CNN TürkThomas Reis: Tüm odağımız pazartesi günkü maçtaInquirerINQUIRER at 29: Adapting as Filipinos’ news habits changePunchDon urges graduates to shun corruption, uphold integrityThe Jerusalem PostWith two days until election: Eisenkot leads over Netanyahu, but neither can reach majority - poll한겨레3억 투입해 ‘55만원’ 지급한 제주 기후보험…“폭염시 작업중지 의무화해야”Sky TG24Venezia Sounds 2026, musica e ricerca non sono mai state così forti, insiemeZDF heuteAktuelle Pressemitteilungen des ZDFThe IndependentStorm Boelo latest: Hundreds of flights cancelled as 80mph winds batter UK and ‘danger to life’ warnings issuedIl Fatto QuotidianoMonica Guerritore piange a “Ballando con le stelle”: l’attrice fa il pieno dei voti in giuria e il marito Roberto Zaccaria le fa la standing ovationMintRIP Chef Damu: From dishwasher to respected name of culinary world - Top facts about Cooku with Comali judge DamordaranSRF NewsMutmasslicher Täter gefasst – Hitlers «Teehaus» erneut in FlammenHet Laatste Nieuws“Dat etiket van ‘klootzakje’? Ik zie mezelf totaal niet zo”: op café met Daan Heymans, weer basisspeler bij Genk
The Daily Newsstand · Free, Always
Sunday, October 25, 2026

"A sociedade ainda não sabe lidar com um bebé que nunca viu"

Translate

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Eu acho que as pessoas têm muita dificuldade em perceber como é que lidam com pais que perderam um bebé que nunca cá esteve. E as pessoas não sabem lidar com isso. As pessoas que nunca passaram por isso não sabem lidar com isso. E depois há umas que acham que é melhor não falar no assunto, porque há um tabu gigante à volta deste tema. E uma coisa que eu aprendi com todos os pais e com todas as experiências que eu troquei com pessoas que passaram pelo mesmo, é: falem. Os pais gostam, os pais adoram relembrar. É muito especial poder relembrar um filho que nunca cá esteve, porque é a forma de eles dizerem: "Não, ele esteve cá." É a forma de eles validarem a sua existência. É uma coisa que te muda completamente, é uma coisa que te transforma para a vida. É um vazio enorme, é uma brutalidade no sentido em que tu preparas uma casa para receber um bebé e no dia a seguir chegas a casa e tens de lidar com uma casa preparada para receber um bebé, as pessoas na rua a perguntarem-te ou com uma atitude estranha. Porque não sabem: "Mas ela estava grávida, não estava grávida. Agora não me parece ter nenhuma barriga. Mas também não estou a ver bebé nenhum."

Cresceu numa família em que a cultura era língua materna e onde para se fazer ouvir entre tantos, era preciso ter ritmo, presença e graça. O público habituou-se a vê-la como a mulher da gargalhada fácil, a observadora cirúrgica que transforma o cotidiano em comédia e a atriz que domina com a mesma maestria o palco do teatro e o ecrã da televisão. Para quem a vê de fora, é um furacão de espontaneidade e talento, mas quem a observa mais de perto, e vamos confirmar isso neste "Em 40 Minutos", adivinha-lhe também algumas arestas da sua personalidade. Uma teimosia convicta, uma autocrítica por vezes impiedosa e uma impulsividade transparente de quem recusa pensar muito antes de dizer o que sente. Foi precisamente essa incapacidade de fingir que a fez transformar uma das suas maiores dores, a perda de uma filha, num ato de coragem pública que desmantelou tabus e deu colo a milhares de pessoas. Entre a imagem da pessoa solar que é e a realidade de uma mulher de uma vulnerabilidade desarmante, quem é realmente Matilde Breiner? É o que vamos conhecer neste "Em 40 Minutos". Matilde, seja muito bem-vinda aqui à Rádio Observador.

Obrigada.

E já estás com um sorriso de orelha a orelha. E é isso que também nos conquista. Para quem te vê, acho que a primeira imagem do teu cartão de cidadão, eu ia dizer de identidade, mas já é uma coisa muito antiga, é esse sorriso e o facto de seres uma pessoa muito solar.

Acho que sim. Não sei se é isso que me caracteriza em casa, por exemplo, não sei se o meu marido diria o mesmo.

Tenho de ir falar com o Tiago.

Exato. Mas eu não sei ser de outra forma também. Eu acho que sou muito transparente, impulsiva, como disseste aqui nesta introdução. Contudo, algumas coisas já mudaram por causa da maternidade. Já não digo as coisas da boca para fora. Hoje em dia, acho que já penso duas vezes antes de falar.

É uma transformação, não é?

É uma transformação louca, é a coisa mais forte e, desculpa a redundância do que acabaste de dizer, mas mais transformadora que pode acontecer a uma mulher.

Nós já vamos detalhar esse processo, mas na introdução falava aqui da tua incapacidade de fingir, ou seja, essa espontaneidade que tu tens muito. Olhando para trás, para a tua vida, plano pessoal, profissional, nestes últimos anos, o que é que tu, Matilde Breiner, já não aceitas negociar de todo? Uma coisa que para ti não seja assunto, ou seja, tu já não aceitas de uma certa forma e para ti é algo inquestionável.

Em relação ao trabalho ou em relação à vida?

À vida, no seu todo.

Olha, fazer fretes. Se a minha cabeça ou meu coração dizem que não, eu não vou. Já não finjo, já não saio de casa por uma coisa só porque tenho que ir agradar o outro ou porque tenho receio que as pessoas fiquem chateadas comigo. Não faço. Já não faço. O trabalho é a mesma coisa, só gosto de trabalhar com pessoas que me fazem feliz e que eu sei que vai ser divertido e que eu vou estar a gastar bem o meu tempo e a investir o meu tempo. Se calhar, antigamente, era muito mais people pleaser, de agradar a toda a gente. Hoje em dia já não sou.

E como é que se-

O meu tempo vale ouro

Como é que se desconstrói essa faceta de people pleaser? Porque possivelmente, e tendo tu o trabalho que tens enquanto atriz, já trabalhaste com pessoas que não gostaste, possivelmente, já aconteceu.

