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Friday, October 9, 2026

João Bosco, com novo disco e show em São Paulo, ilumina aspecto coletivo de sua obra

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"As frases e as manhãs são espontâneas. Levantam do escuro e ninguém pode evitar", foi como Aldir Blanc começou a música "Amigos Novos e Antigos", lançada por João Bosco há 45 anos. O poeta havia sido provocado a escrever algo inspirado pela faixa "Sun King", dos Beatles.

Bosco desafiou Blanc a incluir, sobre a melodia que criou, as frases desconexas, com termos de várias línguas, da música de "Abbey Road". "As palavras agrupadas não levam você a nenhum lugar que não seja esse agrupamento de idiomas", diz. "É como se quisesse juntar as nações num abraço. Entendi assim e achei lindo."

A espontaneidade e a união retratadas em "Amigos Novos e Antigos" foi o que deu nome e motivou Bosco a fazer seu novo disco, lançado no mês passado, em que ele reinterpreta seu repertório com parceiros —entre eles Chico Buarque e Ivete Sangalo. Os convidados escolheram as músicas que queriam cantar e tudo foi gravado ao vivo, sem muito ensaio, no calor do momento.

A obra integra as celebrações dos 80 anos do cantor, que inclui uma turnê com show em São Paulo nesta sexta. Também joga luz sobre o aspecto coletivo da arte de João Bosco. Apesar de trazer um mundo em seu violão, ele sempre precisou de estímulos externos para atingir sua plenitude artística —seja ouvindo Moacir Santos na juventude, na parceria histórica com Blanc ou na exploração de polirritmias em "Horda", disco deste ano que fez com a "big band" alemã NDR.

Foi assim quando Bosco criou "Siri Recheado e o Cacete", que Zeca Pagodinho gravou no novo disco. Bosco estava na avenida Rio Branco, no Carnaval carioca da década de 1970, quando fez a melodia "sem violão, na cabeça, na empolgação". Blanc, que estava com ele, escreveu a letra sobre um casal que sai para pescar siris e se envolve em confusões.

É o tipo de composição, sem refrão, que Bosco define como "samba de carretel" —começa e se desenrola sem nunca retornar. É o mesmo caso de "Linha de Passe", tabelinha do cantor com Blanc que, na metáfora futebolística, ele define como "um samba ofensivo, porque você troca os passes na defesa, chega no meio do campo, entra na área e faz o gol —não volta e não se repete".

Segundo Bosco, um dos brasileiros que mais cantaram o futebol, faltou coletividade à seleção brasileira na última Copa do Mundo. "É uma troca de passes sem muito objetivo —passa pelo meio, atrasa para o goleiro, tenta sair de novo. Um jogo que tem uma falta de entrosamento", diz. "Não adianta você ter grandes jogadores, é um esporte coletivo."

Bosco já fez parcerias com vários craques —de Vinicius de Moraes a Waly Salomão—, mas dá a impressão de ter colaborado até com suas influências, tamanha a paixão e nível de detalhe com que fala de cada uma delas.

Ele declama "Pedreiro Waldemar", canção de Wilson Batista que ouviu em sua cidade natal, Ponte Nova, em Minas Gerais, num programa de calouros. Sua programação aos domingos na infância, diz, era missa de manhã, o programa na rádio depois e em seguida as congadas.

Eram feitas por trabalhadores negros dos canaviais da região, que "cantavam a memória dos seus antepassados". "Se vestiam de branco e tinham fitas coloridas que pendiam das cabeças até a cintura, às vezes cobrindo o rosto, como bandeiras agitadas."

O canto e os ritmos das congadas já estavam embrenhados em Bosco quando ele chegou à mineira Ouro Preto para cursar engenharia. A eles se somou a arquitetura barroca e a paisagem sinuosa. "Não sei se foi o espírito do Aleijadinho ou de Manoel da Costa Ataíde, mas, quando cheguei senti, para usar uma expressão do candomblé, um vento sagrado."

