'Recuperei algo que havia perdido', diz sobrevivente do Holocausto que fez bar mitzvah aos 91; leia relato
Sobrevivente do Holocausto, Stefan Lippmann celebrou aos 91 anos o bar mitzvah, rito que marca a maioridade religiosa dos meninos judeus, geralmente aos 13. Radicado no Brasil, ele realizou a cerimônia com quase oito décadas de atraso, resgatando na velhice uma tradição interrompida pelas atrocidades do regime nazista.
Lippmann nasceu em 1935, na Alemanha. Em novembro de 1938, quando tinha três anos, sua família decidiu deixar o país após a Noite dos Cristais, episódio criminoso em que judeus foram assassinados e sinagogas e estabelecimentos comerciais da comunidade foram incendiados e vandalizados.
Na Bélgica, teve de adotar um nome falso e se refugiar em um convento católico. Chegou a cogitar a conversão ao catolicismo, mas o padre local o aconselhou a esperar antes de tomar uma decisão. "O fato é que precisei me esconder porque era judeu. Só que eu não tinha a menor ideia do que significava ser judeu", afirmou em entrevista à Folha, em seu apartamento.
Lippmann chegou ao Brasil aos 11 anos, depois de ser expulso da Bélgica. No país sul-americano, disse ter sido impedido de celebrar o bar mitzvah porque não havia conseguido aprender hebraico.
A cerimônia, enfim, ocorreu há poucos dias, em 15 de outubro, no Memorial do Holocausto, em São Paulo. "Acho que, de certa forma, recuperei algo que havia perdido. Foi uma reconexão com as minhas raízes."
Vítima da intolerância no passado, Lippmann vê com preocupação o avanço da extrema direita na atualidade. Na Alemanha, o partido AfD (Alternativa para a Alemanha), que abriga integrantes investigados por neonazismo, conquistou vitórias em eleições regionais. Leia, a seguir, o relato de Lippmann.
Nasci em Plauen, uma pequena cidade da Alemanha. Em novembro de 1938, quando eu tinha três anos, lembro que pessoas entraram em casa e quebraram tudo. Não eram militares, mas civis. Simplesmente invadiram, começaram a destruir as coisas e, depois, foram embora.
Anos mais tarde, o [escritor e cineasta] Marcio Pitliuk identificou aquele episódio como parte da Noite dos Cristais. O fato é que precisei me esconder porque era judeu. Só que eu não tinha a menor ideia do que significava ser judeu. Só fui entender isso depois de chegar ao Brasil, com 11 anos.
Depois da Noite dos Cristais, minha mãe disse: "Vamos embora [da Alemanha]". Ela me pegou e foi embora comigo. Meu pai disse que precisava arrumar algumas coisas porque não queria sair sem nada e ficou para resolver questões relacionadas à fábrica de cortinas da família. Foi traumatizante.
Minha mãe e eu chegamos à Bélgica. Na Alemanha, éramos uma família de classe média alta, mas ela precisou trabalhar como empregada doméstica em Bruxelas. A família que a contratou sabia que ela era judia e a ajudou a se esconder.
Precisei usar uma identidade falsa porque meu nome verdadeiro era muito associado aos judeus. Na Bélgica, passei a me chamar Etiene Campenhout.
Minha mãe me mandou para um convento católico. Chegou um momento em que quis até me converter ao catolicismo, mas o padre com quem conversei disse: "Espere até ficar mais velho para decidir". Achei aquele padre um sábio.
Minha mãe vinha me visitar uma vez por semana. Ela me trazia um ovo e uma colher de manteiga, que eu tinha de engolir na frente dela, para que não os confiscassem.
Lá Fora
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A comida era escassa, e emagreci bastante durante a guerra. O alimento básico era aveia. De manhã, tínhamos papinha de aveia; no almoço, sobremesa de aveia; à noite, sopa de aveia. Até hoje, não consigo mais ver aveia na minha frente.
Depois da guerra, fomos expulsos da Bélgica porque não tínhamos uma situação regularizada no país. Decidimos, então, vir para o Brasil.