Já trabalhei com pessoas que não gostei, já trabalhei em projetos que ao fim do dia pensava: "O que eu estou aqui a fazer?" O ambiente. Já fiz coisas fora da minha área Que eu também percebi: não é nada por aqui, só porque não está a resultar na minha área, não quer dizer que eu tenha de estar a fazer uma coisa que me faça infeliz. A minha mãe, quando me via triste, porque eu não estava a conseguir trabalho como atriz, dizia-me: "Mas desiste, tenta outra coisa. Tu tens gostado de outra coisa." E como o Joaquim Monchique diz: eu todos os dias acordo a pensar: eu adoraria, por que eu não sou apaixonada pela advocacia, por exemplo? Porque esta profissão pode te dar as maiores alegrias do mundo, mas também te pode dar as maiores tristezas do mundo. Quando não consegues, quando não chegas lá, quando não aceitas fazer parte do lobby. Mas desistir nunca foi uma opção. Aliás, quando as pessoas me dizem: "Desiste", como a minha mãe me dizia, eu pensava: "Não, eu agora vou provar à minha mãe que isto vai dar certo." Lá está, teimosia. E acho que consegui.

Falaste aí das maiores alegrias e tristezas. Consegues nomear cada uma delas?

Sim, tantas. Tantas alegrias e tantas tristezas.

No plano da tristeza.

Sei lá, castings que eu perdi, mas que depois eu consegui perceber que: ok, isto está certo. A primeira de todas acho que foi uma peça que eu fiz com o Joaquim Monchique, que se chama "Mais Respeito Sua Mãe", que esteve muitos anos em cena. E eu digo às pessoas que fiz aquela peça. "Ah, fizeste? Mas não me lembro de te ver lá." E eu: "Pois não, porque eu fiz de árvore." Eu conto sempre esta história. Eu fui fazer o casting, a audição, e correu muito bem. Houve poucas audições até agora que eu soube que eu tinha a certeza que eu ia conseguir. Alguma coisa que fosse, mas eu ia conseguir. Houve poucas.

Ou seja, tens esse instinto muito apurado nesse sentido.

Tenho. Tal como houve outras que fiz e pensei: "Para que eu estou a fazer isto? Para que eu estou a perder o meu tempo?" Lá está, hoje em dia eu sei dizer: não, eu não vou fazer essa audição porque eu não vou ficar. E eu sei perfeitamente porque eu não vou ficar. Portanto, não faço. Mas nesta eu fiz, eu preparei-me, eu sabia o texto na ponta da língua, eu tinha a personagem dentro de mim e fui com confiança e cheguei àquele palco, que ainda por cima foi feito mesmo à antiga, como as coisas eram feitas. Hoje em dia é tudo self tape, para teatro. E era em cima de um palco no Casino Estoril e eu cheguei àquele palco, eu fui vestida como a personagem, eu tirei o meu casaco, fiz aquilo tudo e o Joaquim adorou. Mas depois ligaram-me a dizer que eu não tinha ficado. E aí foi muito difícil, porque eu percebi na altura que ele tinha gostado, aliás, ele disse-me. Eu saí de lá com alguma esperança, pelo menos contente com aquilo que eu tinha feito, mas depois ligaram-me a dizer que eu não tinha ficado. A justificação que me deram, e eu escolhi acreditar nisso, era porque eu era muito alta para fazer de filha do Monchique no palco, ficava mais ou menos da altura dele, tinha de ser uma atriz mais pequenina e depois tenho este bom ar que Deus me deu e a família era da Baixa da Banheira. E já ouvi tanto isto em tanta audição, mas é o que é. Não é o que eu acredito, mas pronto, eu acho que os atores se transformam. Mas tudo bem, não vou entrar por aí.

São outras questões.

São outras questões e eu aceitei. E eu fiquei muito frustrada. Chorei, fiquei frustrada, parti o telemóvel. Na altura, eu era essa pessoa, atirei-o contra a parede. Oh, meu Deus!

A impulsividade.

Oh, meu Deus! Eu era nova.

Estamos aqui a descobrir gatilhos.

Sim, mas eu era nova. Em minha defesa, eu tinha 20 anos. Ainda estava a aprender a lidar com as emoções. E depois, mais tarde, ligaram-me a dizer: "Olha, não ficaste, mas o Joaquim adorava trabalhar contigo. Precisamos de uma pessoa que ajude a vestir o Monchique, a trocar de roupa no backstage. E depois precisamos de umas pessoas que entrem como árvore." E eu ok, eu aceitei. Resultado, o Joaquim arranjou mais uma personagem ali no meio que entrava três segundos para mim. Ok, foi ótimo, consegui entrar não como árvore, mas como personagem, também. E depois ajudei o Joaquim a vestir e despir lá atrás e fiquei com um amigo até hoje.

Exato. Eu acredito muito que isso tenha sido até um ato de generosidade.

Sim.

Ele saber que tu querias tanto e mesmo assim não tendo.

Eu acho que foi, foi por isso também que eu aceitei.

Porque tu ias estar a aprender, no fundo. Tu ias estar ali, ias estar a ver tudo, não ias estar, se calhar, no papel de maior destaque.

Exatamente.

Mas só estar ali naquele momento.

Exatamente. E ia estar a trabalhar no meio, que é coisa que eu aprendi desde cedo: não interessa se ainda não estás a fazer aquilo que queres, mas ao menos estás lá.

Estás no processo.

E conheces as pessoas certas. E a verdade é que eu fui muito abençoada pelas pessoas que me deram a mão durante os meus primeiros tempos como atriz.

E Joaquim Monchique é uma delas.

E Joaquim Monchique é com certeza uma delas.

E a maior alegria? Já falamos aqui da tristeza, dos castings e do telemóvel partido.

Sim, olha, a maior alegria, curiosamente, vem também de uma colega do Joaquim Monchique, a Dana Bola, quando eu tirei o meu curso de formação de atores de humor e comédia. A Ana Bola disse-me: "Um dia vais trabalhar comigo." Era minha professora e disse: "Um dia vais trabalhar comigo." E eu fiquei com aquela, guardei aquilo. Passou-se um ano, um ano e tal, e depois ela ligou-me a dizer: "Há aqui um projeto na RTP, nós vamos fazer a sequela da 'Mulher do Senhor Ministro', que vai se chamar 'A Mãe do Senhor Ministro', e eu gostava muito que tu fosses a secretária." "Está bem". Aquilo ficou, mas lá está, estas coisas demoram muito tempo e passou mais um ano. As coisas não aconteciam. A minha mãe a dizer que eu tinha de ir trabalhar pra outra coisa. Fizeram-me uma proposta numa viagem a Moçambique, para trabalhar lá em marketing numa agência de publicidade. A minha mãe disse: "Aceita, eu mando-te uma mala com a tua roupa, tens de aceitar." E no dia em que eu ia aceitar, recebo uma mensagem da Ana Bola a dizer: "Não aceites nada", exatamente assim, como se estivesse a adivinhar. "Não aceites nada, vamos fazer a série, a série arranca em janeiro", e estávamos em dezembro.