Foi lá que o cantor conheceu a coleção de discos de um "clube de secundaristas", com obras fundamentais para a construção de sua sonoridade —"Time Out", de Dave Brubeck, "Você Ainda Não Ouviu Nada", de Sérgio Mendes, e "Coisas", de Moacir Santos.

Bosco reproduz de cabeça os arranjos das músicas de Mendes, cita cada instrumentista que tocou com Brubeck e se derrama por Santos, que encontrou duas vezes —quando estava gravando o disco "Bandalhismo", de 1980, e depois na casa do pernambucano, nos Estados Unidos. "Sou muito privilegiado pela vida", diz. "Foram colocadas na minha frente pessoas que você não acredita que encontraria da maneira como encontrei —tão naturalmente."

A sensibilidade artística e o violão autodidata —o músico diz que não sabe nem sequer ler cifras— contrastam com o diploma de engenheiro. "Não entendia nada daquele troço. Passava de ano porque decorava e colava."

O artista se lembra das aulas de cálculo infinitesimal. "Falava de números e situações matemáticas muito além das minhas possibilidades. Mas eu adorava, porque ele falava de umas coisas e eu entendia outras. Para mim, era um filósofo falando sobre a vida."

Algo para ele conectava os números com a polirritmia dos ídolos. "Quando me lembro desse professor, associo a Brubeck, Moacir e Mendes, caras que procuraram essa polirritmia —porque é uma filosofia", diz. "A matemática está aí. Não pelo lado que eu compreendo, e sim pelo que não entendo —mas que imagino, viajo."

Outro encontro, com Clementina de Jesus, em 1977, redefiniu a carreira de João Bosco. Ele vinha de discos celebrados, como "Caça a Raposa" e "Galos de Briga", mas aprofundou as influências africanas nas obras seguintes. "É como se ela fosse uma fada que despertasse essas coisas em mim —que eu trazia, mas não usava."

Unidos no projeto Seis e Meia, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, eles passaram a conviver. "Comecei a ouvir aquela mulher, aquela voz, e falei ‘conheço isso, não me é estranho.’ Aí vem ‘Tiro de Misericórdia’, vem ‘Ronco da Cuíca’. É a Clementina, como extensão das congadas, de uma vida que eu tinha em Minas com personagens que falavam parecido com ela —aquele ‘pretuguês’."

Nesse processo, em que Bosco diz ter se soltado, surgem músicas como "Boca de Sapo", revisitada no novo disco. É quando seu canto se desprende das formalidades e incorpora aliterações para funcionar como instrumento musical por conta própria.

"Gagabirô", de 1984, e "Cabeça de Nego", de 1986, marcam esse momento de maior influência afro. "Odilê, Odilá", dessa fase, foi regravada com Martinho da Vila em "Amigos Novos e Antigos".

Bosco sempre cantou a religiosidade africana como parte do Brasil, mas passou também a cultuar suas entidades. Em sua casa, há um altar com figuras de várias religiões, onde ele ritualisticamente deposita flores de uma roseira que batizou de Hermeto —referência ao Pascoal— e Airto —por causa do Moreira. É como se eles também fossem deuses.

O oratório alimenta a criação de um engenheiro de "espiritualidade avançadíssima", um violonista instintivo que desata os nós matemáticos dos ritmos e que, aos 80 anos, segue encantado pelos amigos e referências.

Ele se lembra de uma sugestão de outro ídolo, Milton Nascimento, de chamar crianças yanomamis para cantar na faixa "O Canto da Terra por um Fio", que Bosco lançou há dois anos. A música usa um canto tradicional que significa "com a boca cheia de frutas", mas o traz à atualidade, em que esses indígenas são contaminados por mercúrio, decorrente do garimpo, na água que bebem.

"Os ancestrais cantavam isso e as crianças cantam. Só que agora elas não têm a boca cheia de frutas —estão com a boca cheia de mercúrio, cheia de fome", diz. "Bituca sugeriu trazer as crianças para cantar. Acho isso lindo. É um povo abraçando o outro. É isso que somos e devemos ser. Até aquelas palavras [dos Beatles] em ‘Amigos Novos e Antigos’ vêm disso aí. É a mesma coisa."

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