Não vamos esconder, todos temos o filho preferido
A vida toda, meu irmão e eu acusávamos nossos pais de proteger o outro. "Você está sempre do lado dele. É claro, né? Gosta mais dele". Era o nosso argumento final, aquela chantagem emocional básica, cada vez que perdíamos uma disputa mediada pelos pais. A resposta era sempre a mesma: "Não existe filho preferido. Isso é impossível".
O mesmo script se repete com meus filhos. O mais velho diz que mimo o mais novo; o mais novo diz que eu o comparo com o mais velho; e o do meio, espremido entre os dois, diz ser relegado à sua própria "irrelevância" (palavras dele).
Quem é mãe ou pai garante que a única resposta possível é: não dá para gostar mais de um filho do que do outro.
Só que a ciência diz que não é bem assim.
Um estudo publicado ano passado pela American Psychological Association concluiu que certas características podem gerar um tratamento mais favorável a um filho. Gênero, ordem de nascimento e temperamento podem influenciar esse favoritismo.
Diante das evidências, como defensora da ciência, não tenho saída: confesso que tenho, sim, um filho preferido. Só não consigo dizer qual.
Tenho o meu predileto para falar de futebol. O predileto para passear no bairro da Liberdade. O predileto para andar de bicicleta. Um é o melhor para conversa; outro, para determinado silêncio. Com um prefiro falar sobre mangás; com outro, sobre Machado de Assis. Todos me fazem rir, mas tem dias em que meu humor está mais afinado com um deles. Não depende só do que eles são, depende —ainda mais— de como eu estou.
Há dias, inclusive, em que a minha preferência mais profunda é que todos durmam na casa de amigos.
Um sorriso, uma piada, um carinho, um ato generoso, uma beleza inesperada podem fazer um deles subir no ranking em segundos —o mesmo que, um dia antes, estava numa zona de rebaixamento por ter tratado mal o irmão.
Existe algum instrumento que meça afeto? Um polígrafo? Não consigo imaginar como a repetição de determinados padrões consegue determinar a intensidade do que só existe por dentro. Amor é uma variável mais misteriosa.
Posso preferir a atitude de um filho, sem preferir aquele filho. Posso me identificar mais com o temperamento de um e me preocupar mais com outro justamente porque somos diferentes.
Os filhos também não pedem dos pais as mesmas coisas. Um precisa de colo quando o outro quer distância. Um pede limite; outro precisa de autonomia. Um gosta de contar tudo; o outro é reservado, e eu faço meu esforço para não invadir —assim o amo melhor. Tratá-los igualmente seria tratá-los com menos verdade.
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Há uma física própria na maternidade que escapa de qualquer ciência. O sentimento se expande sem ocupar mais espaço, a matéria aumenta sem retirar matéria de lugar nenhum. O nascimento de um segundo filho não divide por dois o que sentíamos pelo primeiro.
A biologia, curiosamente, oferece uma imagem melhor do que qualquer teoria. Depois do nascimento, algumas células da mãe permanecem no filho. E, por muitos anos, algumas células do filho podem continuar no corpo da mãe. O nome científico não é tão bonito quanto a ideia: microquimerismo.
Em vez de tentar explicar aos meus filhos que nenhum deles é meu preferido, tento fazê-los entender que, literalmente, carrego pedaços deles em mim.
Agora só falta a ciência me dizer: qual célula eu deveria preferir?
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