Era pouco tempo também.

Era um mês, e a série arrancou.

Muito bem.

E foi uma das maiores alegrias da minha vida trabalhar com a Ana Bola.

Trabalhaste com ela muito recentemente também na "Rua das Flores", não foi?

Na "Rua das Flores", que voltamos a juntar-nos. Foi pouco tempo. Tenho pena. Mas é o que é. Mas voltei a trabalhar com ela, sim, e adoraria voltar a trabalhar. A Ana Bola é minha madrinha.

Sim. Falámos deste projeto, "Rua das Flores". Era um projeto diferente. Vinha no seguimento de um grande sucesso, que era a "Festa é Festa" na TVI.

Exatamente.

Sentiste pena por aquilo não correr como se esperava?

Tive muita pena, porque todos os atores que estavam envolvidos tinham muita vontade que aquilo desse certo, e eu vi toda a gente a dar o litro.

Falo de um projeto muito ligado à comédia, não é?

Muito ligado à comédia.

Com grandes nomes.

Com pessoas muito talentosas. Só que eu acho que às vezes o sucesso pode virar-se contra nós. E como a TVI estava a ter o sucesso da "Festa é Festa" e tentou agarrar na mesma receita, mas o resultado não foi o mesmo.

O que isso diz sobre o público, por exemplo? Para vocês, atores, que veem o sucesso num projeto e veem outro, que é diferente, mas que tem a mesma gênese, como é que vocês lidam com isso?

Foi aceitar. Eu acho que é aceitar, nem tudo resulta. Eu acho que as coisas têm o seu timing. O público é que sabe o que quer. Eu acho que o problema, às vezes, é nós querermos tudo ao mesmo tempo e as coisas precisam de respirar. Se calhar, aqueles autores que estavam ainda a escrever a "Festa é Festa", estavam também a escrever para isto ao mesmo tempo, e eu acho que o projeto não teve a dedicação que merecia ter tido.

Aquilo era mesmo uma rua.

Aquilo foi muito giro, porque aquilo até parecia a Globo, parecia a cidade da Globo.

Eu lembro de ver as imagens. Aquilo era tudo construído como se fosse mesmo uma rua, e a vizinhança.

A fachada dos prédios estava muito bem construído. Foi a primeira vez que houve num estúdio de televisão uma cidadezinha montada.

Exato. Na Plural, não foi?

Na Plural. E aquilo estava mesmo muito bem feito. Eu acho é que o timing, se calhar, não foi o certo. Eu acho que resultava exatamente com aquela equipa, não teríamos de mexer em nada, mas o timing é que não foi o certo. Se aquilo tivesse sido um ano depois, se as pessoas que estavam a escrever tivessem tido o seu tempo de pausa, de respirar, de irem beber outras coisas para se inspirarem para escrever. Eu acho que havia muita pressão, também. E o trabalho sob pressão não resulta. E se calhar foi um bocado isso, o próprio sucesso virou-se contra eles. E contra nós também.

Mas tudo correu certo e há muitos projetos que depois fizeste desde então e que provam isso mesmo. Aliás, as pessoas, se calar, e quem nos está a ouvir, a Matilde Breiner é muito interventiva no sentido de publicar muito nas redes sociais, muito para divertir os outros. Aliás, tu fazes lip sync, para quem não está habituado a esta gíria. É uma pessoa que tem um som de fundo e imita exatamente as características daquela pessoa que está a falar. Há muitos icônicos que tu fazes. Daquilo que nós conhecemos de ti, tu és uma mulher de gargalhada fácil, pelo menos parece.

Sou.

Mas tu gostas mais de provocar a gargalhada nos outros, é assim?

Muito mais.

Dá-te mais gozo.

Sim. Eu adoro que me façam rir, também. E se me levarem a ver uma peça de comédia, eu sou o melhor público que existe. Uma pessoa levanta um braço e eu já me estou a rir. Eu sou de gargalhada fácil, mas eu tenho muito mais prazer em fazer os outros rir. Eu adoro fazer os outros rir.

Como é que é esse processo? Porque às vezes tu tens vídeos em que as falas parecem intermináveis, são enormes.

Sim.

Como é que se faz isso? Porque uma coisa é tu decorares, acredito que esteja muito ligado também à tua profissão. Mas uma coisa é juntar isso com a voz de outra pessoa.

Olha, eu não sei explicar a fórmula mágica, porque aquilo foi uma coisa que me saiu naturalmente.

Fizeste por acaso um dia, ou não?

Foi na pandemia, não tinha nada para fazer e vi que aquilo estava no TikTok, vi aqueles vídeos e pensei: "Eu acho que eu me ia divertir a fazer isto". E fiz o primeiro, e foi uma coisa mais para mim. Nem foi tanto para pensar no resultado. Até porque eu achei que as pessoas não iriam perceber muito bem aquilo. Achei que era uma coisa mais para mim do que Não esperava que as pessoas rissem tanto de uma pessoa a abrir a boca, a fingir que é outra a falar. Fingir que é a própria a falar, mas com a voz do outro.

Sim.

O facto é que aquilo resultou muito e ficou logo viral nessa altura. Os meus primeiros vídeos têm milhões de visualizações. Eu não estava à espera, eu não fiz com o objetivo de, eu fiz aquilo para mim.

Daquilo que se diz hoje, que é ser viral, não é?

Ser viral, exatamente.

Na altura, se calhar, ainda não se falava muito disso. Em 2020, acho que ainda não era uma palavra muito usada.

Acho que ainda não. E de repente eu faço aquilo e aquilo tem essas visualizações todas. A reação das pessoas foi muito positiva, tudo a rir. E eu: "Olha que engraçado, quem acha que eu vou conseguir fazer as pessoas rir durante a pandemia, nestes tempos que estamos a viver tão estranhos." E na pandemia eu fazia um por dia. Como é que eu fazia um por dia? Nós não tínhamos mesmo mais nada para fazer.

E as pessoas, às tantas, já te enviavam sons. Ou isso ainda acontece hoje?

