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Friday, September 25, 2026

Participante do 1º pleito com voto feminino no Brasil, eleitora de 100 anos tende a votar em Lula

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Foi somente em cima da hora que Eny Villela Braga notou que a Justiça Eleitoral havia feito confusão. A seção de votação da jovem, residente à rua Alice, Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro, foi parar na rua Alice Figueiredo, no subúrbio da central, no bairro do Riachuelo.

Eny, então com 18 anos, pediu ajuda ao pai naquele domingo, 2 de dezembro de 1945, para se deslocar pela cidade. Tempos do bonde elétrico. Ela e as mulheres do Brasil votavam pela primeira vez para presidente. O voto de Eny foi para Eurico Gaspar Dutra.

Dutra saiu da eleição vitorioso e Eny, decidida: prometeu que jamais deixaria de votar por causa de distância ou outra dificuldade possível de ser superada.

No próximo domingo, dia 4, Eny, de 100 anos, será levada pelos filhos à seção de votação.

Eny testemunhou um Brasil de 22 presidentes, seis Constituições e duas ditaduras. Viveu um casamento que gerou 11 filhos, netos e bisnetos. Nascida em Alfenas, Minas Gerais, foi criança para o Rio de Janeiro, então capital federal. Viveu a Revolução de 1930, a que pôs Getúlio Vargas no poder, e o suicídio do presidente, em 1954. Era mãe de filhos pequenos no golpe militar de 1964 e quase avó na primeira eleição após a redemocratização, em 1989.

A moradora de Volta Redonda, no sul do estado do Rio de Janeiro, tende a votar em Lula (PT) por considerar Flávio Bolsonaro (PL) uma opção pior.

"Eu queria votar no vice", diz Eny, sobre Geraldo Alckmin (PSB). "Ele me parece mais simpático, mais democrático. Depois me explicaram que não adianta, que o vice só entra se ele [Lula] morrer ou renunciar, como fez Jânio Quadros."

Eny repele a família Bolsonaro pelo tratamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) à pandemia, quando mais de 700 mil brasileiros morreram de Covid. Foi o período em que morreu um dos filhos de Eny, aos 56 anos. Ele não foi vítima da Covid, mas tinha síndrome de Down e o isolamento no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) deixou a família sensibilizada.

Eny tem rotina regrada, com sessões diárias de fisioterapia e fonoaudiologia em casa. Faz atividades duas vezes por semana em uma academia para pessoas com mais de 60 anos. Costumar levantar da cadeira sozinha, mas usa um andador por prudência. Recorda em detalhes do Rio de Janeiro de outrora, do casamento e da criação dos filhos.

Ela se informa por meio do celular e diz que assiste pouco à televisão.

"A propaganda política atual, não gosto de ouvir", afirma. "Leio notícias no celular e livros no Kindle. Tenho dificuldade para digitar, porque não tenho muito bem as digitais dos dedos. Além disso, tem coisas que eu esqueço. Mas estou lúcida, e enquanto estiver lúcida, vou votar."

Ela votou em Lula em 1989 e nas eleições seguintes, mas receia o quarto mandato do petista porque "quem fica muito tempo no poder acaba virando ditador também".

"Se as pessoas discordassem, mas houvesse conversa, diálogo, tudo bem. Mas não é isso o que se vê. As famílias estão separadas", opina sobre a politização do cotidiano brasileiro.

Eny casou-se com um bancário do Banco do Brasil. Saiu do Rio, então capital federal, nos anos 1950, e já considerava a cidade violenta. Foi morar em Resende e depois em Volta Redonda.

"Os portões da vizinhança eram todos abertos e meu filho [o que tinha síndrome de Down] entrava na casa dos outros, fazia bagunça, dava muito trabalho para mim", recorda, com ternura.

Eny cursou filosofia na Universidade Santa Úrsula, foi dona de casa por opção e motorista pioneira na família. Só deixou de dirigir aos 92 anos, diante do pedido dos filhos.

Ficou viúva em 1984, mas a casa em que vive tem visitas frequentes de filhos e cuidadoras. A importância da família vê-se no mural de fotografias na parede da sala.

Quis ser professora, mas não foi escolhida pelas freiras da universidade. Considera que houve evolução no papel da mulher na sociedade, e cita que mais mulheres trabalham fora hoje em dia. "Mas não quer dizer que eu queira participar [do mercado de trabalho]."

Eny diz ter sido uma criança integralista. O pai, um caixeiro-viajante, era seguidor de Plínio Salgado, líder da extrema direita dos anos 1930.

"Eu era pliniana. Tinha uniforme, sainha branca, blusinha verde. Uma vez por semana, aos sábados, fazia exercícios, marchava. Deixei de ser pliniana quando fui para a faculdade porque lá vi que se tratava de um movimento de ditadura", afirma.

Eny não tinha simpatia por Getúlio Vargas. O regime autoritário brasileiro mais fresco em sua memória é o do Estado Novo (1937-1945), embora anterior à ditadura militar (1964-1985). O varguismo, aliás, está presente em Volta Redonda. A cidade a 130 km da capital se desenvolveu com a chegada da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), implementada durante o Estado Novo.

A CSN foi privatizada em 1993 e a siderúrgica ainda é parte importante da economia e cultura, mas alvo de questionamentos por conta da poluição do ar. Um pó preto volta e meia invade as casas.

Foi em Volta Redonda que Eny se interessou pela política comunitária. Participou da Constituinte volta-redondense e do movimento Ética na Política. Por conta do filho com síndrome de Down, aproximou-se da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), atualmente Instituto Jô Clemente.

Católica, frequentou a mesma a igreja em que, nos anos 1960, quatro padres foram presos pela ditadura militar. Eny tem lamentado que as missas do padre Júlio Lancelotti deixaram de ser transmitidas na internet, por determinação da Arquidiocese de São Paulo no ano passado. Ela assistia pela televisão e gostava dos sermões.

Quando instada a comparar o Brasil atual com o país de quando tinha 30 ou 40 anos de idade, Eny fica em silêncio. Em seguida, responde que agora o país está melhor porque não há ditadura.

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