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Wednesday, October 21, 2026

"A vossa causa é a nossa": a noite na praça sem tendas

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Sem tendas, Lisboa e Porto viveram noite de atuações e tréguas com a polícia. No Rossio, uma manifestante chegou a oferecer café aos agentes, que admitiram ser "a primeira vez". Mas tudo quase mudou.

“Mas vocês estão do nosso lado?” É o que pergunta uma manifestante que está desde o primeiro dia na Acampada de Lisboa a um agente da PSP, já depois das 00h30 desta terça-feira. “Não há essa sensação”, continua. O polícia devolve a pergunta: “De que lado? Do cumprimento da lei”. “A lei falha-nos”, contrapõe a jovem. “A vossa causa é a nossa causa. Nós também precisamos de casa”, acaba por dizer o agente que diz estar ali destacado há quatro dias. E a rapariga: “Também eu”.

“Não nos interessa nada estar a fazer o que fizemos hoje [terça-feira] de madrugada. Sabe quanto tempo demoramos a fazer o expediente? São horas em que não estamos a combater o crime”, desabafa, acrescentando com um sorriso: “Só nos chamam para os problemas, nunca para a festa. E eu que até estou sempre a dar um passinho”.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Em Lisboa e no Porto, esta foi a primeira noite sem tendas no chão — depois de dez dias na Invicta e três na capital, e na ressaca da intervenção policial que terminou com 55 detidos na Praça D. Pedro IV.

Protestos em Lisboa: a reconstituição da madrugada em que a PSP pôs fim à acampada no Rossio

Esta terça-feira, o porta-voz da PSP, Sérgio Soares, garantiu que a operação na Praça D. João I e no Rossio “foi exatamente desenvolvida com os mesmos critérios de atuação”. Ao contrário do que aconteceu no Porto, onde os manifestantes “acataram” as indicações para desmobilizar, em Lisboa “essa indicação não foi acatada”, o que “obrigou a uma intervenção policial devidamente adequada, proporcional e sem qualquer tipo de excesso”, justificou a polícia.

Ao Observador, vários agentes confirmam no terreno que esta terça-feira foi um dia “muito calmo”, relatando que quem tenta o confronto é “uma minoria”. “Eles não estão contra nós”, resume um dos elementos no local, no mesmo instante em que uma manifestante interrompe para perguntar: “Querem um cafezinho?”. Os polícias agradecem a sorrir: “Foi a primeira vez”. Mas, ao contrário da Acampada do Porto, quase tudo esteve para mudar em Lisboa.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

“Não extravasar”: o alerta da polícia antes das atuações no Rossio

Por momentos, e ainda várias horas antes da madrugada — altura em que as tensões costumam aumentar —, o clima de descontração parecia estar prestes a mudar. E, desta vez, o motivo não tinha a ver com tendas nem com a decisão de passar a noite na praça, mas com as atuações musicais anunciadas pela organização.

Fotogaleria. Os protestos que voltaram a juntar milhares no Porto e em Lisboa e os concertos, de Ana Moura a Dino D’Santiago

Depressa se gerou uma discussão sobre licenças e autorizações. Mariana, uma das manifestantes, explicou ao Observador o aviso que tinha acabado de receber da polícia: aquelas atuações não podiam “extravasar” os limites de simples manifestações de apoio nem transformar-se em concertos.

O Observador perguntou à PSP no terreno qual era o critério. A resposta de um dos agentes resumiu-se à duração das atuações: “Já foi a um concerto?”, perguntou. “Então sabe o tempo que deve durar.” Ao que o Observador apurou, a iniciativa foi comunicada à Câmara Municipal de Lisboa.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

E os concertos arrancaram mesmo. Primeiro veio Ana Moura, a abrir com “Pedra Filosofal” de Manuel Freire. Foram atuações curtas, depois de uma assembleia popular em que foi também perguntado “quem é a favor de menos intervenções para dar tempo às atividades artísticas”. A seguir vieram Nenny, Vitorino, Gaspar Varela, Dino D’Santiago e Samuel Úria.

Do outro lado da praça, e longe das mais de mil pessoas que assistiam às atuações, havia grupos sentados pelo chão e malabaristas a treinar truques de circo espalhados por vários cantos da calçada.

Uma delas era Magdalena, estudante checa de Erasmus a frequentar artes performativas em Lisboa. “Eu vim pelo protesto e decidi trazer a arte”, explicou ao Observador. Junto a ela estavam os colegas com quem costuma encontrar-se todas as semanas para treinar na rua.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

“Eles também estão do nosso lado, só ainda não o sabem”

O momento de maior tensão acontece quando um grupo de agentes entra pelo meio da multidão já depois do fim do período legal para a manifestação.

Ao que o Observador apurou junto de fonte policial, os agentes intervieram depois de verem dois manifestantes treparem à estátua de D. Pedro IV a incendiar um cartaz. Os agentes relatam terem chegado “mesmo a ver chamas”.