Sim, ainda acontece. Hoje em dia acontece muito mais, se calhar porque eu faço menos também, porque tenho menos tempo. Agora, eu quero fazer aqui um apelo, vou aproveitar.

Faz.

Porque é assim, as pessoas às vezes mandam vídeos, que já são vídeos de outras pessoas a imitar outras pessoas e dizem: "Tens de fazer este!" Mas isso não resulta. O que resulta é uma pessoa que não sabe que está a falar de uma forma ou dizer uma coisa que tem muita graça e que tem ali um grande potencial. Isso é que tem graça. Não é eu imitar alguém que já está a imitar alguém, que imitou, que fez um boneco de. Isso não tem graça nenhuma. E eu recebo tantos desses. Não mandem esses.

Quem é o teu alvo preferido, se é que tens? Podes revelar.

Tenho vários. Tudo o que sai de reality shows, eu adoro. Podem mandar esses todos. E a Lili Caneças, que eu amo de coração, mas a Lili Caneças tem uma forma muito peculiar de falar e ela diz coisas com muita graça. Eu acho que a própria sabe. Ela é uma pessoa interessantíssima de ouvir falar, porque ela tem uma certa musicalidade a falar, para já. E depois a maneira de dizer as coisas e de mexer a boca também é muito cômico. No bom sentido.

Claro.

E atenção, a Lili reage sempre às minhas coisas e dá-me carta verde para eu fazer o que eu quiser. Mas a Lili Caneças tem sido o meu alvo. Peço desculpa, Lili, um grande beijinho para a Lili.

Já fizeste a Elma Aveiro ou não?

A Elma Aveiro também já fiz. Também é muito interessante.

Muito engraçado, não é?

Não pelas mesmas razões, talvez, que a Lili Caneças.

Muito bom.

Mas também é muito interessante.

Matilde Bryner, ficamos por aqui nesta nossa primeira parte, mas regressamos já a seguir. Ainda temos muito para falar neste "Em 40 Minutos". Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com a atriz Matilde Bryner. Nós falámos muito de comédia aqui na primeira parte. Tu já te vês como humorista?

Boa pergunta. Nunca me fizeram essa pergunta.

Isto é uma pergunta ingrata, por quê? Porque eu sou uma pessoa, e já recebi vários convidados aqui no "Em 40 Minutos", que não gosta de pôr as pessoas em gaveta. Mas ao mesmo tempo, tu tens uma parte muito cômica e associada à comédia, muito natural. E esta pergunta acaba por surgir. Se tu te vês já nesse papel, eventualmente.

Eu não me vejo, gostaria muito de me ver como humorista, mas ainda não me vejo. Mas vou explicar por quê. Nem sei se alguma vez vou ver. Não sei, pergunta ao Joaquim Monchique. Ou à Ana Bola. Mas eu quando comecei a ser atriz, eu estudei e depois fui atrás de oportunidades. E quando comecei a trabalhar como atriz, imagina, eu ia ao médico e tinha que preencher a ficha e dizia lá: profissão. E eu não me sentia atriz, eu não era capaz de escrever ali atriz. Hoje em dia eu já consigo escrever atriz, mas acho que é muito difícil uma pessoa, para mim, pelo menos, se calhar tem a ver com o tanto que eu existo, mas eu acho que eu estou sempre em processo de. Acho que uma atriz está sempre em processo e está sempre em construção.

E tu hoje podes estar num ponto e daqui a dois anos estares noutro completamente diferente.

Exatamente. Sim, e esta profissão dá-nos muito isso, a instabilidade desta profissão. Depois, ao mesmo tempo, eu acho que uma vez atriz, para sempre atriz. Mas eu não sei responder a isso. Eu não sei o que é que sou. Muito sinceramente, acho que sou muitas coisas, acho que tenho muitas coisas aqui dentro. Gosto muito de trabalhar em comédia e é a coisa que eu gosto mais de fazer, sem dúvida.

Um humorista também é ator.

Um humorista é ator.

Exato.

Um humorista é ator. Não, isso não há separação.

Antes de seres humorista, és atriz.

Sim.

Acima de tudo.

Agora, hoje em dia já tenho mais facilidade em escrever que sou atriz. Se sou humorista, não sei. Acho que estou sempre em processo de construção e se calhar à espera da validação dos outros nisso

É um processo, Mateus Graíner. Quem sabe daqui a dois anos estou a conversar contigo e estás aí pelo país com espetáculos.

Não vai ser daqui a dois anos.

Pois?

Vai ser mais próximo.

É?

É.

Então vamos falar sobre isso.

Vai ser menos do que isso.

Nós temos aqui um assunto para conversar, e já lá vamos, que esteve nas notícias e tu acabaste por cancelar esse teu espetáculo que tinhas no MEO Comedia à la Carte. Foi uma decisão não só tomada por ti, mas por vários artistas que iam estar presentes neste festival, muito por causa destas posições, que são conhecidas, para o Israel, de Jerry Seinfeld. Foi isso que te levou a tomar esta decisão? Eu sei que agora estamos a entrar aqui num tom mais sério.

Sim, e eu sabia que esta pergunta ia acontecer.

Exato. Até porque seria ingrato para quem nos ouve, se calar não tocarmos nesse nervo ou não falarmos sobre isso, porque foi algo que gerou muito bruá nas redes sociais, pessoas que não compreendem por que se toma esta posição. E queria perceber, no fundo, qual é a tua também.

Eu decidi fazer um comunicado mais simples, que fiz agora quando conhecemos o novo cartaz do festival.

Porque isso levou a uma série de modificações, porque tivemos muitos cancelamentos.

Muitos cancelamentos e eles tiveram de se adaptar. É um tema sensível, porque eu acho que tudo que eu disser aqui pode se virar contra mim, se for tirado de contexto. Hoje em dia vivemos tempos, ó meu Deus, muito sensíveis e tudo o que nós dizemos, parece que as pessoas estão a borbulhar e à espera que haja um comentário.

Um passo em falso, às vezes.

Um passo em falso. E hoje em dia toda a gente tem de ser ou de um lado ou do outro, não há um intermédio. E eu pensei muito antes de tomar a minha posição, que nem foi uma tomada de posição, foi decidir o que eu ia fazer. E eu decidi sair do festival, não fazer o meu espetáculo, por uma questão muito simples: porque a produção do festival esteve parada muito tempo, por causa desta polêmica toda, e isso afetou a produção do meu espetáculo. E eu não tive tempo de ensaiar, não tive tempo de montar o espetáculo que eu queria, até porque o César ia encenar o meu espetáculo.

