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Sunday, October 4, 2026

Daniel, um sábio na Babilónia

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Daniel, um sábio na Babilónia. Este é o quarto episódio da terceira temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor da Universidade Católica Portuguesa. E eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.

Esta semana vamos voltar a um dos períodos mais importantes da narrativa bíblica: o exílio do povo hebreu na Babilónia no século VI a.C. E vamos conhecer Daniel, um dos principais profetas do Antigo Testamento e protagonista de um livro cheio não só de peripécias, mas também de visões apocalípticas. Daniel foi um jovem hebreu deportado de Jerusalém para a Babilónia, onde se tornou um dos principais conselheiros do rei Nabucodonosor. O livro de Daniel é, ele próprio, uma biblioteca de textos muito diferentes. Temos histórias na corte de Babilónia, a descodificação de sonhos e visões, textos apocalípticos e algumas narrativas bem conhecidas da Bíblia, como a célebre cova dos leões. Tudo num livro que coloca o leitor perante a ideia de um povo judeu que, mesmo longe da sua terra, resiste sempre à opressão. Estas são as Histórias da Bíblia. Olá a todos. Como sempre, quero aproveitar para lembrar os nossos ouvintes que a nossa caixa de e-mail, ashistoriasdabiblia@observador.pt, está sempre à disposição para perguntas, sugestões, comentários. Temos recebido muitas dos nossos ouvintes e procuramos responder às perguntas num episódio especial todas as quintas-feiras. É um episódio exclusivo em podcast. Portanto, para não perder nada, não se esqueça de seguir o programa nas plataformas habituais e assim tem a certeza que não perde nenhum episódio. Ora bem, no tema desta semana, vamos olhar para o 34º livro da Bíblia. Estive a fazer as contas a ver quando é que aparecia o livro de Daniel. É um salto realmente grande em relação aos livros do Pentateuco, que estivemos a analisar no último episódio. O livro de Daniel faz parte do grupo dos livros dos profetas maiores e os nossos ouvintes que quiserem recordar quem foram os profetas e que livros são estes, podem sempre voltar a ouvir ou ouvir pela primeira vez o sétimo episódio da primeira temporada. Falámos longamente sobre este assunto. Agora a ideia é focar-nos especificamente nesta figura, Daniel. É uma personagem cuja história se situa por volta do século VI a.C., é a altura em que situamos mais ou menos o cativeiro em Babilónia. Os nossos ouvintes que nos acompanham habitualmente já nos terão ouvido a falar bastante sobre este acontecimento histórico, por exemplo, no sexto episódio da primeira temporada. Mas, João, queres contar-nos um bocadinho quem terá sido esta personagem? Vou fazer a pergunta que faço em todos os episódios: é uma figura histórica ou uma personagem lendária?

Geralmente fazes ao Daniel. Sim, a figura de Daniel é a figura de um jovem judeu de origem mais ou menos aristocrática, deportado para a Babilónia por Nabucodonosor e formado numa certa cultura da corte e elevado a conselheiro real. Estamos a falar de uma personagem que remontaria ao século IV a.C., mas a verdade é que não possuímos documentação extra-bíblica que permita identificar este Daniel com qualquer funcionário real.

Século IV? Século VI.

Século IV... VI, desculpa.

586.

Estava aqui, sabes antes envelhecer às vezes.

O e antes do V.

Exato. Desculpa. Mas sim, século VI. E é um livro que, na verdade, acaba por ser um bocadinho composto por retalhos, ou seja, existem aqui uma espécie de contos populares que podem ter evoluído para a história de Daniel, mas nós depois temos aqui, ao mesmo tempo que uma figura, agora sim, do século VI, referências que só são possíveis obter no século II. Portanto, é possível que este livro tenha sido escrito ou tenha sido a sua fundação final, ou redação final, mais do que fundação, no século II. Estamos a falar aqui de três tempos, possivelmente, que estão aqui. O tempo narrado, portanto, o exílio da Babilónia. Nós depois temos aqui o tempo da formação dos contos e, portanto, há aqui coisas neobabilónicas, persas e helenistas posteriores. E também o tempo das visões de Daniel, que parecem referir-se mais a este período do século II, no reinado de Antíoco IV Epifânio, portanto, em volta de 167 e 164.

