Daily MaverickBUSINESS REFLECTION: Crossed Wires: Farewell Nobel prizes — is AI disrupting scientific discovery and ownership?ESPNManning delivers in 4th as Texas stuns Ohio State in 20-point comebackESPN Deportes"Voy a necesitarlos": Ben Shelton hizo un serio pedido antes de enfrentar a Zverev en la final del US Open 2026וואלהילדה בת שבע נפצעה בינוני לאחר שנפלה מאופניים במושב בצתRTP DesportoCity vence dérbi de Manchester na casa do UnitedThe Jerusalem PostKushner calls Israel’s Doha strike ‘terrible,’ says US used fallout to push Gaza dealRFI 中文法国民粹化趋势加剧?总统选举民调:极右翼勒庞遥遥领先,极左翼梅朗雄紧随其后7sur7Ben Shelton ou Alexander Zverev, qui sera le nouveau roi de New York?MyJoyOnlineTraditional artists will become more expensive because of AI – Aewura ArtsSportstarIND-W vs SL-W Women’s Asia Cup final brings ACC chief Mohsin Naqvi back in spotlightGuardian SportFiba Women’s Basketball World Cup final: USA v France – liveBusiness AMChinese J-20-piloten hebben veel meer vlieguren dan hun Amerikaanse en Russische collega’s
The Daily Newsstand · Free, Always
Sunday, September 13, 2026

A crise da escola

Translate

Menos curiosos, mais desistentes, mais superficiais, menos tolerantes ao esforço, com os pais a esperar menos da escola e com 1 em cada 5 deles a achar que ela não vale a pena. Com mais experiências de bullying e com falta de professores. Com maiores clivagens entre os alunos sem recursos e os outros, e com diferenças de rendimento geográficas enormes. Estas são algumas das características que os alunos portugueses com 15 anos mais evidenciam no Programme for International Student Assessment (PISA) da OCDE, agora divulgado. Que nos diz que, nos últimos dez anos, os alunos portugueses perderam o equivalente a mais de um ano de escolaridade nas suas competências escolares. Levado ao absurdo, equivale a que todos eles tenham tido mais de um ano de faltas injustificadas sem que ninguém desse conta. Em termos globais, os dados do PISA advertem-nos para um recuo de 20 anos nas competências dos alunos portugueses, tendo pelo menos 1 em cada 4 desempenhos abaixo do indispensável para participarem numa vida em sociedade, considerando os seus conhecimentos em ciências, matemática e na leitura.

Se, ao dia de hoje, estes resultados nos assustam, e se isso não nos deixa de dar conta que fomos ligeiros nos custos da pandemia sobre todas as crianças, a escola não começou a adoecer a partir daí. Vejam-se os dados da mesma OCDE sobre a leitura e o cálculo de portugueses escolarizados com mais de 30 anos quando, há um ano, alertou para que quase metade deles revelava um dos dois níveis mais baixos em proficiência em leitura avaliados, apenas conseguindo ler textos breves com informação mínima e vocabulário familiar; e que 40% apresentavam dificuldades no cálculo abaixo ou ao nível mais básico das pessoas avaliadas.

Como pode a escolaridade obrigatória garantir o conhecimento e a educação, robustecer a inteligência humana e promover a democracia, a liberdade e a política se os alicerces das aprendizagens básicas se vão manifestando tão inacreditavelmente deficitários? Será que a substituição das metas curriculares por aprendizagens essenciais poderá ter ajudado para tamanho declínio? Ou que o abandono, a partir de 2016, de currículos mais exigentes, dos exames de final de ciclo no 4.º e no 6.º anos e do apoio cognitivo aos alunos com mais dificuldades, podem ter contribuído para estes resultados? Seja como for, mais tempo de ecrã e mais IA contribuíram nos diversos países avaliados para piores resultados.

Estará a escola a cumprir a sua obrigação? Serão a memória e a atenção o problema maior dos alunos ou os planos curriculares ou, também, a forma como a escola continua a imaginar que eles aprendem “mecanicamente”, unicamente por repetição e da parte para o todo, como se fossem crianças do século XIX estarão a confluir para isto? Serão o volume de trabalho que lhes exigimos, a pressão que lhes colocamos e a infância que lhes roubamos sido estranhos a isto tudo? Será que o sedentarismo das crianças e a forma como vamos excluindo o corpo das suas aprendizagens contribuem para os maus resultados? Será que os “novos pais” – que têm dificuldades em definir regras, autonomia, capacidade de estar só, e de educar as crianças para a paciência, para a humildade e para as manifestações de frustração – não “ajudam”, muito mais do que desejariam, para que tudo seja assim? E o facto de termos crianças cada vez mais audiovisuais que verbais e hipotético-dedutivas, não “inquina” as aprendizagens tal como lhas oferecemos?

Os conteúdos e a forma como as ensinamos, o modo como se espera que as crianças reproduzam conhecimentos (como se só isso fosse aprender), a educação com que chegam das famílias, a forma como o audiovisual e a IA enviesaram a sua forma de aprender e as têm vindo a tornar muito menos inteligentes, serão esses os eixos do desencontro das crianças com o conhecimento. Se associarmos a isso a doença da escola pública, a forma demagógica como as avaliamos, a escassez de professores e a sua formação, e todas as pressões que colocamos sobre elas é fácil perceber o estado a que isto chegou. O que mais inquieta nos resultados do PISA não é tanto a forma como a escola parece não estar a funcionar; mas o modo como esta geração parece ter deixado de aprender com ela e de lhe ir reconhecer mais-valias. A transformação da experiência em palavra é a primeira operação matemática da natureza humana. E a palavra é o tijolo com que se constrói todo o conhecimento. (E, já agora, a saúde mental.) Uma geração que, com a nossa complacência, foi transformando gerações e gerações de palavra numa geração, sobretudo, audiovisual e digital, talvez não possa esperar que a escola cumpra, hoje, da mesma forma, a sua missão de trazer as crianças ao conhecimento. Porque é querê-la a ser aquilo que já não consegue cumprir. Se não pensarmos como pensam as crianças hoje, e se não nos perguntarmos o que queremos delas, estamos a perder a escola. E, por mais mudanças razoavelmente superficiais que se tragam, corremos o risco de ficar todos a perder.

A escola é preciosa e insubstituível. Mas tarda a perceber que a forma como as crianças do século XXI pensam, conhecem e falam é diferente daquilo que a escola sempre imaginou. E precisa de perceber que a memória não é uma função “solta” mas o resultado da ligação entre imaginação, perspetiva e processos associativos. E que aos bons resultados nunca se chega sem o erro e o insucesso. E que a avaliação não é um reforço positivo mas um exercício que só quando se usa com verdade ajuda a crescer. E que os resultados escolares e as aprendizagens essenciais precisam de ter tudo a ver uns com os outros.

Se quem o aprende nunca esquece, quem esqueceu ou, hoje, não sabe nunca aprendeu. Será esta a escola que temos para oferecer aos nossos filhos. Mas não representará esta escola uma crise bem mais grave que todas as crises que eles parecem ter à sua espera?

View the original on Observador Desporto

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.