César, que é mais um dos teus mestres também, não é?

Sim, o César também. Foi meu professor.

César Mourão.

César Mourão, sim. O César Mourão ia encenar o meu espetáculo e como tu deves calcular, o espetáculo, o festival é dele.

E acontece agora no final deste mês.

E com esta polêmica toda, obviamente que não há cabeça, não há estrutura, sequer para encenar um espetáculo de raiz. E eu tomei a decisão de sair do festival, em conjunto com a produção, tomamos esta decisão de: "Ok, eu não vou estrear agora, porque tudo isto pode afetar a qualidade do meu espetáculo" e também porque o festival onde eu iria participar era uma coisa e agora é outra, depois desta polêmica toda.

Mas essa polêmica que aconteceu, porque, por exemplo, a Inês Aires Pereira admitiu que não sabia destas posições pró-Israel do comediante do Seinfeld. Isso ajudou de alguma forma também a decidir? Porque eu sei que isto era uma coisa que tu querias muito, este espetáculo.

Era. E eu vou dizer só uma coisa, que é: eu sabia das posições do Jerry Seinfeld quando aceitei participar no festival. Eu conheço o Jerry Seinfeld, eu conheço o background do Jerry Seinfeld. Mas eu acredito que partilhar um cartaz não é partilhar as mesmas posições políticas. E é só isto que eu vou dizer. E eu tenho muito respeito por quem me convidou para fazer parte do festival e eu aceitei. Eu disse que sim.

E agora por esta questão, acabou por afetar. Possivelmente, se não acontecesse esta polêmica, teríamos o teu espetáculo agora no final do mês.

Agora provavelmente, nem estava aqui, estava a ensaiar.

Exato. Terias uma agenda muito mais curta. Mas estavas a dizer que vamos ter novidades, é isso? O que tu nos podes adiantar?

Olha.

Porque este era um espetáculo, corrija-me se eu estiver errado, associado também ao lip sync.

Sim, isto era um espetáculo que ninguém sabe definir muito bem o que é. É um misto de stand up com lip sync. É sobre mim, sobre a minha vida, tem muito da minha vida, mas também tem coisas que as pessoas vão pensar: "Isto é verdade? Isto aconteceu?" E no meio vou misturar o lip sync, é uma coisa muito fora da caixa. Eu sempre quis fazer alguma coisa com o meu lip sync, mas nunca consegui chegar a um produto final, nunca consegui ter uma ideia, havia sempre ali uma parede que me bloqueava. E o Henrique Dias, que é um autor extraordinário.

Que te ajudou a escrever este espetáculo, não é?

Agarrou na ideia e disse: "Não, o que nós vamos fazer é isto". E escreveu em três dias aquilo que eu nunca consegui passar pro papel. E quando eu li aquilo, eu pensei: "Ó, meu Deus, era isto mesmo".

No papel, tu consegues logo imaginar aquilo que é ou aquilo que vai ser?

Sim, totalmente. E assim que eu li o texto, fiquei ainda com mais vontade de ir pra cima do palco fazer aquilo. É uma louquice, mas é uma louquice que resulta. Eu acho que aquilo pode resultar muito bem e para as pessoas que me iam ver, e por acaso até estava bem vendido. Eu acho que as pessoas não vão ficar desiludidas. Espero eu. Agora, o que vai acontecer? Eu vou pegar nesse espetáculo, "Não Fui Eu que Disse", e vou estreá-lo mais tarde, provavelmente em 2027. E 2027 vai ser o meu ano dos monólogos, porque eu tenho outro monólogo para estrear.

Então eu disse dois anos, é daqui a dois, três meses que vamos ter novidades.

Sim, o próximo vou já começar a ensaiar em novembro. É um espetáculo que o Frederico Arado, um encenador com quem eu já trabalhei também na peça "Dá Para o Torto", me convidou para fazer. É uma peça que esteve em Londres durante muito tempo e vou dizer aqui, em primeira mão, chama-se "Son of a Bitch" e não vamos traduzir, vai chamar-se assim exatamente: "Son of a Bitch, a Pior Mãe do Mundo", e é sobre uma mãe em burnout.

Muito bem, então temos aqui muitos projetos em perspectiva já para este início de 2027.

Sim, dois monólogos. Olha a loucura.

Ficar atento às tuas redes sociais. Além dos vídeos, vamos ter também estas novidades.

Vai ser um ano interessante.

Falar contigo e não falar sobre um tema que para muitos pais diz muito. Aliás, assinalámos este dia 15 de outubro, o Dia Internacional da Consciencialização da Perda Gestacional e Neonatal. Eu confesso que já me emocionei a ouvir-te várias vezes. Não tenho filhos, mas é de facto um muro no estômago ouvir algumas das partilhas que tu já fizeste sobre este tema. A Zoe é uma luz na tua vida e vai ser sempre, acredito que a tenhas todos os dias no teu pensamento. Tu disseste numa entrevista que deixar ir foi um ato de amor. Qual é a dimensão deste amor? Se é que consegues categorizá-lo de alguma forma na tua vida e no teu cotidiano.

Acho que não há uma forma de categorizar. É o amor que uma mãe e um pai têm por um filho, que é uma coisa avassaladora e que eu acho que não tem dimensão, não é palpável. Eu só sei explicar assim: é um amor de uma mãe por um filho, é um instinto de proteção. É um amor que eu desconhecia completamente, mas que a partir do momento em que tens um filho na barriga, começas a conhecer esse amor. É um amor que cresce todos os dias, mesmo não tendo o teu filho aqui. É um amor que se vai moldando à tua vida. É um amor/luto, que eu também descobri que o luto não passa, é uma coisa com que tu vives a vida inteira e uns dias ele é gigante, outros dias ele é só uma bolinha que tu sentes cá dentro, outros dias é uma coisa pulsante. É diferente todos os dias, mas é uma coisa que eu vou levar para a vida sempre. Sempre. E é uma coisa que não acaba, que não tem fim.

Vou fazer aqui uma partilha contigo também, algo pessoal. Eu perdi o meu pai também e acordo todos os dias com ele no pensamento. Todos os dias. Não há um dia que eu não acorde e não me lembre que ele já não está cá. As vivências são acima de tudo diferentes, não é? O teu processo é diferente do meu.

Mas o luto é o mesmo.