Está essa ideia.

164. Nós viemos de um almoço. E, portanto, nós estamos aqui a falar de um livro que tem estas mantas de retalhos, fala que esta é uma figura do século VI, ao mesmo tempo que também faz referência ao século II. Portanto, estamos aqui neste espaço temporal em que os judeus estão na Babilónia, regressam e depois têm que conviver com o helenismo, que depois ali naquele território atual de Israel começa a ser mais veemente.

E o livro começa por nos situar esta personagem que é levada para o serviço do rei de Babilónia, juntamente com três amigos. Portanto, basicamente, o rei queria Que se fossem buscar entre os jovens deportados do povo hebreu aqueles que fossem mais capazes para estar ao serviço.

Sim, o que de certa maneira também mitiga a ideia que falaste na introdução de um povo que está sempre a resistir. Se nós pensarmos que a ideia de resistência é dizer: "nós não compactuamos, de modo algum, nem sequer cheiramos o imperador e as altas esferas do império", não é isso que acontece aqui. Nós vemos aqui um povo que ao mesmo tempo, é verdade, que trabalha para o imperador, também não o sacraliza. Isso será talvez um dos grandes temas deste livro.

Daniel, o João já estava aqui a levantar um pouquinho o véu sobre esta ideia de como o livro de Daniel tem referências a outros tempos, tal como muitos outros livros da Bíblia, além de nos falar sobre o tempo que relata, este livro também nos conta muito sobre o tempo em que foi escrito, tal como o cativeiro ajudou o povo hebreu, por exemplo, a encontrar sentidos na história do êxodo de Moisés. Este livro terá sido escrito ou acabado de ser escrito ali pelo século II antes de Cristo, como dizia o João, durante o Império Selêucida, que sucedeu ao tempo de Alexandre, o Grande. Esse império também submeteu o povo hebreu a uma forte perseguição. Não sei se nos podes contar um pouquinho sobre este livro. Esta pergunta que eu fazia: o leitor do século II, por exemplo, poderá encontrar neste livro alguma inspiração para manter a fidelidade a Deus num tempo de perseguição à sua religião?

Se calhar começo por disputar algumas afirmações tuas aqui no início e dizer que este livro não nos leva para o cativeiro da Babilónia, leva-nos claramente para esta época que referes dos selêucidas, neste século II, que é claramente o tempo da escrita deste livro, pelas referências a este rei Antíoco Epifânio, uma espécie de besta negra, pela tentativa de helenização, ou seja, imposição da cultura grega, helenística, forçada ao povo de Israel, como temos mais claramente, por exemplo, no primeiro livro dos Macabeus. E, portanto, trata-se de uma ficção histórica colocando Daniel e os seus amigos como personagens nesta corte da Nabucodonosor, mas à altura também se refere ao rei Dário ou Dario, rei dos medos, medos persas. Estamos também no império que sucede à Babilónia. E, portanto, não há aqui uma pretensão de uma descrição histórica, até pelas datas que aqui coloca, não corresponde a data com o reinado deste rei.

Há muita imprecisão histórica.

Portanto, há uma tentativa de verosimilhança, mas, no fundo, o livro Daniel mistura uma série de histórias edificantes, histórias em que os personagens são muito idealizados, quase que não são verdadeiramente personagens, mas são um tipo de crente, de judeu piedoso, por uma parte, e doutra parte, uma literatura muito apocalítica. E essa também é outra coisa que eu queria recusar até da tua afirmação, que corresponde à nossa arrumação do livro Daniel no nosso cânon, ou seja, está entre os profetas, geralmente a seguir a Isaías, Jeremias, Ezequiel, mas no cânon hebraico não aparece nos profetas, mas sim nos escritos. Portanto, é uma outra coisa. Já não é profecia, já não é esta profecia clássica de Israel, com todas as suas categorias, de coisas que já falámos, já foram faladas neste programa, mas um outro tipo de visão, sobretudo apocalítica. É verdade que Apocalipse, apocalítica, literatura apocalítica, são nomes que nos sugerem certas imagens, certas formas de ver o mundo que talvez não correspondam exatamente àquilo que são. Porque lembramos logo do Apocalipse e, portanto, para nós, Apocalipse equivale à destruição.

Walking Dead.

