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Sunday, October 25, 2026

Kukas. A geometria de um legado com 60 anos

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Muito próxima de nomes como José Escada e Nikias Skapinakis, de Vera Lagoa e Almada Negreiros, bebeu de um contexto artístico com fértil interseção de disciplinas. “A tia Kukas tinha uma forma de ser e de estar muito acolhedora, e nesta fase final tinha um sem-número de histórias para contar, portanto, não havia vez que estivéssemos juntas em que não houvesse um relembrar de pessoas. Depois, cresceu profissionalmente no ambiente cultural, riquíssimo da época dos anos 60, 70, em Lisboa, que eu acho que foram super inspiradores para a obra que criou.”

Em inúmeros projetos dessa fase se distinguem intervenções mais amplas em projetos como arquitetura e interiores, pintura e escultura, cujas linhas inspiraram em larga medida as joias de Kukas, avessa a barroquismos supérfluos. “É tudo muito geométrico e as formas são um bocadinho fora de escala, sobretudo para a época era um rasgo. Teve uma inspiração escandinava muito grande durante a sua fase em Paris.” Dessa aplicação aos interiores, a arquiteta descreve algumas intervenções mais pessoais e vestígios que merecem uma reconstituição histórica, exemplos de experiências que a introduzem numa reflexão mais profunda sobre o design nacional, partilhada com António Garcia e Daciano da Costa, entre outros nomes marcantes desta área criativa em Portugal.

Nos anos 60, Kukas liderou o projeto de interiores da casa que os avós de Filipa construíram em Sesimbra, com o seu dedo de alto a baixo, incluindo a chapa da lareira, a escolha do mobiliário que a família ainda conserva, ou uma parede de azulejos, que recheavam os trabalhos conduzidos por Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Mas não só. “Sei que fez a discoteca da Praia da Rocha, nunca vi fotos mas estou à caça delas. Foi uma das sobrinhas que me falou neste projeto, e o Anísio Franco descreveu-me todo um imaginário com estalactites e estalagmites em cristais de rocha, depois acho que tinha umas correntes.”

Também na Câmara Municipal de Lisboa, a quem vendeu vários objetos, é possível ver “bastantes peças” de Kukas. “Eu acho que os anos 70, 80, foram assim, os anos gloriosos. “Em 75, a convite dos arquitetos Diogo Pimentel e Teotónio Pereira, do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, grupo católico modernista, desenhou um conjunto de objetos de arte sacra, de anéis para bispos a castiçais.

Escala e futuro

Num acesso raro, Filipa Fortunato permite-nos ver de perto a última grande coleção assinada por Kukas, criada para a exposição no MNAC em 2023, que cumpria um sonho da joalheira, que via inaugurar a mostra no dia do seu 95.º aniversário. Trata-se de 30 peças criadas nesse mesmo ano, em curto espaço de tempo, uma montra de colares e pendentes, botões de punho e pulseiras, brincos e pregadeiras, a partir de materiais como ouro, prata, pérolas barrocas, um espinho de ouriço, conchas, cristal de rocha, lápis-lazúli e madrepérola. Filipa retira-as com delicadeza de uma caixa e dispõe-as uma a uma sobre a mesa de trabalho.

Depois, deixa-se fotografar no sofá azul dos irmãos Campani, com imagem de Kenton Thatcher em fundo. O retrato que o britânico fixado em Lisboa há mais de 30 anos fez de Kukas é um dos preto e branco mais emblemáticos da joalheira. “Fomos ao estúdio fazer um shooting enquanto estava a ser penteada e maquilhada, o Kenton tirou esta foto, tem zero produção. Esteve exposta nas Belas Artes e para onde vamos vem sempre connosco.”

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