Pressa e tensão do trânsito levam motoristas a ignorar limites de velocidade, diz estudo
Motoristas brasileiros saem de casa dispostos a respeitar os limites de velocidade —pelo menos 90% deles dizem estar propensos a isso. Mas, um em cada três desses condutores admite dirigir acima do permitido por fatores como a pressa do dia a dia e a tensão do trânsito.
Esse é o resulto de um estudo realizado pela Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) e pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), em parceria com a Fundación Mapfre.
A pesquisa "Velocidade em áreas urbanas e segurança viária: evidências sobre comportamentos, percepções e atitudes" entrevistou pela internet 1.540 condutores, entre julho e agosto desse ano.
Os pesquisadores trabalharam com dois tipos de município —com mais de 1 milhão e entre 150 mil e 300 mil moradores. A amostra foi distribuída por região, sexo, idade e renda. A margem de erro é de 5 pontos.
Conforme o estudo, mais de 90% dos entrevistados associaram o respeito aos limites de velocidade a valores como cidadania e a preservação da vida.
Porém, para 33% deles, esse respeito acaba com fatores como a pressa, a sensação de ser pressionado por outros motoristas, a crença de que a velocidade estipulada aumenta o tempo de viagem e a percepção de que o limite da via é baixo para as condições de trânsito do lugar.
O questionário foi dividido em partes. A primeira buscou identificar o perfil do motorista. Depois, os pesquisadores analisaram suas atitudes em relação à segurança, à pressa, à influência de outras pessoas e à fiscalização, entre outros fatores.
Na terceira parte, os participantes viram imagens de ruas e cruzamentos e tiveram de indicar a velocidade que escolheriam para dirigir em cada cenário.
As cenas variavam conforme a presença de pedestres e carros estacionados, o número de faixas, o tipo de via e a existência ou não de sinalização sobre o limite de velocidade.
Ao todo havia 40 combinações possíveis, mas cada entrevistado viu somente oito imagens para não perder a atenção.
Os pesquisadores então analisaram estatisticamente as respostas e compararam as velocidades declaradas nos diferentes cenários.
"Fomos olhar para o comportamento da pessoa, da parte piscológica e como ela entende a velocidade e seus limites", afirma o engenheiro civil Cassiano Augusto Isler, professor no Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da USP, para a Folha. "As pessoas têm a intenção de respeitar os limites, mas acabam influenciadas", diz, sobre a conclusão do projeto.
Conforme avaliou o trabalho, o tipo de via e a presença de pedestres aparecem associados às escolhas de velocidade.
Os dados sugerem que o redesenho das cidades pode mudar o comportamento no trânsito.
A influência de pessoas próximas também aparece associada à intenção de respeitar os limites. Entre os fatores avaliados estavam a aprovação de familiares, como cônjuges, mães e filhos.
O estudo mostra ainda que situações de irritação e impaciência aparecem associadas a uma menor disposição para respeitar os limites de velocidade.
Sinalização adequada e características do local, como desenho viário, presença de faixas de estacionamento, interseções como faixas de pedestres e boas calçadas com circulação de pessoas são fatores que incentivam o motorista a dirigir dentro das normas, afirma Jorge Tiago Bastos, professor do Departamento de Transportes e do programa de pós-graduação em planejamento urbano da Universidade Federal do Paraná.
"Se o condutor estiver em uma rua com comércios e pedestres há a tendência de se respeitar os limites, porque um sinistro pode provocar ferimentos sérios", diz o professor Isler.
Em vias locais e cruzamentos, a presença da placa esteve mais associada a velocidades declaradas menores, especialmente em cenários com pedestres e características de interseção, como minirrotatórias e lombadas.
Ao todo havia 40 combinações possíveis, mas cada entrevistado viu somente oito imagens para não perder a atenção.
Para 90% dos entrevistados, o medo de ser multado leva à redução da velocidade.
O professor Isler, entretanto, afirma que investir em fiscalização como medida isolada não é suficiente. É preciso comunicar ao motorista sobre os limites da via e adotar medidas de gestão de velocidade e moderação de tráfego.
"A fiscalização eletrônica deve ser pensada para locais em que medidas de engenharia viária são inviáveis", diz.
Nem sempre correr adianta. O trabalho, de 115 páginas, cita uma pesquisa feita em Curitiba, com 1.331 percursos feitos por 40 motoristas. O excesso de velocidade produziu uma economia média de 7,81 segundos por quilômetro, totalizando apenas 46 a 55 segundos por viagem.
Esse ganho, aponta, pode ser anulado por semáforos, congestionamentos e manobras de outros veículos —ou seja, o tempo que o motorista imagina ganhar ao acelerar tende a ser bem maior que o conquistado na prática.
Os autores ressaltam que os resultados representam decisões declaradas diante de imagens controladas. A pesquisa não acompanhou os motoristas nas ruas nem comparou uma mesma via antes e depois da instalação de uma placa.
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