Mas, no fundo, tem a ver com revelações mediadas por um ser celestial, com uma linguagem altamente simbólica, de coisas ou de eventos que apontam para outros, como uma espécie de chave de leitura quase alegórica, um grande dualismo muito radical entre o bem e o mal, um determinismo histórico. E é interessante que os sonhos têm um papel muito importante em Daniel. Daniel é também um intérprete de sonhos. E já falámos em outro episódio passado sobre os sonhos de José. E há aqui uma diferença nos sonhos que nos aparecem aqui no livro Daniel, que o jovem Daniel, este sábio, interpreta. Há aqui um grande determinismo histórico, a coisa já é inevitável, já não se pode fazer nada. Portanto, é um outro tipo de teologia e de visão de Deus e de contexto histórico que subjaz a isto que encontramos aqui.

Então nós na segunda parte vamos falar um pouquinho mais sobre esta ideia de textos ou visões apocalípticas, mas vamos então tentar contar a história que está aqui no livro de Daniel. João, a primeira parte do livro consiste, na prática, numa sucessão de pequenas histórias passadas ali na corte da Babilónia. São pequenos contos, talvez, que servem para começar por nos enquadrar, por construir esta personagem de Daniel como um homem íntegro, reto, justo. Temos ali aquele episódio em que ele recusa beber o vinho do rei, depois vai também decifrar os sonhos do rei. Não sei se consegues traçar-nos aqui um retrato desta-

Sem falar muito em vinho, senão pode me acontecer como na resposta à pergunta anterior De forma resumida, Daniel e esses três jovens que já falaste são levados para a corte. É aí que recebem uma formação para servir o rei, mas recusam ser assimilados à corte. A certa altura, quando o imperador, o rei Nabucodonosor, tem um sonho, é Daniel, e não os sábios oficiais, que consegue explicar o sonho. Basicamente, o que Daniel diz é que aquele sonho, que tem a ver com uma estátua, significa que o poder imperial será substituído. Depois, os três companheiros de Daniel recusam adorar uma estátua de ouro. O que acontece é que eles são colocados numa fornalha ardente e saem ilesos. É mais uma espécie de sequência da história anterior, que origina-se depois o cântico de Daniel ou o cântico destes três servos, que tem como objetivo louvar toda a criação, que ainda hoje é utilizado na liturgia católica e cristã. Há um novo sonho. Daniel volta a dizer que o poder depende de Deus. E depois, mais tarde, quando Baltasar, que é o novo rei, num banquete, profana os vasos do templo, existe uma espécie de mão misteriosa que escreve na parede uma mensagem e Daniel explica que o rei foi avaliado e que o reino será dividido. Isso acontece naquela mesma noite. O reino é dividido, salva o poder Dario, e é ali que os adversários de Daniel conseguem que o rei se centre ou concentre para dar alguma vingança a este Daniel, que estava, de certa maneira, a pôr em causa a sabedoria oficial, e acaba também Daniel a ser lançado à cova dos leões. Ele não é comido pelos leões e o rei acaba por o retirar dessa prisão e até por se converter, entre aspas. Basicamente, entre imbróglios, o que esta história quer mostrar? Que o rei, o imperador, não controla a ordem do mundo, como o faraó também não controlava quando foi às pragas do Egito.

Daniel, estamos aqui mesmo para chegar ao fim da primeira parte, mas se calhar numa frase ou duas, o João mencionou aqui este episódio da cova dos leões, que é muito conhecido. Como é que se chega ali? O que acontece ali para Daniel ser lançado à cova dos leões?

Este episódio, que é narrado no capítulo 6, há aqui uma ordem para adorar uma estátua. Daniel, como crente, recusa-se a fazer isso e reza ao seu Deus, ao Deus de Israel, é denunciado por uns personagens que têm inveja dele e então, para grande pena do rei, que até gostava de Daniel, é lançado à cova dos leões. Só que, de facto, pela sua fidelidade, Daniel acaba sendo poupado e não é comido pelos leões. Portanto, é uma história em que se mostra que é Deus que controla a situação e não tanto a pretensão vácua do rei.

