Louçã diz que Governo "finge que faz" na habitação

O antigo coordenador bloquista Francisco Louçã defende que o problema da habitação é resultado do “sucesso do mercado” e acusa o Governo de “fingir que faz”, considerando que a democracia deve aos manifestantes terem forçado o debate.
Em entrevista à agência Lusa antes da sua última lição na sexta-feira, no ISEG, em Lisboa, o professor catedrático e economista condena a atuação do executivo de Luís Montenegro em relação à habitação e considera que “tudo o que houve de desordem” nas manifestações em Lisboa e no Porto foram as intervenções policiais “a mando do Governo”.
“Acho que o Governo tem a intenção de ganhar tempo, fingir que faz, mas a vida é assim. Houve acampadas de Lisboa e do Porto e milhares de jovens que entraram na janela do Governo e provaram, com muita inteligência aliás, que eram parte de um debate construtivo. O Governo tentou responder com a repressão”, critica.
Louçã considera que “a democracia deve aos manifestantes” terem “pela primeira vez forçado a que um debate tão importante, tão atrasado, tão amargurado na sociedade portuguesa comece a ganhar a consistência de uma obrigação”.
“E que se possa obrigar partidos políticos e intervenientes políticos a serem medidos pela qualidade, pela consistência, pelo compromisso, pelo rigor de propostas que apresentarem sobre a habitação e da sua capacidade de impor a sua concretização”, aponta.
A entrevista foi gravada ainda antes das reuniões de quinta-feira do primeiro-ministro com os líderes do PS e do Chega, mas as expectativas de Louçã eram “nulas” quanto a este encontro promovido por Luís Montenegro para encontrar uma solução para o problema da habitação.
Questionado sobre a atuação do Presidente da República, António José Seguro, quer em relação às cargas policiais quer a um “forçar” de diálogo entre Governo e oposição, o antigo líder bloquista recusa especulações, mas tem uma certeza.
“Mário Soares e Jorge Sampaio teriam atuado imediatamente, poucas horas depois da carga policial porque ela era ilegal, era um ato de desordem e era estúpido politicamente. Estou convencido de que o teriam feito. António José Seguro não o fez por razões que têm a ver com o seu entendimento da presidência e isso ficará melhor esclarecido ao longo do tempo e eu não me quero precipitar em juízos a esse respeito”, refere.
Para o economista, “o problema da habitação em Portugal é o resultado de um sucesso, o sucesso do mercado”.
“O mercado quer as casas o mais caro possível, precisa das casas o mais caro possível, os construtores beneficiam das casas o mais caro possível e já agora algumas câmaras municipais também, por causa do valor do IMT”, defende.
Louçã aponta “um Governo que está muitíssimo bem para a tragédia portuguesa” já que “nasce deste sucesso do mercado na extorsão imobiliária e que a reforça e que vive bem com ela” e até se “entusiasma com o facto dos preços das casas subirem”.
“Percebe isso como uma oportunidade de mercado e olha para os salários baixos e para a precarização dos jovens como uma inevitabilidade, como se viu na lei laboral e na lei das rendas, como se vê nas suas sucessivas intervenções. Este é um Governo deste tríptico: finança, imobiliário, especulação”, critica.
Sobre a proposta do PS para uma garantia pública, o economista avisa que estas e as de benefícios fiscais “têm tido sempre o efeito de fazer aumentar os preços”, considerando que a solução passa por disponibilizar casas que existem no mercado “com rendas controladas e fazendo-o de todas as formas possíveis”.
Para Louçã “o país precisa de retirar poder” aos fundos imobiliários, que no primeiro semestre deste ano foram responsáveis por cerca de 80% das compras e vendas de propriedade imobiliária.
“Vão gerindo a acumulação de capital, a reserva de capital e os aumentos dos preços que permitem favorecer a valorização desses ativos e isso é contrário ao interesse do país”, justifica.
Geringonça “foi alívio” mas faltou vontade ao PS para respostas estruturais na economia
O antigo coordenador do BE considera que a geringonça foi “um alívio” com “medidas muito significativas” para a vida das pessoas, mas acusa o PS de “falta de vontade política” para responder estruturalmente aos problemas da economia.
Em entrevista à Lusa na semana em que se vai jubilar e dar a última lição no ISEG, Francisco Louçã refere que tem vida política ativa, apesar de “longe dos holofotes” e sem disputar qualquer lugar, admitindo que gostou de ser deputado, mas que hoje não gostaria devido ao “grau de degradação” do Parlamento.
Sobre o período da ‘geringonça’, quando o Governo minoritário socialista de António Costa foi apoiado no Parlamento por toda a esquerda, o antigo líder do BE considera que representou “uma mudança de clima” na economia depois de um “período de grande crispação” e de “agressividade política e social da ‘troika'”.
“Creio que não há nenhum aposentado ou aposentada que se esquecerá do que lhes fizeram aos subsídios de Natal e de férias e à compressão salarial. Saímos desse período para haver um princípio de recuperação. Respostas estruturais para os grandes problemas da economia nacional não foram dadas durante esse período”, aponta.
De acordo com o economista e professor catedrático, “houve medidas corretivas”, mas ficaram por fazer, por exemplo, “uma estratégia de industrialização ou de alteração da estrutura do mercado de habitação”.
“Foi uma interrupção, um alívio, uma promessa”, sintetiza sobre a geringonça, lembrando “medidas fundamentais” que foram então implementadas como os passes dos transportes ou os manuais escolares gratuitos.
Na perspetiva de Louçã houve durante esse período “diferenças que são muitíssimo significativas na vida das pessoas”, mas “faltou vontade política” ao PS para uma estratégia que transformasse “a habitação, o salário e as condições de vida”.
Sobre o futuro, Louçã afasta o regresso a qualquer cargo público, sem qualquer arrependimento por, nas últimas eleições legislativas, ter voltado a encabeçar uma lista de deputados pelo BE, o que justifica com “circunstâncias muito excecionais”.
“Foi um período de forte recuo da esquerda, de grande avanço da extrema-direita, de grande desagregação da direita. Ainda me consigo surpreender pela forma como Passos Coelho se ‘venturizou'”, critica.
Quanto à situação económica atual, o professor catedrático considera que o PRR foi “uma oportunidade perdida” porque “não se concentra suficientemente em objetivos nem escolhe determinados objetivos”.
“São distribuições clientelares ou setoriais de financiamentos para fazer recuperar alguns setores ou algumas empresas ou para cumprir objetivos atrasados de infraestrutura com défices extraordinários”, lamenta.
Louçã aponta um “capitalismo de liberalismo autoritário” e, sobre o caso português, refere que, como “as oportunidades de acumulação e de distribuição são reduzidas”, o poder político tende a tornar-se “mais autoritário para garantir que elas são concentradas nas mãos daqueles que lhes são mais próximos”, formando-se “gangues políticos e económicos à volta do poder”.
Depois de 30 anos como professor, o antigo coordenador bloquista assegura que nunca levou a política para aulas e lecionou várias teorias com as quais estava profundamente em desacordo.
“Na ciência nós temos de ter uma abertura de pluralidade de opiniões que não pode ser contaminada ou restrita por qualquer visão política. Eu nunca lhes falei de qualquer atividade política, nunca convidei nenhum aluno para qualquer atividade política, isso era inconcebível, não tem nenhum sentido. É preciso respeitá-los, eles não podem ser instrumentalizados”, afirma.
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