A polícia diz que, na deslocação, pediu para pararem e que recebeu um pedido de desculpas de um deles, a quem um agente terá até oferecido ajuda para descer da estátua onde num dos cartazes se lia “PSP, amor, quero fazer as pazes” e noutro “Abolir a polícia”.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Do lado dos manifestantes, não foi possível confirmar o relato. Junto à base do monumento, quem ali estava limitou-se a dizer que os dois já tinham dispersado por entre a multidão.

Enquanto os agentes recuaram para as laterais do Rossio, foi ainda atirado um objeto na direção dos agentes. De seguida, outros manifestantes gritam: “Parem com isso!”

O resto do trajeto até à posição do outro lado da rua foi feito ao som de “O povo unido jamais será vencido”. À distância, encostados às carrinhas do outro lado da rua, polícias e manifestantes ficaram virados frente a frente com os manifestantes virados de dedos do meio no ar.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Horas antes, na assembleia popular em que ficou decidido que as tendas iam mesmo voltar a ser montadas no Rossio na quarta-feira, uma das intervenções lembrava: “Os polícias também estão do nosso lado. Só ainda não sabem.”

Sem contacto com manifestantes, polícia só assistiu à noite de calma no Porto

Depois da desmobilização ordenada pela PSP na última madrugada não eram claros os planos do movimento pela habitação para esta terça-feira. Se durante o dia a Praça D. João I esteve praticamente vazia, a partir das 18h30 o cenário rapidamente mudou. Mas o clima de tranquilidade entre manifestantes e polícias manteve-se ao longo da noite.

Centenas de pessoas chegaram, muitas para ouvir o concerto dos Clã que dava início à programação da noite. O sistema de som ainda estava a ser montado quando estacionaram na rua Sá da Bandeira três carrinhas do Corpo de Intervenção e no interior da praça duas carrinhas da PSP. A poucos metros de distância, manifestantes e polícias ouviram o concerto dos Clã que pôs a multidão a cantar juntamente com Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves.

Entre músicas foram-se também ouvindo palavras de ordem que ganharam maior expressão quando o concerto acabou e a multidão se começou a dirigir para a Câmara Municipal do Porto, acompanhada pela polícia que rapidamente cortou o trânsito. À semelhança do que aconteceu na semana passada, o movimento pela habitação esteve cerca de 10 minutos no topo da Avenida dos Aliados a entoar cânticos dirigidos ao autarca do Porto como “Pedro Duarte presta atenção, a tua casa vai virar ocupação”.

David Oliveira

Terminados os cânticos, a multidão regressou à Praça D. João I onde continuavam carros da polícia, e ali prosseguiu a programação definida pelo movimento para esta terça-feira. Antes do concerto de Capicua, foi projetada numa tela uma videochamada com vários movimentos de protesto pela habitação espanhóis, e nesta altura fez-se silêncio na praça para ouvir as intervenções dos manifestantes do país vizinho.

Sob o olhar atento das autoridades, tanto da PSP, como do Corpo de Intervenção, os manifestantes assistiram ao resto das atuações num ambiente descontraído.

Depois dos concertos e ainda antes da assembleia popular, foram declamados alguns poemas de resistência como “As portas que Abril abriu” da autoria de Ary dos Santos. Recebidos com grande entusiasmo pela multidão que ocupava a praça, os poemas deram depois lugar a intervenções que deixaram duras críticas à atuação da polícia na última madrugada.

A poucos metros de quem discursava estavam as autoridades que nunca chegaram a ter, esta terça-feira, qualquer contacto com os manifestantes.

Finalizada a programação definida, a multidão começou a dispersar, mas, ainda assim, a praça não ficou vazia. Como nas noites anteriores, com o aproximar da meia-noite os manifestantes juntaram-se em pequenos grupos de convívio. Alguns jogam à bola, outros fazem malabarismo, há quem ande de skate, e até quem veja jogos de basebol no computador.

À medida que a dimensão da concentração foi diminuindo a polícia foi também saindo da praça. As várias carrinhas de intervenção deram lugar a carros-patrulha que passavam ocasionalmente. Por volta da meia noite e meia — hora a partir da qual a manifestação deixa de ser legal — estacionou um carro da PSP e dois agentes ficaram a observar as poucas dezenas de pessoas que ainda ali se encontravam, mas acabaram também por deixar a Praça D. João I entregue a quem ainda resistia ao frio.

O ponto final do décimo primeiro dia de protesto foi ditado pela chuva. Num cenário de contraste com as noites anteriores, por volta das 2h da manhã, o palco dos protestos pela habitação ficou vazio. Mas, em comunicado, a organização garantiu que “isto não acabou” e com uma promessa de regresso, no próximo sábado, no mesmo local.

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