Exatamente. Nós vamos voltar para a segunda parte das histórias da Bíblia, depois de um curto intervalo, vamos tentar perceber o que é que se segue na história de Daniel, particularmente, como já falámos, as visões apocalípticas que ocupam uma grande parte do livro de Daniel. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de As Histórias da Bíblia, com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar sobre o profeta Daniel. Nós, na primeira parte, estivemos a falar das histórias que surgem no início deste livro de Daniel, um dos livros que surgem no cânon católico entre os livros dos profetas. Daniel, homônimo do nosso protagonista de hoje. Tive que te encurtar no final da primeira parte, porque estávamos a chegar mesmo ao fim da primeira parte, mas retoma o teu raciocínio.

Ia dizer qualquer coisa sobre a ação deste meu homônimo. O João referia este episódio da escrita na parede, em que uma mão misteriosa escreve na parede, que até dá em língua inglesa esta expressão, "the writing's on the wall", a escrita está na parede, quer dizer, uma sentença condenatória é inevitável. E este marca uma grande diferença entre os sonhos, por exemplo, em José, que já falámos noutra altura, em que ainda permitem uma mudança de ação, uma mudança de decisão, vários caminhos. Os sonhos aqui em Daniel mostram, no fundo, algo que já está decidido, um determinismo histórico. Este rei já foi condenado, sua morte já está prevista. Portanto, Daniel é porta-voz de uma ação de um Deus que vai mesmo agir, quer o homem esteja contra ou não. Isto corresponde também a um que tinha esta lógica desta literatura apocalíptica, muito simbólica, enfim, o João vai agora desenvolver um pouquinho mais isso, mas também muito de resistência, desta ideia de oferecer um bocadinho de alento e esperança em épocas de perseguição, como foi esta de Antíoco Epifânio, no século II, como será mais tarde na perseguição dos cristãos, no livro do Apocalipse. Portanto, a literatura apocalíptica não é uma literatura de destruição, mas é sobretudo esta ideia de uma literatura cifrada, misteriosa, mas com este grande escopo de também dar alento e dar motivos de continuar na fidelidade ao Deus que sustenta o seu povo.

Portanto, é um texto também que recorre a este contexto histórico do cativeiro em Babilônia, etc, para depois iluminar um pouco esse período do século II.

Sim, ou seja, é escrito nesta época de perseguição e que se vai refazer a uma outra época de perseguição para fundamentar o que diz.

É justamente isso, João. Estivemos a falar sobre estas histórias que compõem a primeira parte do livro de Daniel. Temos que agora entrar, se calhar, na parte mais complexa do livro, chamado Apocalipse de Daniel. Estamos a falar de uma fase do texto que passa por uma série de visões apocalípticas narradas por Daniel. Se calhar, vale a pena voltar a esta ideia. O que é isto de apocalipse? Nós na primeira temporada fizemos um episódio sobre o livro do Apocalipse.

Sim, o Daniel já explicou que o apocalipse não tem a ver com uma destruição do mundo. Na primeira parte, acho que referi isso, não tem nada a ver com zumbis e Walking Dead e essas coisas assim. Apocalipse é uma palavra grega que significa acima de tudo revelação. Aliás, o livro do Apocalipse, que é o último livro da Bíblia, muitas vezes surge como o livro da revelação. Mais revelação no sentido de desvelamento, tirar o véu a algo. É uma palavra muito cara a um filósofo do século XX, o Martin Heidegger, que dá um exemplo de apocalipse, aliás, até muito contranatura, contracorrente àquilo que estamos habituados, que é andar numa floresta e à medida do tempo que andamos na floresta, ela faz um apocalipse, ela mostra-se, nós tiramos o véu à medida que andamos. Não é um momento destruidor, muito embora esta linguagem quase surrealista e destruidora apareça como motivo linguístico e estético no mundo apocalíptico. Acima de tudo, o apocalipse quer falar de uma espécie de transcendência simultaneamente espacial, porque estamos aqui a falar muitas vezes de uma corte e de conflitos celestes, e também uma transcendência espacial, porque fala de uma história que está a encaminhar-se para uma espécie de libertação final. Um exemplo desse tipo de transcendência até imagética, por exemplo, no capítulo sétimo aqui em Daniel, fala-se de quatro animais monstruosos que emergem da água, de um tribunal celeste presidido por um ancião, que entrega depois o domínio a uma figura de aparência humana, que é o filho do homem, que às vezes cola a ideia de filho do homem nos evangelhos, quando se diz que Jesus é o filho do homem. Há muitas desconstruções, até corporais, por exemplo, nesse capítulo oitavo, há monstros que têm chifres salientes no meio dos olhos, animais com vários olhos, isso às vezes pode ser um bocadinho complicado para nós, mas acima de tudo, o que o apocalipse quer mostrar é dar, como dizia o Daniel, alento no tempo de perseguição, através de uma linguagem cifrada, mas também tornar a história e a experiência humana inteligível, ao mesmo tempo que salvaguarda que também a experiência humana é incontrolável e às vezes insuportável de ser vivida. Portanto, é uma literatura que, indo a um extremo, é também uma literatura de equilíbrio.

