já morreram no nosso caminho“, diz Fayaz durante a conferência.

▲ Farid Walizadeh chegou a Portugal no Natal de 2012

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Sentado numa das últimas filas do auditório, Farid Walizadeh acena afirmativamente com a cabeça. Hoje com 29 anos, chegou a Portugal há 13. A fuga do Afeganistão fez-se aos nove anos e o percurso até Portugal foi semelhante ao de Fayaz: Paquistão, Irão, Turquia até à chegada a Lisboa com estatuto de refugiado. Os sentimentos à chegada foram, contudo, muito diferentes dos do seu compatriota. “A primeira memória é eu chegar a Portugal, no dia 28 de dezembro de 2012. Estava tudo vazio. [Pensei] ‘estranho, este país é tão vazio’. Eu não sabia que estava [na altura] do Natal”, recorda ao Observador. O choque cultural seria apenas o primeiro de muitos.

Há cinco anos que o Afeganistão “é mandado pelos talibãs”. Nesse período, muita coisa mudou

Quase dez anos separam a fuga de Farid da fuga de Fayaz do Afeganistão. Mas o contexto que obrigou os dois a empreender uma viagem que não desejavam fazer era o mesmo: uma guerra que durou quase duas décadas no solo em que nasceram, desencadeada por uma invasão dos Estados Unidos que completa no próximo mês o seu 25.º aniversário. Foi ainda durante essa mesma guerra que Farid, já a viver em Portugal, conseguiu trazer para o pé de si a mãe e as irmãs.

“A minha família chegou em 2018. Já passaram oito anos. Já mudou muito”, nota, referindo-se ao Afeganistão. “Naquele tempo, ainda havia um Governo democrático, mais ou menos funcional, mas hoje em dia está mandado pelos talibãs, é uma situação totalmente diferente“, reflete. A tomada de poder pelos talibãs aconteceu no dia 15 de agosto de 2021, quando as suas forças capturaram a capital, Cabul. Duas semanas depois, os EUA concluíram a retirada de todas as tropas no país.

"Se houvesse um governo [que desse a] homens e mulheres direito a ler, a estudar, onde podem viver em paz, onde não há segregação, aí [podiam dizer] que é um governo. Mas, neste momento, não é um governo".

Farid Walizadeh

Agora, ao fim de cinco anos do Governo talibã, as mudanças — sociais, económicas e políticas — a que Farid se refere são mais evidentes do que nunca. Os ataques aos direitos das mulheres são destacados pelos especialistas como a pior consequência da governação dos talibãs. As mulheres foram afastadas da vida pública, impedidas de ocupar cargos públicos e as meninas proibidas de estudar para lá dos doze anos. “É a forma mais extrema de exclusão de género no mundo“, sublinha Obaidullah Baheer, professor na Universidade Americana no Afeganistão. Numa coluna de opinião na Al Jazeera, o especialista destaca a conexão entre o fundamentalismo religioso e o aumento do papel do Estado, que criou uma política de “polícia dos costumes”.

Para além de configurar uma crise em si mesma, a exclusão das mulheres do mercado de trabalho aprofundou ainda a crise económica em que o país estava mergulhado depois de duas décadas de guerra. A isso somou-se ainda uma série de catástrofes naturais, sismos e inundações, que fragilizaram ainda mais a crise humanitária. Neste momento, a ONU estima que 45% da população (cerca de 22 milhões de pessoas) precisam de assistência humanitária e que um terço da população enfrente insegurança alimentar “a um nível de crise ou pior” — o nível de “crise” é o terceiro numa escala de cinco utilizada para classificar como a fome afeta as populações.

“Se houvesse um governo [que desse a] homens e mulheres direito a ler, a estudar, onde podem viver em paz, onde não há segregação, aí [podiam dizer] que é um governo.”, argumenta Farid. “Mas, neste momento, não é um governo”.

▲ A crise humanitária no Afeganistão afeta de forma preponderante as mulheres

Elise Blanchard

Regresso a “casa” ou trazer a família para a Europa. As diferentes lutas para estar perto da família

Questionado sobre se ainda pensa no Afeganistão como “casa”, Fayaz hesita. “Acho que não tenho casa“, afirma, num raro sorriso triste. Ainda assim, não nega uma forte ligação emocional ao país. “Tenho uma irmã, um irmão. Só queria ver como é que eles estão”, partilha. Fala com eles com alguma regularidade, uma vez por semana, quando a ligação à internet e os horários de trabalho assim o permitem. Ambos ainda vivem com a tia, com quem Fayaz também vivia no Afeganistão. O irmão, de 15 anos, trabalha como soldador desde os seis. A irmã, de 16, “faz coisas de casa em casa da tia”.

Contudo, o verdadeiro sonho não é regressar ao Afeganistão para se reunir com os irmãos — algo absolutamente impossível por agora — mas antes trazê-los para Lisboa, para viverem com ele. “A minha tia não deixa vir a minha irmã, porque ela é uma miúda. Não consigo explicar, elas têm uma mentalidade diferente. [Ela] não pode vir para a Europa porque vão [pôr] coisas na cabeça dela”, afirma. Sem nunca olhar diretamente para a realidade política do país que o viu nascer, Fayaz sente diretamente a exclusão de género das raparigas quando fala da irmã.

A realidade não é a mesma para o irmão mais novo: “o meu irmão pode vir”, diz. O obstáculo aqui é outro, a burocracia. Farid deparou-se com o mesmo problema: quando chegou, quando trouxe a família para junto de si e agora, enquanto aguardam por respostas ao pedido de nacionalidade portuguesa. “As dificuldades de documentação em Portugal estão iguais”, lamenta, apontando os longos períodos de espera por “documentos que [não sabe] se estão a chegar ou se vão sequer chegar”.

