Flávio ataca a Igreja Católica para provar que não ataca a Igreja Católica

Flávio conseguiu, assim, uma pequena façanha política. Para demonstrar que não tem nada contra um dos maiores símbolos do catolicismo brasileiro, resolveu acusar integrantes da principal organização dos bispos católicos do país de colaborar com uma operação de fake news.
A história que atormenta a campanha surgiu da circulação, nas redes sociais, de conteúdo relacionado a um projeto de lei arquivado há quase 20 anos que pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O projeto foi proposto pelo pastor Victório Galli (PP-MT), então deputado, que depois se tornou assessor especial da Presidência na gestão de Jair Bolsonaro. Nos boatos, isso seria retomado, caso eleito, como sinalização a evangélicos.
Antes, o senador precisava apenas deixar claro que não pretendia mexer no título de Nossa Senhora Aparecida. Agora precisa explicar por que acusou integrantes da CNBB de participar de uma rede de desinformação. É o milagre da multiplicação das crises.
A CNBB disse que não integra estrutura político-partidária, de partido ou candidatura e que atribuir à entidade participação na disseminação de desinformação sem fatos que sustentem a acusação atinge injustamente a instituição.
Nada impede Flávio de criticar a CNBB. Bispos não são imunes a crítica e instituições religiosas também não, sejam elas católicas ou evangélicas. Mas acusar uma instituição de espalhar fake news exige algo mais consistente. Ainda mais quando a acusação parte de quem reclama justamente de estar sendo vítima de uma fake news.
E é nesse ponto que o episódio ganha contornos didáticos. Flávio exige cautela com informações falsas sobre ele, mas dispensa essa mesma cautela quando fala dos outros. Quer provas para desmontar a acusação que o atinge, mas não oferece nenhuma para sustentar uma acusação que faz.
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