Daniel, podemos tentar olhar especificamente para estes textos. O João já falava de algumas destas imagens que encontramos no texto apocalíptico de Daniel, os quatro animais, o ancião, o carneiro e o bode, o anjo Gabriel também surge à altura. Toda a mensagem destas visões parece remeter basicamente para os acontecimentos geopolíticos que se verificaram depois do exílio em Babilónia, o domínio persa, o domínio grego, etc. Portanto, esse período todo desses últimos séculos antes de Cristo. Não sei se consegues ajudar-nos a decifrar um bocadinho o que é que estas várias imagens que aparecem no livro de Daniel se reportam depois na história.

Se consultarmos, se folhearmos, basta folhearmos uma Bíblia que tenha notas de rodapé, como estas mais usadas em Portugal, vamos ver que depois este símbolo tal corresponde ao império babilónico, depois a outra ao império grego e depois ao domínio deste rei ou deste governador, referências a Alexandre Magno, referências a determinados personagens históricos, que de alguma forma esses acontecimentos históricos são de certa forma mitologizados ou colocados em figuras simbólicas, muitas vezes também numa espécie de escatologia iminente, ou seja, a escatologia, quer dizer, as coisas sobre o escatón, sobre as coisas últimas, portanto, o fim dos tempos a vir. Estas imagens, às vezes mais de destruição, que dão a fama a Apocalipse, aparecem muito neste tipo de linguagem simbólica que aponta muitas vezes para o fim da perseguição, que aponta para a vitória final de Deus, e é desta forma que vamos fazendo caminho nesta linguagem mais cifrada.

E são textos também que vão sinalizando a intervenção de Deus em vários momentos da história.

Sim, e neste caso até vão percorrendo desde Nabucodonosor, que referiste, que foi de facto o rei da Babilónia que conquistou Jerusalém nos inícios do século VI, depois passam reis da Pérsia, há aqui referências a Alexandre e até ao próprio Antíoco Epifânio, este tal rei de cultura helenista grega, já no século II. E portanto, há aqui também um passar histórico através desta linguagem cifrada, que retrata esse desenvolvimento.

Depois disso, no final do livro de Daniel, surgem dois capítulos adicionais, eles são exclusivos da Bíblia grega, que é a versão utilizada pelos católicos, não vão surgir, por exemplo, no texto hebraico, que é seguido pelos protestantes, o texto judaico.

Três histórias que podiam até integrar a primeira parte do livro, no limite, mas surgem de forma independente, quase como se não estivessem integradas na cronologia normal da história de Daniel. Estamos a falar das histórias de Susana, de Bel e do Dragão. João, consegue explicar-nos estas narrativas que aparecem?

Se naqueles contos da corte, naqueles primeiros seis capítulos, Daniel desmascarou a pretensão absoluta do poder, se nós podemos dizer que nas visões apocalípticas existe a procura por uma estrutura histórica de esperança, mas que ao mesmo tempo é oculta, podemos dizer que nestas narrativas nós vamos ver histórias que procuram desmascarar uma certa corrupção judicial e religiosa, podem ser histórias lidas nesse sentido. No caso de Susana e de Bel, são duas histórias interessantes. O caso de Susana, para quem não conhece, estamos a falar de uma jovem que está a banhar-se. Existem dois anciãos, também eles juízes, que desejam Susana, desejam ter relações sexuais com Susana e tentam obrigá-la a isso. Ela recusa e eles vingam-se dela acusando-a falsamente de adultério. Susana é condenada à morte, mas é o jovem Daniel que interrogando aqueles dois senhores malfeitores, de certa maneira os desmascara, castiga-os e descobre que Susana, na verdade, é inocente.

