Mudam os tempos, mudam os ladrões: agora roubam baterias

Indivíduos a operar na calada da noite, por vezes a solo, e munidos apenas de uma rebarbadora com o fito único de surripiar catalisadores, para depois os venderem no mercado negro, onde a platina, o paládio e o ródio chegaram a ter valores por grama superiores ao do ouro, foram ultrapassados na sua arte — a actividade criminosa. Agora o alvo dos roubos mudou, o método também e nem os ladrões são mais os mesmos: o crime de grande escala aponta agora aos componentes eléctricos dos automóveis modernos e a operação visa sobretudo atingir a cadeia logística dos construtores, com redes organizadas a interceptarem o transporte dos fornecedores. É o crime a reinventar-se para acompanhar a evolução da tecnologia.
Prova disso foi o recente assalto, orçado em meio milhão de euros, que vitimou a Stellantis. O caso veio agora a público, mas aconteceu em finais de Outubro, nas imediações da fábrica do grupo franco-italo-americano em Hordain, França, sendo que o roubo envolveu um lote de componentes de baterias destinados a veículos híbridos da Stellantis. O reboque de um fornecedor que iria abastecer a fábrica, carregado de células e módulos para baterias, foi pura e simplesmente desviado, conforme relata o Club Alfa. De acordo com a agência internacional de notícias AFP, foi apresentada queixa e as autoridades francesas rapidamente se puseram em campo, a investigar o ocorrido, com a certeza de que se terá tratado de um golpe cirúrgico, planeado e executado com a precisão e a rapidez que só uma rede profissional e organizada teria estofo para levar a cabo.
Seja lá quem for, acredita-se que os assaltantes sabiam exactamente o que queriam e não eram ferramentas nem peças sobressalentes, como dantes acontecia nos furtos a fábricas. Era, sim, um produto mais valioso, pois a escassez de matérias-primas e o aumento da procura de baterias para substituição têm vindo a alimentar o crescimento de um mercado paralelo. E, no caso da Stellantis, a AFP estima que o prejuízo rondou os 500.000€. Ou seja, roubar baterias rende muito mais que o “tradicional” furto de catalisadores, daí que este episódio esteja longe de ser um caso isolado.
Tesla tem sido a mais fustigada
Se, no Velho Continente, furtos deste tipo ainda são uma novidade, a realidade é que, do outro lado do Atlântico, a vaga de roubos de baterias despontou mais cedo e com maior intensidade, tendo como alvo preferencial a norte-americana Tesla, ou não fosse a empresa liderada por Elon Musk uma espécie de “mina” de baterias, já que aos acumuladores destinados aos modelos eléctricos da marca é preciso ainda somar as powerwalls, unidades de armazenamento de energia de alta capacidade.
Segundo uma investigação da Wired, revelada no final de Junho, a Tesla terá sido vítima de pelo menos 11 furtos de carga, com os camiões que a transportavam a serem roubados nas próprias docas de carga da Gigafactory do Nevada. Numa fase inicial, percebeu-se que o crime encontrava uma janela de oportunidade em falhas nos protocolos de segurança, mas mesmo depois de reforçados os procedimentos de controlo das empresas transportadoras e a confirmação da identidade dos respectivos motoristas, continuaram a “desaparecer” atrelados carregadinhos de baterias. Um dos episódios que mais alertou as autoridades foi o roubo de dois reboques contendo dezenas de unidades Powerwall, com a carga de cada um avaliada em mais de 475 mil dólares. O sistema de GPS e os rastreadores policiais têm vindo a permitir recuperar a mercadoria roubada, mas nem sempre há um desfecho feliz. Tanto que a própria Tesla, a braços com um buraco financeiro na ordem dos milhões de dólares por causa destes “desvios”, já terá informado as autoridades que encontrou as suas Powerwalls à venda online.
Numa altura em que o padrão de roubos que afectam a indústria automóvel parece estar a mudar, tornando-se mais estratégico e dirigido sobretudo a componentes eléctricos e electrónicos, um estudo norte-americano efectuado por investigadores do sector dos transportes concluiu que os roubos de cargas nos EUA praticamente dobraram entre 2022 e 2024, custando às empresas cerca de 18 milhões de dólares por dia.
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