O luto é o mesmo, sim. Como é que ela vive na tua vida? Tu também tens esse sentimento? Ou seja, quando acordas, lembras-te automaticamente dela? Como é que ela aparece ou vai aparecendo no teu dia a dia?

Há dias que eu acho, e isto é verdade, que sinto que estou a dar a mão a alguém e olho para as minhas mãos e tenho simplesmente as minhas mãos no colo, pousadas nas minhas pernas ou pousadas em cima de uma mesa. E eu sei aí: "Ok, eu sei quem me está a dar a mão". Há dias que, não quero aqui entrar em coisas que são muito minhas, que me fazem lembrar a minha filha, mas eu acho que eu partilhei, por acaso, que quando eu estava grávida dela, eu enjoei muito e estive os seis meses a vomitar e a única coisa que eu conseguia cheirar era flor de laranjeira. Sei lá, uma laranja. Eu olho todos os dias. E associo a minha filha à cor de laranja, à laranja, ao cheiro da laranja. E por acaso, eu sei que os bebés têm sempre fases, mas a cor preferida da minha filha, Mia, é o laranja. E eu tenho uma tatuagem que diz Zoe em cor de laranja. E a Mia já me perguntou também várias vezes. Perguntou-me uma vez: "Mãe, o que diz aqui?" E eu disse: "Zoe." E ela: "Ah, tá bem." E depois embaixo diz Mia, fiz outra que diz Mia. E ela: "Mãe, olha, aqui diz Zoe e Mia, não é?" E eu: "Sim, Zoe e Mia." E ela nunca me perguntou quem era a Zoe, por enquanto. Mas também é uma forma de eu falar dela todos os dias e de ir introduzindo à Mia a irmã que está algures Mas que eu sinto que está sempre conosco.

Falar desse processo, e tu falaste várias vezes, de uma forma ajudou muitas pessoas. Eu acho que muitos pais acabaram por se rever no teu testemunho, porque se calar até então, não havia tantas vozes a falar sobre isto. E é normal, é o processo de cada um. Há pessoas que se calar se isolam mais. Tu própria tiveste os teus momentos de isolamento. Há alguma mensagem, algo que te tenham dito que te tenha tocado particularmente depois de teres feito toda esta partilha?

Sim. Eu acho que as pessoas têm muita dificuldade em perceber como é que lidam com pais que perderam um filho, ou seja, que perdem um bebé que nunca cá esteve. E as pessoas não sabem lidar com isso. As pessoas que nunca passaram por isso não sabem lidar com isso. E depois há umas que acham que é melhor não falar no assunto. Há outras que: "Eu adorava falar no assunto, mas não sei como abordar o assunto." Há outras que são muito mais despachadas e: "Olha, bora falar?" Porque há um tabu gigante à volta deste tema. E uma coisa que eu aprendi com todos os pais e com todas as experiências que eu troquei, com pessoas que passaram pelo mesmo, há uma coisa que eu aprendi que é: falem. Os pais gostam, os pais adoram relembrar. É muito especial para os pais poder relembrar um filho que nunca cá esteve, porque é a forma deles de: "Não, ele esteve cá." É a forma de eles validarem a sua existência, porque as pessoas pensam: "Ok, mas eu nunca vi esta criança. Então como é que eu vou falar sobre isto?" E eu acho que todos os pais gostam de falar. Esta é a mensagem que, se eu puder ajudar alguém ou ajudar alguém que está a ajudar alguém que está a passar por isto, é falem. Falem sempre, falem todos os dias, não falem só quando aconteceu, falem no ano a seguir, falem 10 anos a seguir.

E a terapia também que ajuda muito nesse sentido?

A terapia, sim, os pais, na minha opinião, acho que é muito importante fazer terapia, mas há outra coisa também que é: as pessoas não sabem o que eu vou dizer. Não posso dizer: "Depois tens outro. Quando é que vais tentar ter outro?" Não é nada disso. Há só uma frase que é simples, é tão simples, e são duas palavras, e eu acho que é exatamente isso que as pessoas que estão a passar por isto querem ouvir. E chega e é a coisa mais reconfortante para o coração, que é as outras pessoas dizerem simplesmente: "Estou aqui."

Esta dor é como entrar num quarto escuro que nós nunca entrámos e não saber o que vamos encontrar. Ou seja, por mais que se fale, por mais que se diga, tu não vives dias iguais. E qualquer pessoa que passe por uma situação destas, nenhum dia é igual depois do que aquilo que acontece. Como é que se vivem esses dias em que a única luz que havia, desaparece?

Eu acho que eu, na altura, e eu fiz terapia ainda antes de passar pelo processo, porque eu já sabia que ia passar pelo processo. Ou seja, eu estava grávida, foi diagnosticada uma coisa e nós decidimos o que íamos fazer. Portanto, eu tive essa sorte, no meio desta desgraça, de me preparar com uma terapeuta e isso ajudou-me muito. E eu acho que eu, na altura, vesti o meu papel de mãe, que foi: nasceu a leoa que todas as mães têm dentro delas.

A transformação já começou aí.

Sim, e eu disse: "Não, eu vou proteger a minha filha o máximo possível" e saiu uma leoa daqui de dentro. Hoje em dia que eu tenho outra filha, que tive outra filha, posso dizer que voltei a ter de fazer terapia, porque todos os dias é diferente. Ou seja, eu na altura acho que lidei com aquilo que eu tinha para dar e com a estrutura que eu tinha, e que foi muito importante eu ter tido pessoas na minha rede de apoio que me dirigiram e que disseram: "Não, é melhor tu fazeres terapia já." Essa rede de apoio foi muito importante e eu acho que na altura eu até surpreendi as pessoas pela forma como eu lidei com a coisa.

Pelo que sei, tu também deste muita força às pessoas à tua volta, a quem estava contigo e passou por esse processo juntamente contigo, não é?

Sim, principalmente os meus pais, que foi também muito difícil para eles passarem por isto, verem uma filha a passar por isto. Mas eu mesmo nessa altura senti: "Não, eu tenho que ser a força destas pessoas." E depois ia abaixo, e depois vinha acima. E hoje em dia, olha, é um processo. Hoje em dia que eu tenho a Mia, muitas vezes vou lá abaixo também E procurei ajuda. É um caminho que se faz todos os dias e que irá ser feito até ao fim da minha vida, eu acho.

O luto é sempre um processo.

Vamos dar outra vez essa conversa.