É curiosa até a forma como ele desmascara os dois anciãos.

Tinha a ver com as árvores onde eles estão.

Praticamente ele vai interrogá-los aos dois a dizer: "Debaixo de que árvore é que encontraram a Susana?"

E eles não sabem, não têm a mesma concordância. Uma árvore, outra diz: "Já não me lembro do segundo árvore, qual é que é ao certo?"

Diziam árvores diferentes.

E ele apanha os criminosos na sua mentira e percebe que Susana é a pessoa ouvida. Na verdade, esta é uma história que pode ser lida como uma crítica à corrupção judicial e à aparente legalidade que às vezes não estabelece necessariamente a verdade. O caso de Susana. A de Bel é uma história muito curiosa, porque o rei acredita que existe um ídolo, Bel, que é um deus vivo, porque todas as noites desaparecem os alimentos colocados no templo. Estamos a ver o estilo de histórias que estamos aqui a ver. São histórias um bocadinho, se calhar, diferentes daquelas que teríamos habituadas da Bíblia. São quase coisas, não te queria dizer da Disney, mas é mais próximo de The Dark Dream, um deus vivo que no meio da noite come tudo o que lhe colocam como oferta. E Daniel, que é um bocadinho mais esperto, espalha cinza pelo chão e manda selar as portas. Acontece que na manhã seguinte, nota-se que existem pegadas de pessoas e que chega-se à conclusão que na verdade aquilo é tudo uma fraude.

Descobrem que havia um alçapão por dentro do templo.

Por dentro do templo por onde as pessoas entravam e revelam-se as pegadas. A questão das portas estarem fechadas seria importante. Como é que as pessoas entram ali? Realmente há um alçapão, as pessoas entram e por estas pegadas também faz-se, de certa maneira, uma crítica e uma sátira à idolatria e às instituições que, na verdade, vivem da religião, mas também se alimentam da própria religião.

E ainda há a história do dragão.

Do dragão. Basicamente, há uma segunda tentativa. O Bel foi desmascarado, mas havia também a ideia de que, ao contrário de Bel, havia uma serpente viva, mais do que um dragão, que não era fabricada e Daniel prepara uma espécie de mistura animal, uma mistura que o animal come e que o faz rebentar e a população revolta-se e Daniel acaba por ser lançado à cova dos leões. Mas, na verdade, mais uma vez, é uma forma de desmascarar esta idolatria e estas figuras divinas que Daniel, com a sua esperteza e com alguns ardis, vai conseguindo pôr a nu.

É interessante que um leitor deste livro, na sua forma como a temos nas nossas Bíblias católicas, até achará estranho, porque este Daniel primeiro estava aqui na corte do rei, na Babilónia. Nesta história de Susana, já aparece como um jovem que está ali. De facto, temos este livro assim só desde a versão da Vulgata, ou seja, na tradução latina. Os textos da Bíblia grega separavam estes textos, ou seja, não estavam no livro de Daniel, eram livros independentes, um livro da história de Susana, outro livro da história de Bel e o Dragão. Até este tal cântico dos jovens na fornalha ardente, que o João referia há pouco, também só está nessa versão grega. E na versão hebraica, mais antiga, também não se encontra. Portanto, há aqui um caráter compósito diferenciado do livro de Daniel, que também mostra em conjunto com o caráter linguístico. É interessante que Daniel é um dos poucos livros do Antigo Testamento que está escrito parcialmente em hebraico, parcialmente em grego também, como estes que eu referi, que estão só em grego, mas uma grande parte do livro em aramaico, que é a língua que já seria a língua franca pelo século II, a língua que, como sabemos, era a língua mais utilizada em Israel ao tempo de Jesus. E, portanto, aí também é mais um caráter diferenciado

Deste livro. Estavas a mencionar como o livro acaba por ser uma colecção de muitos textos diferentes e não surge da mesma forma em todas as edições da Bíblia. Por exemplo, uma Bíblia que seja uma edição típica protestante acaba com o 12º capítulo e não com estes 13 capítulos.