Viajamos no porão de um navio cargueiro, onde havia centenas de beliches. O navio balançava um bocado, e todo mundo ficou enjoado. Eu estava na cama de cima, e minha mãe, na de baixo. Então, para vomitar, eu tinha que gritar para a minha mãe: "Tira a cabeça!". No fim da viagem, a água acabou, e tivemos de beber vinho. Não gostei, até porque eu tinha apenas 11 anos.
Fomos recebidos em Santos pelo meu avô e pelo meu tio, irmão da minha mãe. Ela queria ir para os Estados Unidos, mas não conseguiu porque havia cotas de imigração, assim como hoje.
No Brasil, também tivemos dificuldades. Chegamos praticamente sem nada. Havíamos perdido tudo, e a comunidade judaica nos ajudou. Recebemos ajuda médica e roupas porque nem minha mãe nem eu tínhamos condições de comprá-las.
Aos 12 anos, comecei a ter contato com o judaísmo. Minha mãe me matriculou em um curso na Congregação Israelita, mas o professor achou que eu era incapaz de fazer o bar mitzvah e desistiu de mim. Como havia morado em um convento na Bélgica, eu não consegui aprender hebraico o suficiente para fazer a cerimônia na idade tradicional. Quando cheguei ao Brasil, falava apenas francês.
Minha mãe ficou triste com a recusa do professor. Ela havia trazido presentes [para serem entregues após a cerimônia], mas acabou não me dando.
Recentemente, a senhora Sarita [Mucinic Sarue, coordenadora do Memorial do Holocausto] conseguiu me convencer a fazer a cerimônia do bar mitzvah. Acho que, de certa forma, recuperei algo que havia perdido. Foi como se tivesse perdido um objeto de estimação e recuperado depois.
Foi uma reconexão com as minhas raízes e uma forma de resgatar as tradições da minha família. Sei que a minha mãe teria ficado feliz. Eu não consigo exprimir isso em palavras.
O meu pai acabou preso e pensei que tivesse sido assassinado na França. Anos depois, eu visitei o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, como turista. Fiquei impressionado, mas não tinha a menor ideia de que o meu pai havia morrido lá. Só descobri isso muito depois.
Os alemães eram muito meticulosos com os registros. Anotaram tudo e enviaram essas informações ao Yad Vashem [museu do Holocausto em Jerusalém]. Pela internet, consegui obter do Yad Vashem toda a história do meu pai.
No Brasil, cheguei como apátrida, mas consegui obter meus documentos. Apresentei uma certidão de nascimento emitida na Alemanha, o governo brasileiro aceitou o documento e me registrou como alemão.
Também fiz vestibular e consegui entrar na Poli [Escola Politécnica da Universidade de São Paulo]. Depois de me formar, pedi a naturalização brasileira. O processo levou anos até ser concluído.
Um dia, fui renovar o passaporte europeu, e o funcionário do consulado disse: "O senhor não é mais alemão, é brasileiro". Eles não aceitavam a dupla cidadania. O funcionário pegou uma tesoura e cortou meu passaporte em dois pedaços.
Hoje eu me identifico como brasileiro. Aprendi que ser brasileiro também é amar o país, os seus cidadãos. Nós fomos muito bem recebidos aqui.
Durante a minha carreira, trabalhei em uma empresa alemã. Meu chefe havia vindo da Alemanha e demonstrava muito ressentimento em relação ao período nazista. Eu disse que, naquela época, ele ainda era criança e não tinha responsabilidade pelo que havia acontecido durante a guerra. Continuo pensando assim: os habitantes da Alemanha de hoje não são responsáveis pelo nazismo.
Apesar disso, o partido neonazista está começando a ressurgir. Em Berlim, há placas de bronze embutidas nas calçadas em memória das vítimas do nazismo —uma delas registra a história do meu pai. Essas placas são uma forma de preservar a memória das vítimas. Mas, em uma pequena cidade alemã onde os neonazistas venceram as eleições, mandaram retirar todas elas. Isso preocupa.
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