Ter o seu tempo, que eu acho que não há tempo, no fundo, porque é algo muito pessoal e muito nosso, entre aspas, e que cada um acaba por viver à sua maneira. Mesmo sendo uma situação igual para um grupo de pessoas, acaba sempre por ser diferente.

Sim, é muito pessoal também.

Muito por conta das nossas personalidades. Nós não processamos a tristeza e a alegria da mesma forma. Somos todos diferentes. Isso já diz muito sobre o que é esse processo.

Sim. Obviamente, é uma coisa que te muda completamente, é uma coisa que te transforma para a vida. É um vazio enorme, é uma brutalidade no sentido em que tu preparas uma casa para receber um bebê e no dia a seguir, chegas a casa e tens de lidar com uma casa preparada para receber um bebê, as pessoas na rua a perguntarem-te ou com uma atitude estranha, porque não sabem. "Mas ela estava grávida, não estava grávida. Agora não me parece ter ali nenhuma barriga. Mas também não estou a ver bebê nenhum." E também foi por isso que eu decidi tornar isto tão público e dar a entrevista que eu dei na altura ao Gosha, que foi uma conversa que hoje em dia há muitas pessoas que ainda vão ver essa entrevista e mandam mensagens a dizer: "Olha, passei pelo mesmo e tive de ir ver esta entrevista."

Eu vi na altura e voltei a vê-la agora para preparar esta conversa e emocionei-me da mesma forma como me emocionei na primeira.

E ainda bem que eu a dei, porque se eu tinha dúvidas na altura, se devia falar tão abertamente sobre isto, depois do feedback que eu recebi essa entrevista, as minhas dúvidas acabaram ali completamente, porque foi uma forma de ajudar quem passa pelo mesmo, espero eu. Acho que sim, porque é isso que as pessoas me têm dito.

E a Zoe vive em ti todos os dias.

Todos os dias. Aqui no meu fio.

Sempre.

Com o meu Z. Está sempre aqui comigo.

O que a Mia te tem ensinado? Porque falamos aqui, eu acho que são duas fases de transformação. Há essa primeira transformação, mas quando a Mia chega, e tu já falaste do fato de tu seres muito mãe leoa, o que muda?

Muda tudo. Por onde começar? Só temos 40 minutos. Muda tudo. Há uma simplicidade em ser-se criança que é uma estalada para os adultos todos os dias. Pau, toma, aprende.

É que eu tenho a ideia que os pais fazem muitos projetos no sentido: "Ah, eu vou ser assim e quando fizer isto, vou fazer isto."

Não, esquece isso.

Muda-se tudo, não é?

Esquece isso. Muda-se tudo. Só há uma coisa que eu tenho aprendido, que eu decidi ainda antes ter a Mia, lá está, vai tudo dar ao mesmo, que é: eu sei que tudo se resolve através do amor. Tudo se resolve através do amor. E as crianças só precisam de amor. As crianças não precisam de brinquedos, as crianças não precisam de gadgets, as crianças só precisam de amor e presença. A minha filha entra em casa, eu largo o telemóvel.

É automático.

Automático. A minha sogra aposto que vai ouvir esta entrevista e vai pensar assim: "Mas quando estamos juntos, ela está sempre ao telemóvel." Mas é porque eu aproveito que tenho companhia e tenho distração para ela, porque o meu trabalho também é através do telemóvel. E é assim que eu falo com os meus agentes. Por isso, sogrinha, mãe, quando estamos todos juntos, eu só agarro o telemóvel nessas alturas. Mas em casa, quando estou eu, o Tiago e a Mia, eles só precisam de presença e de amor. E depois é muito engraçado, porque eu era uma pessoa com muitas coisas para resolver cá dentro. E a minha filha ensinou-me que é a coisa mais simples do mundo. Ela desbloqueou-me aqui tanta coisa, como, por exemplo, eu antigamente era uma pessoa muito mais rancorosa. Eu era capaz de ficar a moer na minha cabeça um assunto. "Ai, por que aquela pessoa hoje me tratou mal? Fui eu que fiz alguma coisa? Vou responder na mesma moeda." E a minha filha ensinou-me que responder com sorriso na cara, genuíno, verdadeiro, não é um sorriso cínico. A minha filha ensinou-me a não ser rancorosa. Eu no outro dia fui atendida numa loja por uma mulher que não estava nos seus dias. Estava a ter um dia mau, não lhe apetecia estar ali, aconteceu-lhe alguma coisa, eu não sei, é a vida dela. Mas claramente ela também não queria estar ali a atender. E foi muito pouco simpática comigo. A Matilde, antigamente, antes de ter filhos, provavelmente ia responder na mesma moeda. Ai, é? Ação, reação. Era logo. Eu sou carneiro, calma. E a minha filha ensinou-me que não é assim que se fazem as coisas. Estás a ter um dia mau, eu posso ser a mudança no teu dia. Então eu vou dar aqui uma oportunidade para tu teres um bocadinho, eu vou te mostrar o contrário.

Às vezes um simples: "Bom trabalho." Gera um-

Um bom trabalho, mas com sorriso na cara.

Exato, um sorriso na pessoa.

Ela perguntou aquelas coisas automáticas: vai querer número contribuinte, vai querer não sei o quê, quer fatura, e estava a me despachar e eu olhei para ela nos olhos Disse: "Quero, se faz favor. Sim, o meu nome de contribuinte é este e este." Fiz mais uma pergunta, precisava de trocar mais uma coisa ainda, enfureci mais. Mas eu fui sempre calma e passei essa energia e com sorriso na cara. No fim, quando eu lhe disse: "Adeus, bom dia, obrigada, bom dia", ela respondeu-me com sorriso na cara. E às vezes é só isso que as pessoas precisam. E é isso que as crianças nos ensinam, essa simplicidade. Nem tudo precisa de ser respondido na mesma moeda. As pessoas, às vezes, só estão a ter um dia mau. E eu acho que este mundo, hoje em dia, eu acho que as pessoas estão tanto à procura de ser alguma coisa, que se esqueceram que às vezes só temos de ser boas pessoas. "Mas eu quero ser o melhor nisto. Mas eu quero mostrar que eu sei fazer isto. Eu quero que as pessoas vejam que eu sou mesmo bom, eu sou o melhor profissional nisto. Eu vou trabalhar". Mas onde é que está o ser boa pessoa? Desapareceu. Às vezes. Às vezes, não. Bora partir outra vez, bora todos voltar à base e sermos só boas pessoas e não nos preocuparmos com o resto, porque depois o resto vem. E as crianças são boas pessoas, são puras. E a minha filha ensinou-me isso.