Sim, porque os protestantes em geral seguem o cânone hebraico e portanto colocam este livro como um dos escritos e colocam só com o texto hebraico e aramaico, e não com estes acrescentos gregos.

Pela mesma razão, por exemplo, quando falámos do livro de Ester, também metade do livro não surge. Mas esse 12º capítulo é ainda dentro daqueles textos apocalípticos, e acaba com uma certa introduzir a ideia da ressurreição, por exemplo. De certa maneira, olhando para este livro, que importância é que depois estes textos do livro de Daniel têm no contexto do Antigo Testamento e dos livros proféticos?

Neste caso, de forma mais clara, esta ideia de uma ressurreição futura, que é algo que já damos por talvez descontado a partir de uma perspectiva cristã, mas é algo que está muito ausente no grosso, na maior parte do Antigo Testamento. Esta ideia que haverá uma ressurreição em que os mortos voltarão à vida, em que os bons serão recompensados e os maus castigados, portanto, uma vida futura, é algo que vai ganhando espaço paulatinamente e só nesta parte final do Antigo Testamento.

Muito bem. João, o Daniel estava a tocar aqui neste ponto da ressurreição futura, que eco é que este texto do profeta Daniel depois virá a ter, por exemplo, no Novo Testamento, no desenvolvimento do cristianismo? Talvez seja um profeta menos conhecido do que Isaías ou Jeremias, por exemplo, talvez seja muito menos citado nos textos cristãos do que estes dois profetas, mas que eco é que esta figura, este profeta, depois vai ter no cristianismo?

O grande eco, creio mesmo que hoje em dia, até liturgicamente, a mesma questão do cântico destes três servos que resistem na fornalha ardente, que o cântico, de certa maneira, o que faz é uma descrição e uma enumeração da criação e a todos os elementos vai dizendo: "Bem dizei o Senhor". É um cântico até muito repetitivo, com um certo refrão repetitivo. Mas a figura do Daniel, que sobrevive a estas duas idas para as covas dos leões, quando estamos a falar da parte grega, esta segunda ida, é também a imagem de Jesus Cristo, que sobrevive, de certa maneira, e dos próprios apóstolos, que sobrevivem aqui às primeiras prisões diante uma autoridade romana injusta.

Por exemplo, esta ideia de ressurreição, que é introduzida aqui também pelos textos.

Sim, e também esta ideia do Filho do Homem, que é uma expressão que ouvimos muito no Novo Testamento, esta ideia desta visão, deste ser que aparece como um Filho de Homem. A expressão em si, Filho do Homem, pode querer dizer simplesmente um homem, um ser humano, mas aqui tem uma conotação messiânica, que depois também se liga a esta expectativa messiânica, à construção da figura do Messias, e isso tem uma importância grande no Novo Testamento.

Mas é uma figura que depois vai ter eco.

Se nós pensarmos que no primeiro cristianismo muitas pessoas acabavam por ser perseguidas e presas, o ato dos apóstolos aparece muitas vezes, o próprio Paulo, esta ideia de alguém que é preso e por fidelidade acaba por nem sempre se safar, porque Pedro e Paulo terminaram como terminaram, mas há aqui também uma ideia de resistência que inspira os próprios primeiros cristãos e os primeiros mártires. A viver, aliás, creio que é Santo Inácio de Antioquia, que é um dos primeiros mártires, que numa das suas cartas recorda esta imagem de Daniel como a imagem de alguém que, diante da cova dos leões, não tem medo, tal como ele não tem medo de ser torturado e ser aprisionado pelo Império Romano.

Muito bem, fica por aqui o quarto episódio desta terceira temporada de "As Histórias da Bíblia". Estivemos a conhecer o profeta Daniel, o protagonista do livro de Daniel, um livro muito próprio e composto por textos muito diferentes. No próximo episódio, mantemo-nos mais ou menos nesta época histórica e vamos conhecer uma novela histórica que surge na Bíblia católica, mas não na Bíblia protestante. É também aqui uma importante diferença entre edições diferentes da Bíblia. Estamos a falar da história da heroína Judite, que destruiu um exército. Nós continuamos a receber perguntas, comentários, sugestões no e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt, para podermos responder às perguntas dos nossos ouvintes nos episódios especiais do podcast às quintas-feiras. Nós voltamos na próxima semana. Até lá. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Fulton.

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