"Houve um ano em que tive de fazer uma história sobre férias. Eu escrevi 'não sei o que são férias'. A professora deu-me um zero"

Fayaz Khedri

O regresso ao Afeganistão que os dois refugiados afegãos em Portugal excluem da equação acaba, porém, por ser a resposta para muitas pessoas. Segundo dados da ACNUR, em 2025, quase três milhões de afegãos regressaram ao país, incluindo 1,9 milhões de refugiados. Entre janeiro e maio de 2026, tinham sido registados mais 678.500 regressos. A agência das Nações Unidas destaca que a maior parte destes regressos foi registada no Irão, que tem a maior comunidade afegã, com 1,6 milhões de refugiados do país vizinho. A eclosão da Guerra dos 12 Dias entre Israel e o Irão, no verão de 2025, ajuda a explicar o elevado número de regressos.

Em Cabul, o regresso de cidadãos afegãos é desejado pela liderança talibã, que procura colmatar as lacunas deixadas pela ausência de mulheres do mercado de trabalho. É nesse sentido que os talibãs — cujo Governo é apenas reconhecido formalmente como legítimo pela Rússia, em todo o mundo — têm negociado acordos de migração com vários países europeus, que procuram repatriar afegãos com pedidos de asilo pendentes em território europeu ou com cadastro de volta para o Afeganistão. “Fizemos progressos nesta área e esperamos fazer ainda mais progressos significativos no futuro”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros do Afeganistão Amir Khan Muttaqi numa rara entrevista à imprensa ocidental, dada ao New York Times.

“Eu tinha tantas oportunidades, não conseguia escolher”. As portas que Portugal, o teatro e o boxe abriram

Chegado a Portugal, Fayaz ficou a viver na Fundação O Século e começou a frequentar a escola em São João do Estoril. “Nunca tinha ido à escola na minha vida passada. Nos primeiros meses, comecei com língua portuguesa”, relata, lembrando o apoio dado pelas professoras. “Eu não percebia o que é que elas falavam. Não estava a entender. Mas agora entendo. Estavam a cuidar de nós”, continua. Quebrado o primeiro choque com a língua, as diferenças culturais agigantaram-se.

▲ Farid Walizadeh colabora com a ACNUR e tenta "criar empatia" nas pessoas em relação aos refugiados

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

“Houve um ano em que tive de fazer uma história sobre férias. Eu escrevi ‘não sei o que são férias’. A professora deu-me um zero”, relembra. À distância dos anos, a história é contada entre risos, mas, à data, para Fayaz, que apenas conhecia o rótulo de “refugiado”, a chegada a Portugal foi uma montra de oportunidades. “Eu queria estudar muitas coisas. Tinha tantas oportunidades, não conseguia escolher”, afirma. Acabou por encontrar um lugar no teatro.

“Não sabia que o teatro existia, não sabia que existe um sítio em que dá para falar e os outros ouvem”, partilha. Depois do palco, experimentou trabalhar com som, luz, a direção artística. Terminada a escola, continua a trabalhar no teatro, onde faz digressões pelo país com a Yellow Star Company, cujo diretor Paulo Sousa Costa vê como mentor. Foi em digressão com o teatro que, naquele verão de 2023, ficou pela primeira vez num hotel — e experimentou o enorme buffet de pequeno-almoço, mais um exemplo da quantidade de oportunidades que encontrou em Portugal, brinca Paulo Sousa Costa, um dos oradores na conferência da ACNUR.

“Os meus amigos falavam do Super Mario e eu perguntava o que era. Não sabia.” A história de Farid, do Afeganistão ao sonho dos Olímpicos

Se para Fayaz o teatro foi o seu veículo de integração, Farid encontrou essa ferramenta no desporto, mais precisamente no boxe. Hoje, depois de uma lesão prolongada, ainda alimenta o sonho de voltar a treinar e ir aos Jogos Olímpicos, como partilhou com o Observador em 2023. A par dos treinos, estudou arquitetura e trabalha agora numa organização não governamental, que “usa o desporto como ferramenta de integração”. “Naquele tempo não havia, se calhar se houvesse ficava mais fácil”, afirma, olhando sobre a sua chegada a Portugal.

"[A passagem] pelo Paquistão, Irão, o Mar Mediterrâneo... Não eram conversas fáceis de ter com um colega meu. Se eu dissesse uma coisa dessas, eles ficavam traumatizados. Mas para mim, era uma situação normal."

Farid Walizadeh

No ensino secundário, que concluiu na Escola António Arroio, sentiu a mesma dissonância que Fayaz em relação aos colegas portugueses. “[A passagem] pelo Paquistão, Irão, o Mar Mediterrâneo… Não eram conversas fáceis de ter com um colega meu. Se eu dissesse uma coisa dessas, eles ficavam traumatizados. Mas, para mim, era uma situação normal”, elabora durante a conferência. Agora, em vez de “traumatizar”, partilha a sua história para “ganhar uma certa empatia das pessoas que pensam que os refugiados estão a invadir o país delas”.

Os doze anos que leva já em Portugal mudaram a sua forma de olhar para o país de onde partiu. “Há um ditado que diz que, quando tu viajas, tornas-te estrangeiro no país ou na tua casa. Hoje em dia, o meu país é estrangeiro para mim“, diz ao Observador, admitindo, depois de muitos anos a lutar, estar “feliz”, “bem-sucedido” e a “viver no momento”. “Acho que não conseguia viver outra vez no Afeganistão, até se houvesse paz e tudo seguro. Ia começar como refugiado de novo no meu próprio país”, remata.

View the original on Observador Desporto →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.