E é um grande ensinamento, sem dúvida. Tu e o Tiago partilham a profissão, partilham uma vida, são grandes confidentes, é uma ligação de amor muito genuína e quem te segue, quem ouve as entrevistas em que falas dele, sente isso mesmo. O que ele também te ensinou? Porque acredito também tenhas aprendido muito com ele e ele contigo também, no fundo, nesta relação, que já dura quantos anos?

Há nove anos. Há 10 anos. 2013. Estamos em 2023.

Ele vai descobrir.

Não, ele não sabe.

Então pronto.

Eu sei melhor que ele, acredita.

Ficamos descansados.

O Tiago foi uma pessoa que me trouxe, eu não quero repetir a mesma coisa de ser boa pessoa, mas sabes aquelas pessoas que chegam a um sítio e são cativantes? E estamos numa sala com um monte de pessoas e eu posso tentar ser engraçada, que se o Tiago estiver ao meu lado, é para ele que as pessoas vão olhar, não é para mim. O Tiago tem muito carisma. Por outro lado, é um bicho do mato. Não gosta de estar com pessoas, só gosta de estar com as pessoas dele, que se contam pelos dedos de uma mão. Mas ele ensinou-me que os extremos podem coabitar dentro de nós. Eu posso ser uma pessoa totalmente antissocial, mas quando estou com as minhas pessoas, eu sou aquela pessoa que, e é genuíno, eu sou aquela pessoa que traz o bom ambiente, que faz rir os outros genuinamente. E o Tiago ensinou-me isso. Trouxe muito mais calma à minha vida, à minha personalidade também, fogo. E uma das coisas que eu digo sempre também que a nossa relação me ensinou, eu era uma pessoa que guardava tudo para dentro. Eu não falava dos meus problemas. E vivermos tantos anos à distância, porque nós vivemos quase seis anos à distância, ele em Los Angeles e eu cá, e com uma diferença horária brutal. A nossa relação ensinou-me a falar, porque eu tinha que contar o meu dia.

E tinhas de valorizar esse tempo.

E tinha de valorizar esse tempo, exatamente. E depois, ao fim do dia, que era sempre quando eu falava com ele, eu já estava com o peso do dia. Se foi um dia mau, era impossível eu disfarçar que estava a ser um dia mau, porque eu já estava no fim do dia. E eu também não consigo disfarçar, eu sou transparente. Quando estou a ter um dia mau, estou a ter um dia mau. E ele sabia sempre, mesmo por FaceTime, ele sabia: "O que é que tens? O que é que se passa?" E eu pensei: "Ok, eu agora não posso ficar. Ele não está aqui ao meu lado, eu vou ter que falar com ele", ou seja, eu não cheguei a casa, abri a porta e disse: "Que dia tão mau, acabei de fazer isto, isto e isto. Acabou de me acontecer isto, isto e isto". Ele não estava aqui, portanto, eu aprendi a falar e aprendi a falar sobre os meus sentimentos e a ter de falar sobre os meus sentimentos. Eu sou uma pessoa muito mais faladora hoje em dia do que era antigamente. E acho que sou melhor pessoa por ele ter entrado na minha vida e pela Mia ter entrado na minha vida, com certeza.

Isso é tão bonito. Olha, falámos muito de amor em todas as suas dimensões, pela tua profissão, pela tua família, pelas tuas raízes, origens, o amor em várias formas. Vamos a inquietações. O que te inquieta neste mundo em que vivemos? Há muitas ameaças, muitas questões. Tu és mãe, tens com certeza outras preocupações. Quais são as tuas maiores inquietações?

Eu acho que a partir do momento em que tens um filho, as inquietações são todas direcionadas para o teu filho. Nós vivemos tempos difíceis, vivemos tempos de incertezas, vivemos tempo de ódio, vivemos na era das redes sociais, que nos trouxeram coisas boas, tal como nos trouxeram coisas muito más também. Toda a gente tem uma opinião hoje em dia, toda a gente tem que ter uma opinião. Inquieta-me o futuro, obviamente, e o mundo que eu vou deixar pra minha filha. Eu já sou uma mãe mais velha. Já tive a minha filha quase com 40 anos E a primeira vez que eu olhei para ela, foi a primeira vez que eu pensei: "Eu agora não posso morrer, porque eu tenho uma filha, eu não posso morrer. Eu tenho que protegê-la para sempre." E isso não vai acontecer. Eu vou morrer um dia. Foi a primeira vez que eu tive a noção de finitude, que eu não tinha antes. A vida era garantida e nunca pensei na minha morte. E hoje em dia, a partir desse dia, a partir do momento em que eu tive a Mia, eu comecei a pensar muito mais na morte e como é que eu vou proteger a minha filha para sempre. E eu não vou proteger a minha filha para sempre. Portanto, a minha preocupação agora vai mais no sentido de eu tenho que educar esta criança bem, ela tem que ser um bom ser humano. Só que ela tem a dificuldade que eu também tive, que é ser mulher. E eu espero que o futuro dela seja um futuro onde as mulheres tenham uma presença muito maior, tanto na política como em tudo. Eu acho que as mulheres podem mudar o mundo, se bem que também percebo que a política não seja um mundo nada atrativo para uma mulher, mas eu espero estar a criar um ser humano, mulher, o que ela quiser ser na vida, mas que eu saiba dar-lhe as bases para deixarmos todos um mundo melhor. Se a minha contribuição para deixar um mundo melhor for educar bem um ser humano, eu já fiz a minha parte. Espero que ela um dia consiga passar isso também aos filhos dela.

Já falaste várias também aqui, associadas sempre à Mia.

Mas é sempre associada a ela, porque eu acho que nós podemos mudar aquilo que nos é próximo, que nos está próximo, aquilo que é possível nós mudarmos. Se eu quiser contribuir para um mundo melhor, acho que pode ser através dos meus. E espero estar a criar bem um ser humano, que acho que é tão difícil.

Nos dias que correm, é difícil.

É muito difícil.

E que seja, acima de tudo, uma pessoa boa, que foi do que falámos ao longo desta entrevista. Aqui no "40 Minutos", Matilde Breiner, muito obrigado.

Obrigada eu.

Pela partilha e por teres vindo cá. E vamos ficar atentos às tuas redes sociais, porque tens muitas novidades para 2027. Um grande beijinho e obrigado.

View the original on Observador Desporto →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.